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Alan Ghani

Alan Ghani

Medida eleitoreira

O aumento indecente do Bolsa Família a serviço das eleições

Às vésperas das eleições, o reajuste concedido por Lula ao Bolsa Família escancara o uso eleitoral de um programa social desvirtuado desde sua criação. (Foto: ChatGPT sobre foto de Roberta Aline/MDS)

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Chega a ser escandaloso o presidente Lula conceder um reajuste no Bolsa Família a menos de um mês das eleições. A ação revela o uso eleitoral de um programa social cujo objetivo foi completamente desvirtuado desde a sua criação.

Ao contrário da propaganda difundida pela esquerda, o Bolsa Família não nasceu com o presidente Lula, mas com o governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Nos seus dois mandatos, FHC criou programas de transferência de renda como o Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Bolsa Qualificação e Bolsa Renda, a fim de dar auxílio para as pessoas em situação vulnerável. Os programas foram bem-sucedidos e, depois, sob a administração Lula, foram unificados com o nome de “Bolsa Família”.

Os programas de transferência de renda não tiveram sua origem no Brasil e tampouco foram idealizados pela esquerda. Na verdade, sofreram forte influência do economista liberal, prêmio Nobel, Milton Friedman. Para Friedman, pessoas abaixo de determinada renda receberiam dinheiro do governo, em vez de pagar imposto. O economista defendia isso como uma forma mais simples de combater a pobreza e, idealmente, substituir diversos programas assistencialistas e burocráticos.

A ideia era que o benefício fosse transitório até que a pessoa conseguisse um emprego e saísse da condição de extrema pobreza. Sem surpresas, a premissa original do programa foi deixada para trás no Brasil

Ainda no primeiro mandato de Lula, o programa foi instrumentalizado pelo PT como forma de garantia de votos e perpetuação no poder. O presidente Lula foi muito hábil em colar a verba assistencialista à sua imagem. Não à toa, sua força está justamente nos estados mais pobres e dependentes do programa. De acordo com o Datafolha, entre os beneficiários do Bolsa Família, Lula tem 53% das intenções de voto contra 28% de Flávio Bolsonaro. Os dados confirmam a força eleitoral do programa.

A relação entre votos e assistencialismo traz reflexões importantes. A primeira é: se há pessoas que votam num candidato por conta do Bolsa Família, então ele deixou de ser um programa de Estado para se tornar um programa dependente do governo de turno, pelo menos na percepção do eleitor.

A segunda é que ele deixou de ser transitório para se tornar permanente, trazendo incentivos ruins para o mercado de trabalho. Não é incomum ouvir pessoas dizendo que preferem ganhar o Bolsa Família a trabalhar.

Talvez seja por isso que o Brasil tenha 66 milhões em idade ativa (15 a 64 anos), mas prefiram não trabalhar. É claro que nessa conta entram também donas de casa, estudantes, herdeiros ou qualquer pessoa que optou por não trabalhar por qualquer motivo. Entretanto, é razoável supor que uma parte do grupo que opta por não trabalhar decorra do incentivo do Bolsa Família, ainda mais quando há 50,1 milhões de pessoas beneficiadas pelo programa.

Sem dúvida, esse número deve ser visto com ressalvas, pois há crianças e idosos e pessoas que trabalham e recebem o benefício. No entanto, certamente há muitas pessoas em idade ativa que preferem viver do auxílio governamental do que seguir para o mercado de trabalho. Esse desincentivo é particularmente importante para o Brasil.

Hoje, no país, há um verdadeiro desperdício de mão de obra, fator essencial para gerar crescimento econômico e reduzir a pobreza numa economia emergente, de renda média, como é o caso brasileiro. É inadmissível ter quase 40% da população economicamente ativa (PEA) parada no país por opção, quando é urgente aumentar o PIB de maneira significativa e sustentável.

Um outro problema do Bolsa Família é o seu custo. O dinheiro do benefício não cai do céu, mas é pago por impostos de quem está trabalhando. De acordo com o orçamento de 2026, somente o Bolsa Família custa R$ 158 bilhões, sem contar outros programas assistencialistas, como o Gás para Todos, BPC etc.

Com o aumento de 15,04% autorizado pelo ministro do STF Gilmar Mendes – decisão que passa por cima do TSE –, o Bolsa Família trará um custo adicional de R$ 22 bilhões para os cofres públicos em 2027. O problema é que nada disso é de graça. Como diria Thomas Sowell: “se alguém recebe sem trabalhar, tem alguém trabalhando sem receber”.

À luz desses números, é necessário encontrar um caminho para diminuir o tamanho do Bolsa Família, oferecendo uma porta de saída para os beneficiários, a fim de transformar o programa em transitório, e não em permanente.

O sucesso do Bolsa Família deveria ser medido pelo número de pessoas que saem do programa, e não por aquelas que entram. É urgente mudar essa lógica. Mas, para isso, seria necessário alguém com a coragem de pensar no país, e não apenas em se perpetuar no poder; seria necessário um estadista, e não um populista, como é o caso do atual presidente da República.

Metodologia da pesquisa citada na coluna

Metodologia: A pesquisa Datafolha entrevistou presencialmente 2.001 eleitores de 16 anos ou mais de todas as regiões do país, em 125 municípios, entre os dias 15 e 17 de setembro de 2026. Nível de confiança: 95%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, no grupo total entrevistado. Nos segmentos, as margens são maiores. Entre quem recebe o benefício ou mora com um beneficiário, a margem de erro sobe para cinco pontos. Registro no TSE sob o nº BR-04029/2026.

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