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Alan Ghani

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Capitalismo de compadrio

Daniel Vorcaro e o Capitalismo de Máfia

DANIEL VORCARO
Manifestantes exibem cartaz com o rosto de Daniel Vorcaro e os dizeres: "Vorcaro Ladrão". (Foto: EFE/ Isaac Fontana)

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Com algumas exceções, o Brasil nunca teve uma experiência capitalista pura, aquela baseada na meritocracia, na produtividade, na inovação e no livre mercado, sem passar pelo Estado. Por aqui, ao longo de nossa história, prevaleceu o crescimento empresarial daqueles com boas conexões com o governo, seja para ter acesso a crédito subsidiado do BNDES ou a isenções fiscais, seja para ganhar licitações.

O Estado brasileiro sempre foi o sócio oculto de empresários. É quase impossível uma empresa se tornar uma “campeã nacional” sem contar com os favores estatais. Nessa troca, é difícil separar onde termina o lobby empresarial e onde começa a corrupção estatal. É também uma tarefa árdua tentar apartar o interesse público do privado.

A operação Lava Jato trouxe à tona um esquema de corrupção bilionário que beneficiava empreiteiras, no mais perfeito exemplo dessa promiscuidade entre o setor público e o privado. O governo contratava empresas para realizar obras superfaturadas, num jogo de cartas marcadas. A receita da companhia, paga com dinheiro público, era distribuída para diretores, políticos e partidos, num sofisticado desvio de recursos do pagador de impostos brasileiro.

Com a Lava Jato, diretores da Petrobras e de grandes empreiteiras foram para a cadeia, assim como diversos políticos, incluindo o atual presidente da República. A partir daquele momento, aparentemente o capitalismo de compadrio estaria com os dias contados, cedendo espaço para uma promissora economia de mercado baseada na meritocracia, e não nas conexões corruptas com os Poderes da República.

Mas, como no Brasil até o passado é incerto, a esperança deu espaço ao retrocesso. Em algumas canetadas, o Supremo Futebol Clube pediu VAR e anulou praticamente toda a operação. Políticos voltaram à cena do crime, e diretores das empresas foram soltos.

O recado era claro: no Brasil, o crime compensa, principalmente se você tiver boas conexões com os poderosos de Brasília

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É justamente no contexto pós-Lava Jato que surge Daniel Vorcaro. O banqueiro, entendendo perfeitamente como funciona o capitalismo brasileiro, colocou em prática a fórmula mais eficaz para uma empresa crescer nas terras tupiniquins: o relacionamento obscuro e financeiro com autoridades de Brasília para permitir que seu negócio crescesse, apesar de todas as fraudes.

Seu banco cresceu vendendo CDBs com taxas muito acima do mercado, com a falsa promessa de que não havia risco, pois o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) garantiria a operação em caso de insolvência. Não vendeu papéis apenas para pessoas físicas inocentes, mas para fundos de pensão estatais, disseminando o prejuízo para a população brasileira. Será que os gestores e os administradores desses fundos compravam ativos do Master por negligência, ou sabiam da fraude e recebiam propina em troca?

Para continuar com a captação bilionária, Vorcaro concedia empréstimos de alto risco e comprava ativos por meio de fundos de investimento ligados ao banco, entre outras operações de crédito. A ideia era inflar o ativo do banco artificialmente para continuar captando recursos dos investidores.

Um desses investimentos foi feito pelo fundo Leal, cujo cotista era Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O fundo comprou participações no Resort Tayayá, pertencente à Maridt, empresa que tem como sócio o ministro Dias Toffoli.

O pagamento milionário para a empresa de Toffoli foi apenas uma das inúmeras estranhezas deste caso. Houve muitas outras, como a ida repentina do processo para o STF, sem motivo jurídico convincente e com sigilo absoluto das investigações sob relatoria de Dias Toffoli; provas não custodiadas pela Polícia Federal por determinação de Toffoli; pagamento de R$ 129 milhões à mulher de Alexandre de Moraes, sem que ela tivesse atuado de fato como advogada do banco em algum processo; questionamentos do TCU ao Banco Central sobre a liquidação “apressada” do Master; projetos de lei no Congresso para demitir diretores do Banco Central por parlamentares; investida para aumentar o limite do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão; tentativa de venda do Master para o BRB; compra de R$ 16 bilhões da carteira do Master pelo BRB; relações pessoais de Toffoli e Moraes com Daniel Vorcaro (charuto, convite para festa, voo em jato particular com o advogado do Master e troca de mensagens por WhatsApp).

Tudo isso já seria motivo suficiente para abalar a República. No entanto, o caso ganha contornos cinematográficos. De acordo com as mensagens obtidas pela Polícia Federal, Vorcaro cogitava espancar um jornalista que trazia fatos incômodos a ele e colocar um jornal no inquérito das fake news, entre outras ações típicas de mafiosos.

Mas nada foi mais grave do que a troca de mensagens revelada pela jornalista Malu Gaspar nesta sexta-feira, 6. Nela, pouco antes de ser preso, Vorcaro conversava com Moraes, aparentemente para salvar o Master. A prova de que as mensagens não eram nada republicanas era o fato de algumas respostas terem sido apagadas por Moraes.

Se o capitalismo de compadrio, tão evidenciado na operação Lava Jato, já chamava a atenção, nada se compara ao nível a que Vorcaro elevou o jeito de fazer “negócios” no Brasil. Envolveu os três Poderes, contando com uma organização criminosa para isso. Foi disruptivo. Inaugurou uma nova forma de capitalismo no Brasil: o capitalismo de máfia.

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