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Brasil tem “cultura” do vape escondida nas redes sociais, apesar da proibição

Com linguagem e ideias próprias, os vapers (ou usuários do cigarro eletrônico) compartilham dúvidas e “soluções” em grupos nas redes sociais

Cigarros eletrônicos: onde as pessoas compram e por que é tão fácil o acesso? Foto: Bigstock.Cigarros eletrônicos: onde as pessoas compram e por que é tão fácil o acesso? Foto: Bigstock.

Em teoria, o comércio do cigarro eletrônico é proibido no Brasil. Na prática, os brasileiros conseguem comprar tanto os vapes (nome mais conhecido dos dispositivos eletrônicos para fumar) quanto as essências (ou juices) em uma simples visita ao Google.

“Comprar vape Brasil”, eu digito e logo aparece uma infinidade de páginas na plataforma de pesquisa, sem falar nas propagandas com as promoções. E os valores são bastante variados. Um USB Kit recarregável PathFinder vaporizador V2 seco, em quatro cores diferentes, custa R$ 114,56 cada. Já um PAX 3 completo, original, e disponível à pronta entrega, sai por R$ 1.549,99.

Pods, coil, juice, vape (favor não confundir com vaper, ou a pessoa que faz uso do dispositivo), mod, gear, ecig.

Para ser membro do, cada vez menos exclusivo, grupo de quem faz uso dos cigarros eletrônicos é preciso dominar uma linguagem à parte. Nem mesmo quem era adepto da cultura tabagista consegue se achar nesse novo idioma, mas há tradutores. Onde? Onde todo mundo está hoje: nas redes sociais.

Grupos no Facebook pipocam em dezenas. Alguns voltados apenas ao comércio dos dispositivos e das essências, outros mais abertos aos usuários com dúvidas. No Instagram, a hashtag #vaper tem mais de cinco milhões de publicações. Já para o #vape são 27 milhões.

O maior dos grupos no Facebook, o Vape Brasil, reúne 21 mil pessoas em uma discussão fechada que exige respostas a um questionário antes de ser aceito. É preciso dizer ter mais de 18 anos e é preciso dizer que lerá as regras. Do contrário, a entrada não será permitida. O mesmo vale para o Darth Vaper Brasil, com 10 mil membros, e para o Classificados Vape, com pouco mais de oito mil participantes.

Reprodução do questionário enviado aos interessados em participar do grupo sobre cigarros eletrônicos

Reprodução do questionário enviado aos interessados em participar do grupo sobre cigarros eletrônicos (Foto: reprodução)

Vape “saudável”

Quando se descobriu que o cigarro não era um hábito saudável, a indústria foi rápida em achar uma solução. Com a adição de um filtro, os tabagistas poderiam ficar tranquilos porque o risco à saúde estaria eliminado.

Passaram-se uns anos e a casa caiu novamente. Os cigarros, mesmo filtrados, predispunham ao câncer tanto quanto as versões anteriores. Novamente era preciso uma mudança, e então vieram as versões light, ultra light, super light. Nada feito. O risco continuava.

A resposta agora parece ser os cigarros eletrônicos, com seus oito mil sabores diferentes, mas os usuários já estão preparados para as críticas:

“Ninguém fala que o cigarro eletrônico é saudável, e eu sou muito enfático e claro em qualquer palestra. Não é saudável, assim como a carne vermelha e a gordura também não são. Mas estamos falando em trocar uma coisa muito prejudicial por algo extremamente menos prejudicial. É uma redução de danos”, diz Alexandro “Hazard” Lucian, publicitário, empresário e criador do projeto Vapor Aqui – site com informações sobre a cultura do vape. 

Alexandro defende o uso do vape como um “salvador” da sua vida, e de quem quiser parar de fumar o cigarro comum. “Eu fumava três carteiras de cigarro todos os dias e já tinha tentado todos os métodos homologados pela Anvisa. Adesivo, goma, remédio, acupuntura, nada funcionou. Em 2015 eu comprei o primeiro aparelho de cigarro eletrônico, e eu considero como [algo que] salvou minha vida”, relata o empresário.

Hoje, Alexandro não fuma mais o cigarro convencional, mas ainda é adepto do eletrônico de vez em quando. E é aí que a indústria confunde o usuário, na opinião da médica Stella Regina Martins, especialista em Dependência Química da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC/FMUSP).

