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Santo Agostinho, um dos pais do cristianismo, notoriamente definiu o Estado como “um mal necessário”. Zero idealismo, pragmatismo puro. Ou seja, um mal menos pior que o caos, a anomia (ausência de normas), a guerra civil. Em 1947, Winston Churchill notoriamente afirmou que “a democracia é a pior forma de governo, exceto por todas as outras formas que foram experimentadas até agora”. O filósofo da ciência Karl Popper também disse que “não somos democratas porque a maioria sempre está certa, mas porque as instituições democráticas são de longe as menos nocivas que conhecemos”.
Nicolau Maquiavel escreveu que, ao escolher entre inconvenientes, o governante prudente deve optar pelo menos danoso. Thomas Sowell popularizou a frase “não existem soluções; existem apenas trade-offs”. Milton Friedman frequentemente argumentava que políticas públicas devem ser comparadas às alternativas reais, e não a cenários ideais.
Em um episódio do desenho animado para adultos South Park há uma eleição para escolher um novo mascote da escola; os candidatos acabam sendo “Giant Douche” (traduzido como “Babaca Inútil”/“Babaca”) e “Turd Sandwich” (“sanduíche de fezes”). Por não ter votado, Stan é banido da cidade e enviado para um campo de re-educação do Peta (uma famosa organização de defesa dos direitos dos animais) na floresta. No Peta, Stan descobre que “quase todas as eleições são entre algum inútil e um m...”, porque só pessoas péssimas conseguem chegar tão longe na política. Quando Stan volta, vota no Turd Sandwich, mas o Giant Douche vence. O episódio é uma crítica às eleições presidenciais de 2004, entre George W. Bush e John Kerry. Alguém duvida que Bush fosse só o menos pior?!
O “mal menor” não é um princípio exclusivamente político: é um critério universal de decisão
Na medicina é a mesma coisa. A quimioterapia destrói células saudáveis junto com as cancerígenas, mas é preferível ao avanço do câncer. A amputação de um membro salva a vida de pacientes. A anestesia geral envolve riscos, mas é um mal menor diante de uma cirurgia sem anestesia. Com as vacinas aceitam-se pequenos riscos e efeitos colaterais para evitar doenças muito mais graves. Até os antibióticos podem favorecer resistência bacteriana, mas não tratar uma infecção grave costuma ser pior. Todos os medicamentos podem gerar efeitos colaterais. Como diz Matt Ridley, no livro Como surgem as inovações, “o cigarro eletrônico talvez fosse um mal menor – como a vacinação para evitar a varíola, ou a cloração para evitar a febre tifoide”.
Para combater a criminalidade, a polícia negocia com sequestradores para salvar outras vidas. A delação premiada concede benefícios a um criminoso, para que ele forneça informações que permitam desmantelar organizações criminosas maiores.
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Na Itália, existe a expressão “votar tapando o nariz”. A frase é atribuída ao jornalista Indro Montanelli, que teria sugerido votar na Democracia Cristã, o partido católico de centro-direita, como menos pior. O próprio vocabulário do “voto útil”, em vários países, expressa exatamente a mesma lógica.
Por outro lado, alguns dizem que “um país como o Brasil não pode se contentar em optar pelo menos pior!” Isso reflete uma visão distorcida, de quem se julga especial e acredita que o Brasil é, deve ser e pode ser a tal potência! Pena que todas as nações escolham o menos pior, sempre. Pena que não haja alternativa. E é exatamente essa ilusão sobre o candidato ideal que faz com que nos enamoremos de alguns candidatos de forma passional, em vez de escolher de forma racional.
O “mal menor” não é um princípio exclusivamente político: é um critério universal de decisão. Em medicina, direito e economia, frequentemente não se escolhe entre “o bem” e “o mal”, mas entre dois custos inevitáveis, procurando minimizar o dano total. Todos nós o aplicamos inconscientemente e justamente todos os dias, em todas as nossas decisões. Que não sejamos tão ingênuos de repor nosso idealismo justo na política!
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



