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Costumamos pensar que a globalização é um fenômeno meramente econômico, mas, sem o controle militar dos principais estreitos e canais, simplesmente não existe globalização nenhuma.
Estamos todos vendo o impacto do (quase) fechamento dos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. Desde o início do conflito entre EUA e Irã, as passagens de navios por esses estreitos diminuíram até 95%, as exportações de petróleo dos países árabes caíram 40%, o comércio mundial de petróleo cru caiu até 20%, e as previsões de aumento do PIB mundial estão sendo revistas para baixo.
Em todo o mundo, os principais estreitos e canais são Suez (estratégico para a Europa, e por onde passa 10% do comércio marítimo mundial e 10% do petróleo cru), Panamá (conexão entre Atlântico e Pacífico, responde por 2,5% do comércio mundial e 40% do comércio dos EUA, mas está muito concentrado em contêineres, grãos e veículos), Gibraltar (não por acaso, ainda sob controle britânico, não obstante esteja entre Espanha e Marrocos); Málaca (por lá passam 24% do comércio global e 45% do petróleo cru, e cerca de 80% do comércio da China; não por acaso a China fala no “dilema de Málaca”); Bósforo e Dardanelos (com 3% do comércio mundial, mas 20% dos grãos de Rússia e Ucrânia), e os já citados Bab el-Mandeb e Ormuz (com 39% do petróleo cru e 19% do gás natural, são os principais estreitos da questão energética).
Sem o controle dos estreitos e canais por parte de uma única potência internacional, ou pelo menos de aliados, o comércio – e, com ele, a globalização – está em risco
Essas passagens marítimas são tão importantes que algumas delas, como Suez e Panamá, foram criadas artificialmente pelo homem (e por isso chamam-se “canais”, e não “estreitos”). No comércio e na geopolítica, a geografia importa. Mais de 80% do comércio global acontece via marítima e trafega por essas vias. Não por acaso, em inglês se usa a expressão chokepoints, ou “pontos de estrangulamento”. Autores como Alfred Mahan alegam que quem domina o mar domina tudo. Os Estados Unidos são uma talassocracia, uma potência do mar; se eles perderem esse controle, tudo muda para todos nós.
O que chamamos de “globalização” nada mais é que a expansão do comércio internacional entre esses pontos. Sem o controle dessas passagens por parte de uma única potência internacional, ou pelo menos de aliados (como EUA e Reino Unido atualmente), o comércio – e, com ele, a globalização – está em risco. Um país inimigo ou grupos rebeldes podem “estrangular” o comércio, colocar em risco a segurança energética ou alimentar de partes inteiras do globo, chantagear e obter vantagens. O economista francês Frederic Bastiat já falou: “há o que se vê e o que não se vê”. O que se vê é a globalização; o que não se vê é a hegemonia militar.
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A história comprova essa tese. O Império Romano, em escala reduzida (dada a tecnologia naval da época) fez o mesmo no Mar Mediterrâneo. Depois, o Império Britânico chegou a controlar cerca de 20% do planeta, e praticamente todos os istmos relevantes; nessa época, o almirante inglês John Fisher disse que “existem cinco chaves do mundo: Dover, Gibraltar, Suez, Málaca e Cabo da Boa Esperança – e nós [ingleses] os controlamos todos”. Desde o relativo declínio da Grã-Bretanha e a ascensão dos EUA, eles dominam (diretamente ou indiretamente) os principais estreitos e canais do mundo. Hoje, são os EUA que estão em relativo declínio; o custo de manter a ordem global está aumentando; e as tentativas de manter o controle estão tendo cada vez menos sucesso. A China está às portas, insidiando-se no Canal do Panamá e no Mar do Sul da China, cuja porta principal é o Estreito de Málaca.
Não é por acaso que alguns fenômenos estejam acontecendo todos ao mesmo tempo: o aumento dos conflitos armados, os problemas em alguns estreitos e canais (como Ormuz, Bab el-Mandeb e Panamá), o aumento do protecionismo e a chamada slowbalisation, ou “desglobalização”. Não são apenas simultâneos; eles andam em conjunto. A atual ordem global é baseada nisso; se isso mudar, tudo o mais mudará também.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



