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O Banco Central reduziu a taxa básica de juros em 0,25 p.p. Com a decisão, a Selic passou de 14,25% a.a. para 14% a.a. Apesar da redução, o país continua com uma das maiores taxas de juros do planeta, tanto nominais quanto em termos reais (descontada a inflação).
Ao contrário do senso comum da esquerda, a taxa de juros é muito alta não por má vontade do Banco Central, mas por uma série de fatores, como risco e inflação, que determinam o carregamento das taxas dos títulos públicos.
Como as taxas dos títulos públicos brasileiros, piso para a formação dos spreads bancários e do crédito privado, são muito elevadas, o custo de capital para empresas e consumidores se torna muito alto. Dessa forma, a redução do custo de capital para pessoas físicas e jurídicas depende, em última instância, da melhora das variáveis influenciadoras das taxas de juros dos papéis emitidos pelo governo (LFT, LTN, NTN-F e NTN-B), e não da canetada do Banco Central.
A taxa de um título público é influenciada pelas expectativas futuras da Selic, mais um adicional de prêmio de risco. A Selic responde à inflação corrente e futura, enquanto o prêmio de risco responde ao cenário fiscal. Em última análise, a inflação e o retrato fiscal brasileiro são determinantes para a formação da taxa dos títulos públicos, que impactam os juros do setor privado.
Uma das razões para a Selic ser historicamente elevada é o fato de o Brasil ter inflação historicamente acima da média de economias emergentes similares à nossa. Por exemplo, em 2025, a inflação brasileira foi de 4,26%, enquanto a do Chile e a do México foram, respectivamente, de 3,50% e 3,69%.
Outro fator relevante para explicar os juros elevados no Brasil é o risco fiscal. A dívida bruta/PIB brasileira é de 81,9% do PIB, enquanto a do México é de 62,7% e a do Chile, de 42,5%.
A dívida/PIB do Brasil é muito elevada porque o Estado brasileiro é gigantesco, necessitando tomar recursos emprestados da sociedade para fechar a conta de déficits fiscais crônicos, ocasionados por excesso de subsídios para empresas, acúmulo de programas sociais (Bolsa Família, Auxílio Gás, Pé-de-Meia etc.), privilégios para o alto funcionalismo público, inchaço da máquina pública, indexação do salário mínimo a benefícios previdenciários e mínimos constitucionais, atrelando gastos de saúde e educação à receita da União.
Diga-se de passagem, os dois últimos foram resolvidos no governo Temer e mantidos na gestão Bolsonaro, mas a administração Lula resolveu piorar institucionalmente as contas públicas, recriando regras fiscalmente insustentáveis, além de inchar a máquina pública e turbinar programas sociais.
A deterioração fiscal, além de elevar o prêmio de risco, também impulsiona a inflação. A piora de ambas as variáveis pressiona os juros. Em última análise, o gasto público eleva a taxa de juros por dois canais: inflação e risco.
O atual governo, em vez de reduzir o gasto para atacar estruturalmente os juros elevados, preferiu expandir a despesa pública, gerando mais inflação e mais endividamento
O resultado é uma Selic meta de 14% a.a., taxas prefixadas de 14,13% a.a. (vencimento curto) e juros reais de 8,17% a.a. (prazo de cinco anos).
A elevação do gasto público não pressiona os juros apenas pelo canal do risco e da inflação — o que já seria muito ruim —, mas também pelo aumento da inadimplência no setor privado e pela perda de potência da política monetária.
Conforme publicado no artigo da semana anterior, o governo expandiu brutalmente o gasto público via crédito subsidiado. A expansão dessa modalidade leva milhares de empresas e pessoas ao endividamento e à inadimplência — um dos fatores para explicar as elevadas taxas de juros no setor privado.
Além disso, como o crédito subsidiado opera com taxas abaixo do mercado, os setores beneficiados não são impactados pela Selic. Dessa forma, a Selic tem que ser ainda mais alta para compensar a perda dos juros mais baixos dos setores privilegiados com as bondades estatais. Na prática, quando o governo subsidia taxas de juros menores para alguns setores — Minha Casa Minha Vida, por exemplo — com nossos impostos, a política monetária do Banco Central perde potência.
O governo, em vez de atacar as causas estruturais dos juros elevados, prefere criticar o Bacen e fazer programas populistas, como o Desenrola, enquanto, na outra ponta, eleva fortemente o gasto, com efeitos negativos na inflação, no risco e na inadimplência do setor privado. A culpa dos juros elevados não é do Banco Central, mas, sobretudo, do atual governo.

Alan Ghani é doutor em Finanças pela FEA-USP, com passagem pela University of Texas at San Antonio como professor e pesquisador. É analista CNPI, economista-chefe da MSX e professor em cursos de MBA e pós-graduação de instituições como Insper e Albert Einstein. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