“Se uma pessoa larga o cigarro tradicional e vai para o cigarro eletrônico, ela não está tratando nenhuma dependência. Nem a química, porque ela ainda faz uso da nicotina, nem a comportamental, porque ela ainda mantém o hábito de levar algo à boca. E nem a psicológica, porque o simbolismo do cigarro, de ele ser um grande amigo, uma bengala na vida da pessoa, continua. A tentativa em tratar o tabagismo com esses produtos não é tratar, mas perpetuar as três dependências do cigarro”, explica a especialista. 

Por que na Inglaterra pode?

Há, no entanto, países que incorporaram o cigarro eletrônico como uma medida de redução do tabagismo, como a Inglaterra — citada tanto pelo usuário quanto pela especialista, cada um com a sua visão.

Conforme Alexandro, cerca de 1,5 milhão de ingleses substituíram o cigarro tradicional pelo eletrônico e o uso do dispositivo entre os jovens lá não é tão significativo quanto nos Estados Unidos, ou mesmo no Brasil, supostamente pelo maior controle e regulamentação do Estado.

Os dados são confirmados pela agência de Saúde Pública da Inglaterra. Em fevereiro de 2019, o órgão divulgou um relatório sobre o consumo do cigarro eletrônico no país e concluiu que o uso regular entre os jovens permanece baixo, enquanto que entre os adultos houve uma estabilização.

“Os resultados mostram que embora a experimentação com o cigarro eletrônico entre a população jovem tenha aumentado nos últimos anos, o uso regular permanece baixo. Apenas 1.7% daqueles abaixo dos 18 anos usam o cigarro eletrônico semanalmente ou mais, e a grande maioria deles também fuma [o cigarro comum]. Entre a população jovem que nunca havia fumado antes, apenas 0.2% usa o cigarro eletrônico regularmente”, conforme o relatório, traduzido do inglês.

No entanto, abandonar o cigarro comum e usar apenas o cigarro eletrônico, ainda que de vez em quando, não torna ninguém “ex-fumante”, conforme lembra Stella Regina, especialista em Dependência Química.

“Quando se fala em ex-fumante, fica muito claro que é a pessoa que não consome mais nicotina. E o Reino Unido mudou a terminologia para eles, o que não é algo aprovado pela OMS, tornando o ex-fumante a pessoa que apenas parou com o cigarro comburente. Há uma taxa de 51,6% de ex-fumantes no Reino Unido, mas que ainda são dependentes da nicotina. E 44% das pessoas que tentaram parar de fumar com esse produto não conseguiram, e ficaram com os dois. Pior, 4,4% que nunca tinham fumado entraram na dependência da nicotina por meio do eletrônico. Isso a gente vê como um desastre em uma política pública de controle do tabagismo”, reforça a médica.

Cappuccino de chocolate com donuts de morango

A presença da nicotina, substância comprovadamente ligada ao vício, é um dos fatores que favorecem a dependência da pessoa ao cigarro eletrônico.

Mesmo em forma líquida, e principalmente por estar associada a essências adocicadas (há cerca de oito mil “sabores” diferentes), a nicotina mantém a ação viciante tal qual no cigarro comum.

Associado a isso, nos cigarros eletrônicos não há o desconforto da fumaça, visto que o vapor que emana dos dispositivos pode ser gelado e com um aroma muito mais agradável que o do cigarro tradicional.  

Ainda que o produto alegue ser “zero nicotina”, não é possível ter certeza, segundo Mariana Sponholz Araujo, médica pneumologista, uma das responsáveis pelo ambulatório de Tabagismo do Hospital das Clínicas da UFPR (HC/UFPR).

“O FDA [órgão de fiscalização de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos] encontrou nicotina mesmo em cartuchos que se diziam livres dela. Não há segurança. Mesmo que a nicotina não seja a principal substância ligada ao risco de câncer, há risco cardiovascular, de infarto, AVC. E o vício da nicotina no cigarro eletrônico pode ser uma porta de entrada aos adolescentes.”

Vale lembrar também que não há apenas nicotina nos cigarros eletrônicos, mas uma série de substâncias — muitas de ação desconhecida, especialmente a longo prazo, no organismo.

