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Remo acolhe mulheres sobreviventes do câncer de mama

Pacientes que passaram por tratamento estão fundando em Curitiba a primeira equipe de remo em Dragon Boat, e precisam de mais participantes para iniciar treinos

Deborah Vons (a remadora em primeiro plano na foto) é a capitã da equipe Canohá Dragon Team Curitiba; treinos serão realizados no Parque Passaúna. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.Deborah Vons (a remadora em primeiro plano na foto) é a capitã da equipe Canohá Dragon Team Curitiba; treinos serão realizados no Parque Passaúna. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

Apesar de ser o segundo tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil (cerca de 25% do total de casos da doença, de acordo com dados do Ministério da Saúde), falar abertamente sobre os efeitos causados pelo tratamento do câncer de mama ainda é um tabu.

Autoestima abalada, cirurgias estéticas nem sempre são bem-sucedidas e mudanças drásticas na vida social e familiar são alguns pontos sensíveis, bem como a prática de atividade física pós-mastectomia: até pouco tempo as mulheres que passavam pela cirurgia eram desencorajadas a realizar exercícios intensos e repetitivos na parte superior do corpo, por receio de que desenvolvessem linfedema no braço (acúmulo de linfa nos tecidos, o que ocasiona muita dor nos membros atingidos, neste caso, nos braços).

Nos anos 1990, porém, o médico canadense Donald McKenzie, especialista em medicina esportiva, derrubou essa orientação ao realizar estudos com mulheres voluntárias: todas elas haviam passado pela cirurgia e tratamento de câncer de mama, e começaram treinos para remar nos chamados “Dragon Boats”, onde é necessário remar coletivamente em um barco para 22 pessoas.

Os efeitos nas participantes foram tão positivos que o movimento cresceu e se tornou o IBCPC (International Breast Cancer Paddlers Comission), que hoje conta com 213 equipes em 23 países.

Curitiba é uma das cidades que está prestes a ser certificada pelo órgão para receber a iniciativa; o projeto é liderado pela atleta amadora Deborah Vons, e será realizado no Parque Passaúna, local que já é tradicional na cidade para prática de exercícios como remo e stand-up paddle.

Por enquanto, a equipe, batizada de Canohá Dragon Team Curitiba, conta com dez integrantes – são necessárias 20 mulheres para ocupar os dois lados do barco, além do tambor e o leme. “Precisamos desse mínimo para fazer a filiação”, explica Deborah.

Antes de integrar a equipe, uma das normas do IBCPC é que todas passem por exames médicos e cardiológicos que atestem a capacidade de realizar a atividade, que é bastante intensa.

“A ideia é que a gente tenha vários horários para atender o maior número de mulheres possível em várias turmas. A partir de dezembro pretendemos estar trabalhando oficialmente”. As aulas duram cerca de uma hora, com exercícios no solo e barco.

Remando pela recuperação

Deborah, 51, ex-advogada e hoje atleta, passou duas vezes pelo tratamento do câncer de mama: o primeiro em 1996 e o segundo em 2008. Em 2016, a doença ressurgiu, dessa vez na tireoide, e ela começou a remar para se recuperar dos efeitos colaterais deste terceiro tratamento.

“O meu corpo descompensou e ganhei peso. Meu endocrinologista me recomendou uma atividade física intensa, que levasse o meu corpo à exaustão. Gosto de atividade física ao ar livre e fui conhecer o Passaúna. Comecei a remar em canoa havaiana e descobri o trabalho do Dr. MacKenzie’, conta Deborah, que hoje rema quatro vezes por semana, faz treinamento funcional em outras duas e vem estudando e divulgando o remo em Dragon Boat.

Em novembro, ela pretende embarcar para a Patagônia, na Argentina, para o primeiro encontro latino-americano de equipes filiadas ao IBCPC, que terá workshop e palestras com o criador do método. Para viabilizar a ida, está aberto um financiamento coletivo para custear as passagens.

“É um trabalho voltado ao acolhimento e inclusão. São momentos de troca. Pela remada coletiva, a gente se fortalece. É o exercício da sororidade”. Deborah Vons, capitã da Canohá Dragon Team Curitiba.

Além de ser a capitã do time, Deborah também encabeça outro projeto, o Remando pela Vida, para mostrar os benefícios do esporte para as mulheres sobreviventes do câncer e abordar outros assuntos como alimentação, desenvolvimento pessoal e beleza natural.

