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Crianças em idade escolar, a partir dos sete a oito anos, podem participar das escolhas da família. Mas a responsabilidade de oferecer opções saudáveis ainda é dos pais. Foto: Bigstock.
Crianças em idade escolar, a partir dos sete a oito anos, podem participar das escolhas da família. Mas a responsabilidade de oferecer opções saudáveis ainda é dos pais. Foto: Bigstock.| Foto:

Resistir, persistir e variar. Esse foi o lema da psicóloga Ana Brum, 43 anos, para convencer seu filho, León Brum Scherbaum, de 3 anos, a comer de forma mais saudável.

Atingir esse objetivo não foi fácil. Principalmente quando ele, com um ano e oito meses, começou a rejeitar arroz, feijão e batata – alimentos aos quais já estava acostumado. A tentação de servir lanche ou algo que fosse mais agradável ao paladar dele foi forte, mas Ana não se dobrou.

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“Alimentação é algo muito angustiante para os pais. Chega uma hora em que a gente quer que os filhos comam qualquer coisa, desde que comam. Esse é o pior momento. O importante é resistir e não substituir a comida por lanche. Não se pode dar só o que a criança gosta, aí eles tomam conta”, aconselha.

Oferecer alimentos saudáveis, como frutas, vegetais e legumes, é fundamental para desenvolver o paladar infantil. Pode ser necessário colocá-los no prato até 10 vezes para que sejam notados pelas crianças. Sobretudo para quem ainda está na primeira infância (até os seis anos de idade). Trata-se, basicamente, de um hábito – tanto para pais quanto para filhos. E é preciso desenvolver estratégias. No caso de Ana, a solução foi introduzir novas opções de forma discreta.

– Fiquei uma semana tentando as mesmas coisas, mas ele não aceitava. Até que um dia começou a comer bife e massa. Ele desenvolveu essa preferência e aí comecei a misturar. Passei a fazer pratos como almôndega com cenoura, torta de espinafre e bolo de cenoura. Não é esconder os legumes, mas sim enriquecer a alimentação – explica.

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Quando completou dois anos, León começou a frequentar uma escola no bairro Menino Deus, na Capital. Foi lá que seu paladar se expandiu. Sob supervisão da nutricionista Mariana Brito, ele passou a experimentar e consumir uma variedade maior de alimentos, o que contribuiu em seu desenvolvimento. “Uma alimentação inadequada pode interferir no crescimento infantil, além de prejudicar o aprendizado”, comenta Mariana.

Dieta fraca em nutrientes impacta na vida adulta

Com um ano e 11 meses, Henrique Lemos também passou a comer melhor desde que ingressou na escola. Sua mãe, a também nutricionista Manuela Lemos, 35, lembra que, mesmo que ele rejeitasse algum alimento novo no prato, o importante era persistir com a exposição.

Também é fundamental aos pais não demonstrar nervosismo quando algo for recusado. Agir naturalmente, neste caso, faz com que a criança não tenha na refeição uma experiência negativa.

“Se ele não aceita legumes ou frutas, ao menos tento oferecer alimentos caseiros. Nada industrializado ou fritura. Isso ele já comeu e acaba provando na rua, só que tento evitar ao máximo. É o caso do chocolate. Ele experimentou e adorou, mas não ofereço”, comenta Manuela.

É importante não expor as crianças a doces e a alimentos gordurosos nos dois primeiros anos de vida. A nutróloga e pediatra do Hospital Moinhos de Vento Patrícia Piccoli de Mello explica que uma dieta fraca em nutrientes pode ter consequências na vida adulta.

“Cabe aos pais estimular o consumo de diversos alimentos e sabores, além de colocar limites na quantidade de açúcar. Se isso não acontece ou se a criança é muito seletiva, ela se torna um adulto que tem preferência por alimentos muito doces, salgados e gordurosos. Esses alimentos geralmente têm boa apresentação, bom paladar, custo baixo e podem ser ingeridos em qualquer lugar. Porém, estão associados com risco aumentado de obesidade, elevação de colesterol, diabetes e hipertensão arterial”, alerta Patrícia.

Beautiful blond mom teaching her two children cooking on the kitchen. Parent making everyday breakfast together with kids. Family at home lifestyle photo.
Beautiful blond mom teaching her two children cooking on the kitchen. Parent making everyday breakfast together with kids. Family at home lifestyle photo.

Você deve dar o exemplo

O exemplo também é uma ferramenta poderosa para convencer as crianças. Afinal, ao ver o pai ou a mãe consumindo frutas ou legumes, existe uma maior probabilidade destes alimentos serem mais aceitos. Outra estratégia para a aceitação de sabores é variá-los sempre que possível.

A nutricionista do Hospital da Criança Santo Antônio Caroline Ayres diz que isso é importante para diminuir o risco de se acostumar a uma dieta pobre em nutrientes. “A janela para a habituação aos sabores é estreita, começando a fechar-se pelos dois anos de idade e encerrando aos três. Uma criança com um portfólio alimentar reduzido tende a manter essa monotonia até à adolescência, consumindo geralmente uma dieta rica em calorias, mas pobre em nutrientes”, diz ela.

Existem janelas de oportunidade para o treino da aceitação de alimentos mais sólidos e de paladares e texturas diferentes. A ausência deste treino, que deverá ocorrer entre oito e 10 meses de idade, poderá comprometer o processo de diversificação alimentar.

Mas quando uma criança adquire discernimento o suficiente para escolher o que comer? É importante estimulá-las desde o primeiro ano de vida ao hábito de selecionar opções saudáveis. A proatividade, segundo Patrícia Mello, ajuda a consolidar um paladar mais abrangente.