“Benzeno, metal, acroleína são outros elementos no cigarro eletrônico, além da nicotina, que não se sabe o potencial para transformar em doença. O diacetil é uma substância presente em flavorizantes relacionados ao sabor doce e sabemos do potencial em gerar bronquiolite. Há relatos de profissionais que fabricam pipocas doces que desenvolveram a doença. Nos Estados Unidos foi recomendado o banimento dessa substância, que está presente em várias marcas”, diz a pneumologista. 

Até porque, conforme lembra Luiz Fernando Ferreira Pereira, médico pneumologista, presidente e coordenador da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), os cigarros eletrônicos não passam por nenhuma padronização.

“Um cigarro eletrônico de 4ª geração [como os da marca californiana JUUL, por exemplo] veicula muito mais nicotina que os de primeira geração. O constituinte do produto é variável, e ainda vamos aprender os efeitos, especialmente quando surge uma doença grave, com mortes, como tem agora. O único elo, por enquanto, está no uso do cigarro eletrônico”, diz Pereira, citando os casos de doenças pulmonares identificadas nos Estados Unidos, associadas ao uso dos dispositivos eletrônicos de fumar, e que levaram a sete mortes (a última morte confirmada pelo estado da Califórnia na última terça-feira, 17).

E é justamente a regulamentação que pede Alexandro, empresário usuário dos e-cigs. “Nos Estados Unidos está provado que a falta de regulamentação gerou um uso muito grande por adolescentes. Mas é diferente de falar que o sabor morango, banana ou chocolate leva a pessoa a usar o cigarro eletrônico. Eu fiquei afastado dos cigarros porque o sabor do eletrônico tira a pessoa do gosto de tabaco queimado. Assim sai do vício para algo mais agradável. Adultos também gostam de chocolate”, argumenta.

Danos ao pulmão devido ao consumo dos cigarros eletrônicos ainda são desconhecidos por especialistas

Danos ao pulmão devido ao consumo dos cigarros eletrônicos ainda são desconhecidos por especialistas Foto: Bigstock.

Danos ao pulmão

Foram necessárias décadas para que os danos do cigarro comum se tornassem óbvios e incontestáveis. Já as consequências do uso do cigarro eletrônico vieram em pouco mais de 10 anos.

Nos Estados Unidos foram registrados quase 400 casos de doenças pulmonares graves, além de sete mortes, que atingiram principalmente os jovens. O órgão de controle de doenças no país, CDC, alerta em site que, embora tenham poucas certezas, os casos estão, sim, relacionados ao uso dos e-cigs.

“Todos os casos registrados têm histórico de uso dos cigarros eletrônicos, ou vaping [termo em inglês para designar o ato de vaporar esses dispositivos]. A maioria dos pacientes relatou que fez uso dos cigarros eletrônicos contendo THC. Muitos pacientes relataram o uso do THC e nicotina. Alguns relataram o uso dos cigarros eletrônicos com apenas nicotina”, explica o órgão no site.

Como orientação, o CDC alerta: “Até que tenhamos mais informações (…), o CDC recomenda que você considere evitar o uso de cigarros eletrônicos ou produtos de vaporar. Se você for um adulto que faz uso do cigarro eletrônico contendo nicotina com o objetivo de parar de fumar, não volte aos cigarros normais.”

O fenômeno não ficou restrito aos Estados Unidos. Na quarta-feira (18), o Canadá registrou um caso semelhante na cidade de London, da região de Ontario.

As autoridades de saúde do país não forneceram muitas informações sobre o caso, apenas que se tratava de um adolescente do ensino médio que fazia uso do dispositivo diariamente.

Diante do crescente número de afetados, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que planeja banir as essências (juices) com sabor usadas nos cigarros eletrônicos. Na sequência, a Índia seguiu a mesma orientação e também decretou a proibição dos dispositivos.

No Japão, o uso do vape e outros equipamentos que promovam um aquecimento, mas não a combustão, são permitidos, mas os juices, ou essências, voltados aos vapes com nicotina são proibidos. A China também estuda reforçar a regulamentação desses produtos.

No Brasil, uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 2009 mantém a proibição da comercialização e da propaganda dos cigarros eletrônicos — embora o uso não seja proibido.