Por enquanto, a equipe, batizada de Canohá Dragon Team Curitiba, conta com dez integrantes - são necessárias 20 mulheres para ocupar os dois lados do barco, além do tambor e o leme. Foto: Divulgação.

Por enquanto, a equipe, batizada de Canohá Dragon Team Curitiba, conta com dez integrantes – são necessárias 20 mulheres para ocupar os dois lados do barco, além do tambor e o leme. Foto: Divulgação.

“A imagem de uma mulher que passou por um tratamento de câncer de mama fica muito abalada, seja pela cirurgia mutilante, pela perda do cabelo, unhas, pelo inchaço da quimioterapia. Então faço um trabalho muito com princípios de autoamor e autocuidado”diz.

Para a atleta, o remo permite uma ressignificação do corpo pós tratamento de câncer, muitas vezes fragilizado pela quimioterapia e radioterapia, e com marcas das cirurgias.

“A medida que eu remava percebi meu corpo mais forte. Você substitui essa antiga memória por algo positivo e prazeroso e passa a querer se desafiar cada vez mais.”

Iniciante no esporte, a administradora e chef de cozinha Karina Scalia Alves Kulig, 45, começou a remar para fortalecer o sistema imunológico: foi diagnosticada em novembro de 2018 com câncer de mama e retirou parte da mama para extrair o nódulo.

Recentemente, também passou por uma histerectomia (remoção de parte ou totalidade do útero), após indicação médica por conta de resultados de um exame genético. “O esporte foi essencial para minha recuperação.

Nunca gostei de esportes e me limitava a oscilações na academia. A primeira vez que eu remei eu me encontrei”. Ela, que é a gerente da equipe curitibana, ressalta que as iniciantes não devem sentir medo de encarar o barco coletivo: há exercícios de solo, treinamento e respeito ao ritmo de cada mulher.

Diagnóstico e tabu

Corredora desde 2009, a administradora aposentada Joyce Angelo, 58, descobriu o remo há poucos meses, após lesionar o joelho na corrida. Em junho, ela teve alta do tratamento para o câncer de mama, diagnosticado por um exame de imagem em 2012.

“Era um nódulo imperceptível ao toque. Como o diagnóstico foi precoce, precisei retirar só 20% da mama e fiz apenas radioterapia”, conta.

A atividade física já era essencial em sua vida, mas foi de extrema importância durante as sessões de radioterapia. Mesmo em um ritmo mais lento, continuava com a corrida e caminhadas. “Eu não sentia tanto os efeitos porque o meu corpo estava acelerado, com endorfina.

Por isso é tão importante se mexer”, fala. O novo esporte foi “amor à primeira remada”.

Competição do IBCPC na Itália: método do médico canadense se espalhou pelo mundo e conta com equipes da modalidade em 23 países. Foto: Divulgação/IBCPC.

Competição do IBCPC na Itália: método do médico canadense se espalhou pelo mundo e conta com equipes da modalidade em 23 países. Foto: Divulgação/IBCPC.

“Eu estava agoniada em ficar parada por causa da lesão e uma amiga me chamou. Perdi totalmente o medo da água e estou completamente apaixonada. Quero entrar na equipe para competir, manter o corpo firme e a saúde em dia. O esporte nos dá isso. Muita mulher acha que não tem força no braço, mas é mais técnica”, ensina.

59 mil
É o número aproximado de novos casos de câncer de mama no Brasil em 2019, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Em Outubro, celebra-se tradicionalmente o Outubro Rosa, com campanhas nacionais de prevenção. Em 2019, a ação do Ministério da Saúde centrou a conversa sobre o tema em três pilares: prevenção primária, diagnóstico precoce e mamografia.

Apesar dos índices altos de cura (de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer, a taxa é de 13 mortes por 100 mil casos por câncer de mama, o que deixa o Brasil ao lado de países desenvolvidos como Canadá e Austrália), o medo da morte é muito presente entre as mulheres em tratamento.

“Não falar da doença e dos problemas é algo que pode acontecer na fase inicial, mas depois você vê o seu corpo reagindo e se fortalece. É daí que vem essa vontade de continuar remando e ajudando outras mulheres a enfrentarem o medo da doença e a aceitação do nosso corpo” frisa Karina.

Serviço:
Interessadas em participar da equipe podem mandar um e-mail para: canohacuritiba@gmail.com ou mensagem pelo WhatsApp 41-99632-4663. As aulas terão colaboração mensal para ajudar o custeio do barco e campeonatos. O financiamento coletivo para o congresso na Argentina em novembro está aberto neste link.

 

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