“Quando a criança já for capaz de se servir à mesa e de comer sozinha, geralmente na idade pré-escolar, essa iniciativa deverá ser permitida e estimulada. A partir dos sete ou oito anos, todos devem receber educação nutricional para fazer a escolha correta dos alimentos e adquirir melhor qualidade de vida. A escola pode contribuir muito nesse processo”, diz ela.

Os pais, contudo, não devem atrelar a boa alimentação a prêmios. Ao oferecerem alguma recompensa, como doces, ao filho que comer frutas e legumes, acabam trazendo ao hábito uma necessidade de compensação.

“A paciência, a criatividade e a persistência são essenciais para o manejo dessa fase. Mas nunca deve-se forçar, ameaçar ou associar eventos negativos ao ato de comer. Também não se deve premiar a criança com ofertas extras do alimento ou com presentes. O papel dos pais é oferecer a melhor combinação possível de alimentos, dentro da realidade de cada família”, explica Patrícia Mello.

A melhor estratégia é a persistência

Qual é o principal desafio para acostumar as crianças desde cedo com uma alimentação saudável?
É não oferecer açúcar nos dois primeiros anos de vida. Nós já nascemos com preferência pelo doce. Nessa fase, a criança deve ser exposta a diferentes sabores, presentes em alimentos saudáveis como frutas e verduras. Esse período é crucial para a formação do paladar infantil.

Quais alimentos são os mais indicados na primeira infância? Eles são bem aceitos?
A partir da introdução alimentar, que deve ocorrer aos seis meses de idade, as crianças devem receber o que chamamos de “comida de verdade”, ou seja, arroz, feijão, carnes, legumes, verduras e frutas. Os alimentos com sabor mais amargo e azedo, como algumas verduras e frutas, podem ser rejeitadas inicialmente. Mas os pais devem seguir ofertando para que a criança se acostume. Podem ser necessárias até 10 exposições do mesmo alimento para que ele seja aceito.

Que tipo de estratégia pode ser utilizada para que as crianças consumam alimentação mais nutritiva?
A melhor estratégia é a persistência. Não desistir de oferecer alimentos saudáveis mesmo que a criança rejeite. É importante criar familiaridade. Frutas e verduras devem sempre estar sempre presentes nas refeições, mesmo em caso de recusa. A criança precisa ver os pais comendo estes alimentos para que tenha interesse em experimentá-lo. Levar as crianças para a cozinha também é uma estratégia eficaz. O preparo de uma receita pode despertar interesse, além de ser um momento de interação com a família.

Como evitar que os alimentos mais gordurosos caiam no gosto das crianças?
O ideal é não oferecê-los precocemente, principalmente nos primeiros dois anos de vida. Caso o hábito já esteja instalado, seu consumo deve ser controlado pelos pais. É importante definir a frequência e quantidade a ser consumida. Não ter estes alimentos em casa também ajuda.

A partir de que idade a criança tem maturidade suficiente para escolher o que comer?
Crianças em idade escolar, a partir dos sete a oito anos, podem participar das escolhas da família. Mas a responsabilidade de oferecer opções saudáveis ainda é dos pais. Nesta idade, elas compreendem as diferenças entre os alimentos, mas tendem a fazer escolhas baseadas nas suas preferências ou pelo sabor, sem maturidade suficiente para decidir sozinha. O ideal é que os pais ofereçam opções saudáveis e negociem o consumo de alimentos industrializados, os ricos em açúcar e gordura. Nessa fase, é possível ensiná-los a ler os rótulos e explicar diferenças entre os alimentos.

Comer saudável é desafio de volta às aulas. Foto: Bigstock.
Comer saudável é desafio de volta às aulas. Foto: Bigstock.

A dieta para os primeiros anos

A composição deve ter frutas, cereais (trigo, arroz, aveia, cevada e centeio) ou tubérculos (batata, aipim, inhame), leguminosas (feijão ervilha, lentilhas, grão-de-bico), carnes (bovina, vísceras, de aves, suína, de peixe e ovos) e hortaliças (verduras e legumes), sendo preparada em papas e oferecidas ao longo do dia conforme a idade da criança.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a preocupação deve ser com a qualidade e variedade dos alimentos oferecidos para a criança e não somente com a quantidade ingerida. Lembrando sempre a importância da manutenção do aleitamento materno, que tem efeito protetor contra o desenvolvimento futuro da obesidade e de outras doenças.

Nenhuma fruta é contraindicada, mas os sucos devem ser evitados nos primeiros anos de vida. Não se deve adicionar sal, açúcar (refinado, mascavo e outros tipos) e farinhas no preparo da alimentação complementar.

Nos primeiros anos, alguns alimentos não saudáveis devem estar distantes, pois reduzem o apetite e competem com alimentos mais nutritivos, além de determinar o paladar dos filhos. O ideal, inclusive, é evitar tê-los em casa.

São eles: iogurtes industrializados, queijinhos petit suisse, macarrão instantâneo, gelatina, salgadinhos, refrigerantes, sucos em pó, café, sorvetes, biscoitos recheados, alimentos industrializados pré-prontos, temperos prontos, refrigerantes, enlatados, embutidos, entre outros.

6 dicas para propor uma alimentação mais saudável

– Ofereça alimentos variados em todas as refeições.
– Nunca obrigue seu filho a comer, mas sempre coloque frutas, verduras e legumes no prato. Inicialmente, pode ser uma pequena porção.
– Leve as crianças ao supermercado ou feiras e peça ajuda para escolher alimentos saudáveis.
– Envolva a criança no preparo de receitas. Além de ser uma experiência divertida, isso desperta a curiosidade delas.
– Dê o exemplo e também priorize o consumo de alimentos saudáveis.
– Nunca desista. Algumas crianças são mais resistentes e podem demorar a aceitar novos alimentos.

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