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O que William Buckley poderia ter aprendido com Jordan Peterson

  • PorAlexandre Borges
  • 17/02/2018 22:44
O que William Buckley poderia ter aprendido com Jordan Peterson
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Quem viu o vídeo em que o psicanalista canadense e popstar Jordan Peterson é atacado por universitários descerebrados na Universidade McMaster, em Ontário, episódio ocorrido em março de 2017, não tem como esquecer a fleuma quase zen com que respondeu aos berros, xingamentos, gritinhos, faniquitos e calúnias. A reação do escritor e palestrante celebridade serve de contraponto à explosão de William Buckley Jr. captado no sensacional documentário “Best of Enemies” (2015).

Peterson não apenas se manteve absolutamente calmo como deixou claro a quem estava interessado na sua palestra que uma reação violenta era justamente o que os bullies de esquerda almejavam para impedir não apenas o evento como convites futuros de conservadores para aquele campus. Com muita paciência, determinação e resiliência, o autor de “12 Rules for Life” mostrou que é possível escancarar toda a boçalidade autoritária da esquerda sem fazer uso de violência física, o que acabaria por igualar, aos olhos de quem não estava lá, agressores e agredidos.

A ser chamado de “criptonazista” por Gore Vidal, depois de dez longos e extenuantes debates, Buckley devolveu: “agora escuta, sua bicha, ou você para de me chamar de criptonazista ou vou socar sua cara!” Numa época muito antes da internet comercial e dos memes, Gore Vidal conseguiu desestabilizar seu oponente na TV ao vivo, em cadeia nacional, criando um constrangimento não apenas para Buckley como para o movimento conservador americano. A produção fica apoplética, o mediador gaguejou e por muito pouco dois dos mais importantes polemistas do século XX transformaram um debate político num daqueles programas da Márcia Goldschmidt.

Este momento surpreendente serviu para que Robert Gordon e Morgan Neville criassem “Best of Enemies”, um documentário recomendável apenas para quem tem anticorpos contra a mensagem panfletária e ideológica de esquerda por trás desta narrativa deliciosa e hipnotizante. É daquelas obras cinematográficas que você não vai conseguir ver uma vez só. Depois de dar uma olhada no que fez Jordan Peterson durante a invasão dos vândalos de butique, veja “Best of Enemies” e compare.

Não se lançava nada tão arrebatador neste estilo de documentário desde “Frost/Nixon”, outra prova do eterno fascínio da atual geração da esquerda com Richard Nixon, ao menos enquanto prepara a artilharia pesada contra Ronald Reagan, o próximo mito conservador a ser bombardeado por Hollywood e que já recebeu alguns petardos em “Best of Enemies”. Gordon e Neville são dois craques que dominam a linguagem cinematográfica com a mesma intimidade com que penetram na vida destes dois pesos pesados que realmente se odiavam. Vidal e Buckley apenas aceitaram o convite para participar de dez debates sobre as convenções republicana e democrata de 1968 porque acreditavam que poderiam destruir o outro em público.

“Best of Enemies” é um libelo político sutil de esquerda, escrito e dirigido por esquerdistas, mas incomparavelmente mais inteligente e insidioso do que as minhocas que Michael Moore atira para toupeiras. É uma peça que faz pequenas concessões ao lado conservador para desarmar os espíritos e tatuar nas mentes desavisadas que republicanos são elitistas, racistas, hipócritas, corruptos e sádicos. Buckley, ao chamar Vidal de “bicha” (queer), é logo depois mostrado como um homossexual enrustido, uma velha tática da esquerda de querer colar a pecha de hipócrita nos conservadores. Enquanto Michael Moore acusa diretamente seus desafetos e se coloca escancaradamente como partidário, Gordon e Neville, que são tão esquerdistas quanto Moore, não acusam diretamente, dão pequenos regalos ao outro lado e levam o espectador a acreditar que é um documentário apartidário, factual e, por isso, ele é ainda mais perigoso.

O documentário é construído a partir de trechos dos dez debates entre Buckley e Vidal, começando pela crise de audiência da ABC e passando pelas personalidades de ambos, mas o contexto político é contado como se os republicanos não estivessem na oposição em 1968, como se fossem responsáveis pela Guerra do Vietnã (e não JFK e Lindon Johnson), como se fossem eles os racistas e não os democratas, como se Buckley tivesse sido desmascarado como “criptonazista” e sua raiva desse o tom dos conservadores a partir de então, chegando até a FOXNews atual. É de uma canalhice ímpar, daquelas que só quem vê no documentário um meio de doutrinar sem aparentar, de fazer revisionismo histórico com ares de investigação, de inverter pautas e criar vilões nas hostes inimigas como quem apenas relata a verdade, é capaz.

Há várias lições neste documentário para o conservadorismo atual, desde que consigam ler e entender por trás das camadas superficiais da narrativa. A primeira delas é saber selecionar os duelos que merecem ser aceitos. Um analista político como Buckley não teria como se sair bem num embate direto com um escritor panssexual que não tinha nada a perder e tudo a ganhar ao ridicularizar o oponente com leviandades, sarcasmo, pedantismo e afetação. Debater com Truman Capote teria sido um erro idêntico. Conservadores como Nelson Rodrigues, Walt Disney, Clint Eastwood, Ronald Reagan, Paulo Francis, que são também artistas consagrados, é que deveriam aceitar esse tipo de embate, nunca um comentarista político como Buckley.

Se você conseguir abstrair a narrativa histórica embusteira, o documentário é sensacional. É uma aula de cinema para qualquer um que sonhe em se aventurar pelo documentário, daqueles de assistir três vezes e tomando notas. Apenas não esqueça que Vidal chama Buckey de criptonazista, o que ele nunca foi, e este responde irritado “bicha!”, o que Vidal nunca escondeu que era. É o tipo de batalha desigual que Buckey aceitou participar inadvertidamente e pegou um alto preço pelo erro.

Buckley foi acusado injustamente de algo que não era e respondeu com raiva, passando o resto da vida atormentado pela perda da fleuma que sempre caracterizou suas aparições públicas. Ele reagiu em legítima defesa, mas a narrativa se concentra na sua reação e não no que levou a ela, como era de se esperar e como vemos até hoje quando algo semelhante acontece. Uma armadilha que Jordan Peterson, após o baile que deu em Cathy Newman e nos zumbis da Universidade McMaster, nunca cairia.

“Best of Enemies” serve, neste sentido, como aviso para quem quiser entrar no mundo dos debates políticos: se você acha que o que está em disputa é apenas quem tem razão e quem oferece as melhores idéias, você já perdeu.

 

 

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