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Política e futebol

Sucesso da seleção na Copa não garante votos nas urnas

Ao contrário do que diz o senso comum, presidentes que concorrem à reeleição ou os candidatos apoiados por eles não costumam se eleger em anos de conquista

Lula com a seleção que embarcou para a África do Sul: presidentes fazem questão de dar apoio ao time antes da viagem para as Copas. Em troca, garantem visibilidade política | Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
Lula com a seleção que embarcou para a África do Sul: presidentes fazem questão de dar apoio ao time antes da viagem para as Copas. Em troca, garantem visibilidade política (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr)
Confira a relação entre a seleção brasileira e o poder nas Copas do Mundo |

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Confira a relação entre a seleção brasileira e o poder nas Copas do Mundo

A mistura entre Copa do Mundo e política está longe de ter influência decisiva nas eleições brasileiras, ao contrário do que reza o senso comum. A história mostra que o eleitor normalmente não beneficia candidatos à reeleição ou apoiados pelo presidente em anos de conquista do título mundial de futebol. Apenas em 1994, ano do tetracampeonato, Itamar Franco (PMDB) conseguiu eleger o candidato que apoiava, Fernando Henrique Cardoso (PSDB).Em 1960, dois anos após o primeiro título na Suécia, Juscelino Kubitscheck não teve força para emplacar como sucessor o marechal Henrique Teixeira Lott. Em 2002, ano do pentacampeonato na Coreia do Sul e Japão, o governista José Serra (PSDB) perdeu para Lula (PT). Após o bicampeonato de 1962 e o do tri, em 1970, não houve eleições devido à ditadura militar (1964-1985)."Não há uma relação matemática entre vitória na Copa e vitória nas eleições", diz o historiador Marco Antonio Villa, da Univer­sidade Federal de São Carlos. "Muito pelo contrário, essa mistura faz o brasileiro, em geral, ter cuidado e olhar para o passado."

Os traumas começam a partir de 1938, quando Getúlio Vargas recebe pela primeira vez os jogadores antes do embarque para a primeira Copa na França. Na ocasião, o Brasil chegou perto de vencer; ficou em terceiro.

"Em 1950 [na Copa no Brasil], os políticos ajudaram a desequilibrar o ambiente da seleção antes da final contra o Uruguai posando para fotos com os ‘campeões’ que seriam usadas na campanha. Deu no que deu." Ou seja, o Brasil perdeu o título para os uruguaios numa final com o Maracanã lotado.

Já na preparação para o Mun­­­dial de 1970, no México, Emílio Garrastazu Médici chegou a interferir na convocação. Ele praticamente impôs o atacante Dario Ma­­­ravilha no time. A Seleção acabou conquistando o tri, o que de certa forma apagou a ingerência política na escalação do time.

Quatro anos mais tarde, a filha de Ernesto Geisel teria feito um pedido, sem sucesso, para que Pelé disputasse a Copa da Alemanha. Na volta à democracia, a partir de 1985, os presidentes continuaram mantendo uma relação próxima à seleção. "O curioso é que nenhum deles se dispôs a receber um time que não tenha sido campeão, por mais que tenham feito um bom papel ou atingido uma boa colocação, como em 1982 e 1998", lembra Villa.

Em contrapartida, os presidentes sempre receberam os times campeões e buscaram "incentivar" a seleção antes da partida para as Copas – o que lhes garantiu visibilidade política.

FHC, tido como um dos presidentes mais avessos ao futebol, por exemplo, riu ao ver o jogador Vam­­peta fazendo cambalhotas na rampa do Palácio do Planalto após a conquista do pentacampeonato, em 2002. E Lula, em 2006 e 2010, não deixou de manter contato com a seleção antes da partida para a Copa.

O historiador Ricardo Pinto dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que a situação não é restrita ao Brasil. "Vivemos em uma sociedade de espetáculo e quem está no poder quer aparecer ao lado dos vencedores ou dos protagonistas", diz ele. Assim como Lula, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também recebeu a seleção norte-americana antes da Copa da África.

Para Santos, porém, a relação entre futebol e política não pode ser tratada de uma maneira superficial. "Tem uma elite no Brasil que acha que acompanhar futebol é ser alienado. Qual a diferença entre ser peemedebista e flamenguista? São duas situações de paixão e envolvimento diferentes."

Ele também não vê problemas em Lula utilizar o futebol como uma maneira de se comunicar com o brasileiro. Na última segunda-feira, ele usou o programa de rádio Café com o Presidente para falar sobre suas expectativas com relação à Copa. "Vou ver todos os jogos. Dedicarei um tempo para poder vê-los, dar força ao Brasil e esperar que possamos ganhar de novo. A única coisa que posso fazer é desejar aos jogadores toda a sorte do mundo e dizer que aqui há muito apoio", disse Lula.

Ele também informou que viajará a Johannesburgo para acompanhar a final – independentemente de quais sejam os finalistas.

Paternidade do Mundial

O diretor do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, avalia que a campanha de 2010 manterá a tradição de não ser influenciada pela Copa. "Mas há outro embate, que é a ‘paternidade’ da Copa de 2014, no Brasil", afirma.

Segundo Hidalgo, há uma disputa acirrada no plano regional para tentar tirar proveito da competição. "O eleitor vai ter de identificar quem foi responsável por trazer a competição para o Paraná. É uma sensação de que já está sendo medida pelos candidatos, inclusive em pesquisas." Os rivais nessa disputa são o governador Orlando Pessuti (PMDB) e o ex-prefeito Beto Richa (PSDB).

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