Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

PUBLICIDADE
  1. Home
  2. Vida Pública
  3. O que restou das jornadas de junho?

Juventude e política

O que restou das jornadas de junho?

Cinco meses após o auge dos protestos, três jovens curitibanos que saíram às ruas avaliam o resultado das manifestações como um misto de desilusão e avanços pontuais

  • Yuri Al’Hanati
  • Atualizado em às
Thabata segura a foto dela própria numa manifestação em Curitiba: protesto pela liberdade de imprensa e contra a violência policial |
Thabata segura a foto dela própria numa manifestação em Curitiba: protesto pela liberdade de imprensa e contra a violência policial
 
0 COMENTE! [0]
TOPO

O que restou das jornadas de junho?

O Brasil passou os últimos meses tentando entender os protestos que ficaram conhecidos como “Jornadas de Junho”. Em pouco tempo, surgiu uma bibliografia extensa sobre o tema, além de análises, debates e pequenos documentários elaborados pela mídia, acadêmicos e até mesmo por políticos. As vozes dos manifestantes que saíram às ruas, porém, foram ficando cada vez mais fracas no debate público. Cinco meses depois do auge das marchas, a Gazeta do Povo foi atrás de jovens que estavam lá para que eles avaliassem os resultados dos protestos.

A produtora de tevê Thabata Curi Dumpierre Machado, de 18 anos, conta que o que a levou às ruas foi a indignação com a violência contra jornalistas em São Paulo, especificamente contra a repórter da TV Folha Giuliana Vallone, vítima de um tiro de bala de borracha da PM no olho. “O que aconteceu com ela e a omissão inicial do jornal me indignou”, lembra. Em uma das passeatas de Curitiba, Thabata saiu carregando um cartaz onde se podia ler “Cadê a liberdade de imprensa?” – momento registrado pelo fotógrafo da Gazeta do Povo Daniel Castellano.

A repressão policial nos protestos pela redução da tarifa de ônibus em São Paulo, aliás, foi o estopim da onda de descontentamento difuso que levou milhões a protestarem. Mas cada um conseguiu encontrar sua própria motivação para levantar cartazes e marchar por um país melhor.

O consultor comercial Emilio Bompeixe Schulte Netto, de 27 anos, aderiu à massa descontente pela magnitude da manifestação em si. “Juntei alguns amigos porque achei que aquele protesto seria histórico, e levantei a bandeira contra a PEC 37 [proposta de emenda à Constituição que restringia o poder de investigação do Ministério Público], que estava em discussão no momento e ia contra os interesses da população”, conta.

Aquela jornada da qual participou Schulte Netto, em 21 de junho, culminou com a depredação de vários pontos no Centro Cívico, em Curitiba. “Comecei a ver as pessoas destruindo tudo, e estava gritando para que parassem, pois aquilo era nosso patrimônio também”, lembra. Foi esse instante que o fotógrafo Daniel Castellano captou.

A jornalista Silvia Henz, que participou da Marcha das Vadias e se autodefine como “parceira para qualquer manifestação”, decidiu fazer coro com a maior parte dos manifestantes. Saiu às ruas para pedir mais serviços públicos de qualidade, como saúde e educação, e menos investimentos na Copa do Mundo. “Boicote à Copa”, dizia seu cartaz.

“A Copa representava uma inversão de valores para mim. Achei aquela causa certa e fui para a rua”, diz Silvia. “Mas quando estava lá, vi uma porção de gente gritando por coisas que não tinham o menor sentido, pedindo a militarização do país e ‘fora Dilma’. Me senti enganada.”

Nem tudo são flores

Silvia conta ainda que se sentiu desiludida com a falta de foco dos protestos. “A gente grita e acha que pode mudar as coisas, mas ninguém está nem aí e a gente descobre que não pode mudar nada, só pode abaixar a cabeça. Não sei se vou protestar mais na rua.”

A decepção da jornalista Silvia encontra eco na avaliação que Thabata faz das jornadas. “O sentimento durante o protesto foi de felicidade, por saber que o povo tinha acordado e lutava por alguma coisa. Mas, no fim, a gente acabou vendo que não teve muito resultado. A tarifa [de ônibus] abaixou. Mas essa era a menor das conquistas que a gente queria”, diz a produtora de tevê.

Schulte Netto, porém, é um pouco mais esperançoso. “Os protestos tiveram um impacto muito grande. A tarifa baixou, a PEC 37 foi derrubada, e o fato de a presidente [Dilma Rousseff] se propor a levar a plebiscito ideias de reforma política indicam isso”, diz ele.

Os três concordam, porém, que a violência de grupos vândalos e a consequente repressão policial desestimularam a participação nas manifestações. “Eu não queria me envolver naquilo [no vandalismo]. Acho que a ideia do protesto nem era essa. Tinha gente que estava lá só para fazer bagunça, não sabiam o contexto”, diz Thabata. “A truculência [da polícia] acabou prejudicando. Acertaram spray de pimenta no meu olho. Por isso não voltei mais”, completa o consultor comercial.

Discussão

Ainda assim, analisando com certa distância temporal, os ex-manifestantes conseguem ver pontos positivos nos protestos. “As pessoas estão bem mais politizadas agora, compartilhando mais informações na internet”, comenta Schulte Netto. “Até para tentar entender as passeatas, as pessoas passaram a debater mais”, concorda Silvia. “Eu só espero que essa indignação se reflita nas eleições do ano que vem”, arremata Thabata.

8 recomendações para você

deixe sua opinião

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE