O perigo da polifarmácia para idosos; veja as combinações mais arriscadas

Idosos estão mais vulneráveis à polifarmácia, condição que aumenta o risco de interações medicamentosas e do “efeito colateral em cascata”

Aquele paciente que consome cinco ou mais remédios aumenta bastante a chance de desenvolver reações adversas às próprias drogas ou à interação entre elas. Foto: Bigstock.Aquele paciente que consome cinco ou mais remédios aumenta bastante a chance de desenvolver reações adversas às próprias drogas ou à interação entre elas. Foto: Bigstock.

Fazer uso de cinco ou mais medicamentos simultaneamente caracteriza a chamada polifarmácia, situação de risco para qualquer pessoa e, em especial, para os idosos.

Isso se tornou mais comum nos últimos anos porque, com o avanço da medicina, há uma possibilidade muito maior de tratar doenças que antigamente levariam à morte.

“Para conseguir contornar doenças que eram fatais e hoje viraram crônicas passou-se a usar um arsenal medicamentoso muito grande”, explica a médica geriatra Débora Christina de Alcântara Lopes.

Nem todo idoso que usa uma grande quantidade de medicamentos está, necessariamente, abusando da medicação. Cada caso é um caso. No entanto, aquele paciente que consome cinco ou mais remédios aumenta bastante a chance de desenvolver reações adversas às próprias drogas ou à interação entre elas. Até porque quem está ingerindo tantas substâncias já tem, em geral, a saúde mais fragilizada.

“O fato é que mais importante do que a quantidade de medicamentos que o idoso venha a utilizar é a qualidade deles”, defende a médica Welma Wildes Cunha Coelho Amorim, integrante da Sociedade Brasileira de Geriatria e uma das autoras do estudo “Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos”.

Segundo ela, é preciso avaliar sempre se o possível benefício de determinada droga é maior do que os riscos que ela pode trazer.

Automedicação

É claro que o ideal é que o geriatra esteja sempre sabendo tudo o que o paciente está tomando. Mesmo assim, não é fácil. Muitas vezes ele nem conta tudo o que consome, por achar que determinado medicamento é inofensivo ou que já está há tanto tempo na rotina diária que não vê importância em falar para o médico. É aí que mais problemas podem surgir.

Além disso, um elemento cultural dificulta o processo. “Nós temos a cultura da automedicação. De repente, um vizinho fala que aquele remédio é bom e a pessoa vai lá e compra. Só que esse vizinho não identifica o possível efeito colateral”, diz Breno Barcelos, coordenador da residência em geriatria do Hospital do Idoso Zilda Arns, em Curitiba.

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O assunto é difícil de ser tratado com o paciente. Para a geriatra Débora Lopes, a automedicação entre os idosos, que é bem mais comum do que entre os jovens, é fruto, por exemplo, de uma certa necessidade de atenção.

“Existe a dificuldade de o paciente ter acesso a um médico, ou até a uma pessoa que tenha a paciência de ouvir qual é exatamente a queixa. Com isso, eles acabam procurando por diversas vias para tentar resolver o problema. Então o vizinho acaba o medicando, ou o amigo, e assim por diante”, cita ela.

Mais consumidos

Entre os “campeões” de consumo entre os idosos estão os analgésicos, anti-inflamatórios e polivitamínicos (como os suplementos alimentares). Nesses casos, o acesso é até facilitado, já que não há exigência de receita para compra nas farmácias.

Outros medicamentos muitos utilizados são os que ajudam a induzir o sono, além de alguns para o estômago.

“O omeprazol é um dos mais usados. O idoso vê que já está tomando 4 ou 5 medicamentos e pensa que precisa então de um outro para proteger o estômago. E aí pensa que não vai fazer diferença. A maioria usa mesmo sem indicação”, explica a geriatra Débora Lopes.

