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Audiência Pública

Senadores ouvem propostas e bate-boca sobre Código Florestal

Em sessão na Assembleia do Paraná, ambientalistas e ruralistas discutem, mas concordam que o texto precisa de alterações

Sessão foi tumultuada e com muitos discursos. Vídeo sobre agricultores acirrou ânimos | Valterci Santos/ Gazeta do Povo
Sessão foi tumultuada e com muitos discursos. Vídeo sobre agricultores acirrou ânimos (Foto: Valterci Santos/ Gazeta do Povo)

Em discussão desde 1999, o novo Código Florestal – aprovado na Câmara Federal e em trâmite no Senado – ainda precisa de uma série de mudanças. Essa é a conclusão da audiência pública realizada ontem, em Curitiba, pela Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado. Representantes de ambientalistas e produtores rurais cobraram alterações no texto. Sob forte discordância, encerraram a audiência pública com bate-boca e troca de farpas.

A sessão, transmitida ao vivo pela TV Senado a partir das 14 horas, teve de ser estendida. Terminaria às 17 horas, mas acabou às 18h13 para que os 16 inscritos falassem. Depois de horas de exposições técnicas – que mostraram que o texto ainda desconsidera a realidade da produção rural bem como critérios básicos de preservação do ambiente –, os participantes perderam a paciência.

O desentendimento começou quando o procurador Saint-Clair Honorato dos Santos pediu para replicar um vídeo apresentado pela Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Ele disse que agricultores que apareceram dizendo estar prestes a serem expulsos do campo eram, na verdade, vítimas da falta de assistência técnica, da implatação de usinas hidreléticas e, por enquanto, não são multados por cultivarem terras à beira dos rios.

Foi então que o superintendente da Ocepar, Roberto Ricken, que havia repassado seu direito à palavra, pediu o microfone: "Respeita­­­mos a pessoa do doutor Saint-Clair, mas ele deveria ir ao interior para conhecer melhor essa realidade", disse. "Se tiver uma árvore, não foi plantada por ecologista", emendou, na tentativa de reforçar a ideia de que os produtores rurais preservam mais o ambiente que a população urbana.

Foi o suficiente para que alguns ecologistas levantassem e seguissem em sua direção, no plenário. Enquanto Ricken mantinha a calma no microfone, o presidente da Federação da Agricultura do Paraná (Faep), Ágide Meneguette, de dedo em riste, repreendia os ambientalistas, que pareciam dispostos a cercar o executivo.

O senador Sérgio Souza (PMDB-PR), que tomou a iniciativa de realizar a audiência no Paraná, acalmou os ânimos dizendo que os dois lados serão ouvidos pelo Senado. "Tem que saber ouvir e falar", alfinetou, pouco antes de a reunião ser encerrada. Depois da sessão, avaliou que os produtores rurais ouviram as proposições dos ambientalistas calados enquanto os ecologistas lançaram vaias diante de divergências.

O presidente da Comissão de Agri­­­cultura, o senador Acir Gur­­­gacz (PDF-RO), confirmou que haverá emendas ao texto. Ele próprio deve propor uma reforma ao artigo 8.º, que autoriza supressão de área de preservação quando o terreno é usado em atividades consolidadas, de utilidade pública ou interesse social. Esse artigo já foi reformado na Câmara.

Por outro lado, Gurgacz garantiu que a votação do novo Código Florestal ocorrerá em dois meses: "Nossa meta é 20 de outubro". Mas as alterações exigem que o texto volte para a Câmara antes de ser encaminhado para sanção da presidente Dilma Rousseff.

Exceções são focos de discordâncias

Ninguém será autorizado a desmatar florestas nativas pelo novo Código Florestal, garantem os produtores rurais. As exceções a essa regra, no entanto, colocam o ambiente em risco, argumentam os ambientalistas. Questões que envolvem a recomposição de florestas também alimentam as discussões, às vésperas de o projeto ir a votação no Senado.

"Vai ser o caos para a agricultura familiar", disse Mário Plefka, diretor da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Paraná (Fetaep). Ele teme que o código seja aprovado sem que se pese adequadamente todas as consequências da aplicação da nova lei. Os representantes dos produtores rurais dizem que a agricultura familiar será amplamente afetada se tiver de abandonar 20% de cada propriedade para composição da reserva legal.

"O Paraná já teve 98% de seu território no bioma Mata Atlântica e agora tem 10,52%", alertou o procurador de Justiça do Meio Ambiente Saint-Clair Honorato dos Santos. Ele mostrou mapas em que áreas verdes desapareceriam se dependessem do novo código.

O pesquisador da Embrapa Flo­­­restas Gustavo Curcio defendeu que limitar a área de proteção a uma certa distância dos rios configura um erro grosseiro, que simplesmente desconsidera questões consolidadas entre os cientistas. Segundo ele, é necessário estabelecer uma distância de acordo com as características da área, para ga­­­rantir a recarga hidrológica. Há casos em que a distância pode ser menor e outros em que precisa ser maior do que a prevista em lei, afirmou.

O agrônomo Silvio Krinski, coordenador de Meio Ambiente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), disse que as propriedades consolidadas – e que podem ser dispensadas da área de preservação permanente ou da recomponsição de reserva legal – não representarão degradação ao ambiente. Ele considera que, antes da dispensa, elas devem passar por avaliação técnica.

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