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Novo relatório da OMS alerta para os riscos escondidos nas papinhas industrializadas para bebês (Foto: Bigstock)
Novo relatório da OMS alerta para os riscos escondidos nas papinhas industrializadas para bebês (Foto: Bigstock)| Foto:

Um novo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para os riscos escondidos nas comidas para bebês, ou as chamadas “papinhas”.

As versões industrializadas frequentemente contêm mais  açúcares do que deveriam e são incorretamente anunciadas como adequadas para crianças abaixo dos seis meses de idade, conforme o alerta do órgão.

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Mais de 30% das calorias contidas nas papinhas industrializadas eram açúcares, conforme identificou o órgão em metade dos produtos analisados.

E entre 28% a 60% dos itens eram identificados como adequados para crianças antes dos seis meses de idade — recomendação considerada inadequada pela OMS, que preconiza o aleitamento materno exclusivo dos bebês até essa idade, pelo menos. 

A metodologia usada para o relatório coletou dados de quase oito mil produtos (7.955 itens entre comidas e bebidas) direcionados ao público infantil na Europa.

Os itens foram adquiridos em 516 lojas de quatro cidades europeias: Viena, na Áustria; Sofia, na Bulgária; Budapeste, na Hungria; Haifa, em Israel. A avaliação ocorreu entre novembro de 2017 e janeiro de 2018, e foi divulgada no início de julho de 2019.

Realidade brasileira

Embora o levantamento tenha ocorrido em cidades na Europa, a realidade brasileira não é muito diferente daquela alertada pela OMS, conforme explica Adriane Cardoso Demartini, médica endocrinologista pediátrica, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

“Vale [o alerta da OMS] para o mundo todo. Atualmente, a alimentação da criança recebe muitos produtos industrializados. A recomendação é que, até os dois anos, os pais não usem açúcar adicionado a bebidas ou alimentos. A partir dos dois anos, o açúcar adicionado seria de até 25 g por dia, algo como cinco a seis colheres de chá. Mas os pais nem sempre calculam esse açúcar adicionado em alimentos industrializados, e em geral esse número é ultrapassado”, explica a médica, que é também responsável pelo ambulatório de obesidade infanto-juvenil da Unidade de Endocrinologia Pediátrica do Hospital de Clínicas da UFPR.

Além de os produtos industrializados vendidos no Brasil também terem açúcar adicionado (que pode ser visto a partir da quantidade de carboidratos nas tabelas nutricionais dos produtos), é importante lembrar que todos os açúcares, ainda que ditos mais “saudáveis”, carregam o mesmo risco às crianças.

“Alimentos industrializados têm açúcar. Sacarose é açúcar. E açúcar é açúcar, não importa se for sacarose, mascavo ou demerara”, explica a médica. 

Risco de obesidade

Além de estimular o consumo dos produtos industrializados antes de uma idade adequada, a alta quantidade de açúcares nesses produtos aumenta o risco de desenvolvimento da obesidade infantil e diabetes. O risco está principalmente na mudança do paladar das crianças, favorecendo a preferência por doces desde muito cedo.

Conforme explica Adriane Demartini, endocrinologista pediátrica, o ganho acelerado de peso nos primeiros seis a 12 meses de vida está relacionado ao aumento no risco de obesidade da criança mais tarde, aos cinco anos e mesmo na adolescência

“Por que há essa ‘proibição’ do açúcar adicionado até os dois anos? Porque essa é a fase de maior crescimento das crianças, de conexão no cérebro, formação do paladar e do metabolismo. A criança que consome muito açúcar tem maior tendência a um paladar mais doce e o açúcar é calórico, mas não é nutritivo. Atrapalha a ingesta de alimentos mais saudáveis e nutritivos”, reforça a médica.

Em cerca de três das quatro cidades avaliadas pela OMS, mais da metade dos produtos continham, do total de calorias, mais de 30% de açúcar. Na lista de ingredientes estavam: açúcares, suco de fruta concentrado e outros adoçantes.

“Embora alimentos, como frutas e vegetais, que tenham naturalmente açúcares, sejam apropriados para crianças, o alto nível de açúcares livres em produtos comerciais também é motivo de preocupação”, alerta o relatório da OMS. 

Entre 2008 e 2015, houve um aumento na quantidade de bebês (entre 0 a 5 anos) e crianças (entre 5 a 10 anos) que apresentavam sobrepeso, obesidade e obesidade grave no Paraná. Os dados são da pesquisa CADÊ Paraná, divulgados em 2018.

Foram identificadas quase 400 mil meninas, entre 5 a 10 anos, diagnosticadas com sobrepeso em 2015. Em 2016, 150 mil crianças, entre 5 a 10 anos, tinham obesidade considerada grave. Em todo o país, 33% das crianças estão acima do peso.

Se os números continuarem como estão, ainda conforme a médica Adriana Demartini, até 2025 serão 11 milhões de crianças obesas no Brasil, de acordo com estimativa da OMS. “É preciso exigirmos uma mudança nesse cenário o quanto antes. Por isso é importante darmos alertas para que as pessoas mudem a percepção. Criança gordinha não é sinônimo de saudável”, diz a especialista.

O culpado? A alimentação (e os pais)

Crianças sem uma alimentação regulada, com produtos industrializados disponível sem restrição, como macarrão instantâneo, bolachas recheadas e salgadinhos, são uma realidade no país. A ausência dos pais em casa, e nas cozinhas, também.

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