Entre os “campeões” de consumo entre os idosos estão os analgésicos, anti-inflamatórios e polivitamínicos (como os suplementos alimentares). Foto: Bigstock

Interação medicamentosa

Quanto maior for o número de remédios administrados, maiores serão as chances de ocorrer a chamada interação medicamentosa, que é quando a associação entre algumas dessas drogas que pode levar a efeitos prejudiciais. Confira alguns exemplos:

Estatinas + antibióticos

“As estatinas são usadas para baixar o colesterol. Se forem associadas a alguns antibióticos podem causar lesões musculares, levando a dores no corpo e podendo chegar até à insuficiência renal”, cita a médica Wilma Amorim.

Calmantes

Os calmantes, em geral, interagem uns com os outros, podendo levar a tonturas. Ainda há risco de interação deles com antidepressivos. “Um pode potencializar o efeito do outro”, explica a geriatra Débora Lopes.

Diuréticos

Alguns diuréticos também podem interagir com determinados medicamentos ligados ao controle da pressão arterial, causando efeitos indesejados, como a queda da pressão.

AAS + Gingko Biloba

Mesmo uma planta medicinal, como a Gingko Biloba, pode causar reações se interagir com alguns medicamentos. Seu consumo não é recomendado junto ao Ácido Acetilsalicílico (AAS). A interação pode favorecer a ocorrência de sangramentos.

AAS + antiinflamatórios

O uso de AAS com antiinflamatórios aumenta a chance de hemorragia digestiva e disfunção renal.

Viagra + nitratos

O uso da substância sildenafil (Viagra) juntamente aos nitratos como sustrate, isordil, monocórdio, pode levar à hipotensão grave.

Aumento do risco de quedas

Os efeitos colaterais do uso de medicamentos inapropriados ou em excesso podem implicar uma série de riscos. Entre os principais está o das temidas quedas, tão frequentes entre a população com mais de 65 anos. Isso porque a utilização de determinados antidepressivos, anticonvulsivantes e até remédios para controle da pressão arterial, ou a interação entre eles, podem causar tonturas e levar a desequilíbrios. “As quedas e consequentes fraturas estão muito relacionadas à morte para pessoas idosas. Para ser ter uma ideia: entre as pessoas muito idosas, acima dos 80 anos, que sofrem fraturas de fêmur, 50% morrem em até dois anos”, destaca o geriatra Breno Barcelos.

Cascata iatrogênica

Uma outra consequência possível da polifarmácia é a chamada cascata iatrogênica, uma espécie de “efeito cascata de efeitos colaterais”, que pode acontecer quando há o tratamento de sintomas surgidos após o uso de algum medicamento com a prescrição de novas drogas.

Se um idoso apresenta, por exemplo, hipertensão, pode receber a indicação de uma substância para o controle da pressão arterial. Esse medicamento, por sua vez, poderá ter efeito colateral como um inchaço na perna. Então, será ministrado diurético que poderá levar a queda na pressão ou até a desidratação. Aí o idoso poderá ter tontura, aumentando risco de queda e, consequentemente, de fratura.

“Se o médico tivesse trocado lá no início o remédio de controle da pressão, por um que não inchasse o pé do paciente, tudo teria sido evitado. Em vez de se trocar o tratamento, o que acontece muitas vezes é ir se tratando os sintomas. E aí, nem se sabe onde começou o problema”, comenta a geriatra Débora Lopes.

Como “desprescrever” a polifarmácia?

Para evitar os tantos problemas da polifarmácia, é importante que o idoso mantenha uma rotina de visitas ao seu geriatra. “Quanto mais médicos, mais receitas, maior a chance de repetir prescrições ou de haver medicamentos em exagero”, ressalta a médica Debora Lopes. Segundo ela, é o geriatra o médico que vai sempre tentar diminuir a “farmacinha” que, em geral, quem tem acima de 65 anos mantém em casa.

Na opinião do médico Breno Barcelos, a “desprescrição” da polifarmácia para o idoso também passa muito pela relação de confiança estabelecida entre médico e paciente. “Se tem algum outro médico que prescreveu determinado medicamento para o idoso e o geriatra quer retirar esse remédio é preciso passar toda a confiança para o paciente de que a sua decisão é a correta e de que aquilo é o melhor pra ele”.

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