“[Os casos nos Estados Unidos] serve de alerta para nós. Apoiamos muito a Anvisa para que mantenha a resolução de 2009. A gente sabe que tem o mercado ilícito, mas cabe à Anvisa e à polícia prender essas pessoas. E a Anvisa está fazendo várias autuações, vários sites saem do ar, levam multas. Infelizmente há também influenciadores digitais que fazem propaganda, ainda que sem o internauta perceber, desses produtos”, afirma Stella Regina Martins, médica especialista em Dependência Química.

“Uma alerta que fazemos é para as famílias. Caso uma mãe perceba na roupa ou na mochila do filho um cheiro, um aroma de fruta, canela, chocolate, que sente para conversar com o filho. Ou se há um cheiro assim pela casa. Por que é uma das poucas formas de se descobrir. Porque os objetos enganam. Eles vêm em formato de pendrive, batom, marca texto, lanterna. De repente a mãe olha e acha que é um material escolar normal”, alerta a especialista. 

Os riscos das essências “caseiras”

Uma das possíveis causas das doenças pulmonares que atingiram os jovens nos Estados Unidos, e agora no Canadá, é o ato de misturar as essências.

Muitos afirmaram, de acordo com o CDC, que fizeram uso dos dispositivos com cannabis e com THC, além de nicotina. E o ato de misturar não é algo incomum entre os usuários, como mostram as conversas em grupos do Facebook voltados ao vape.

“Mas por que a pessoa faz isso? Porque ela não sabe se o que ela compra na loja virtual é falso ou original, se explode ou não. Aí a pessoa ou faz isso [prepara as essências em casa] ou continua se arriscando”, explica Alexandro Lucian, empresário que faz uso dos vapes. 

Para fazer em casa, muitos lançam mão das essências usadas na culinária, como aquelas para a preparação de bolos. “Todas as essências usadas no cigarro eletrônico são da culinária também. Muita coisa do cigarro eletrônico foi adaptado. Hoje, os líquidos, inclusive os feitos nos Estados Unidos e na Europa, usam a essência da culinária”, reforça Alexandro.

Isso não significa, porém, que seja possível usar qualquer tipo de essência encontrada no mercado para o vape. “Muita gente vai ao mercado, compra uma essência da prateleira e quer colocar no vape. E consegue, vai ter gosto, porque é uma essência, mas está inalando aquilo que não se sabe. A gente não sabe o que o cigarro eletrônico pode fazer a longo prazo”, diz o empresário.

Nesse ponto, os especialistas de saúde concordam com o usuário: os efeitos são imprevisíveis, mas existirão.

“Nem nós sabemos [dos riscos de uso das essências para bolo em cigarros eletrônicos]. O produto é para colocar no bolo, que irá para o estômago, não para o pulmão. Na hora de fazer as alquimias em casa, a gente não sabe o que vai acontecer, mas que vai causar um dano, isso vai”, reforça a especialista em Dependência Química, Stella Martins.

De acordo com o médico pneumologista Luiz Fernando Ferreira Pereira, o consumo do tabaco, seja “leve” ou não, fará mal à saúde.

“O uso continuado vai desencadear em uma doença. Um exemplo diferente é o travesseiro de pena de ganso. Temos casos de fibrose no pulmão por uso continuado desse travesseiro. A pessoa que fica inalando substâncias na via aérea frequentemente vai ter problema. E o termo “vaporizar” pode até estar certo, porque não há a queima de nada, mas alivia demais. Na verdade, a pessoa que faz uso do cigarro eletrônico está inalando um conjunto de substâncias junto desse vapor”, afirma.

Como o cigarro eletrônico funciona?

Todos os dispositivos eletrônicos para fumar (dos menores aos maiores) funcionam da mesma maneira: há uma bateria, que é a fonte de energia; uma resistência e um algodão embebido na essência.

O puxar de ar da pessoa faz com que a bateria gere energia e jogue para a resistência, que aquece. Ao esquentar, a resistência (tal qual de um chuveiro elétrico) vaporiza o líquido do algodão, que é inalado. Não há nem a queima de algo, nem combustão, mas a pessoa tampouco inala apenas vapor d’água. 

O calor do vapor varia conforme a potência do aparelho. Em dispositivos com maior potência, o vapor pode sair mais quente. Potência média, a temperatura é morna e, baixa, o vapor é gelado.

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