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Alexandre Borges

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Pau que bate em Chico e a nova esquerda

  • PorAlexandre Borges
  • 30/08/2017 17:05
Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula| Foto:

Como se não bastassem Talibãs, a turma do Estado Islâmico e Antifas derrubando estátuas, as novas feministas agora apontam seus dedos acusatórios contra a esfinge intocável de gerações de mulheres de esquerda do país. É a esquerda de Chico.

Já tive namorada esquerdista, claro. Razões que a razão desconhece. “Não precisa ter ciúme de ninguém, mas se o Chico passar na minha frente vou dar vexame”, dizia. Acertado não é caro. Elas pulavam de cabeça no Velho Chico e só restava esperar vendo o tempo passar da janela. O novo feminismo quer ser a terceira margem do rio esquerdista e levar embora até o eterno galã das tias. Vai passar?

A rosa morreu, a festa acabou e o barco partiu, mas Tua Cantiga, música principal de Caravana, álbum lançado no início de agosto, caiu na malha fina da patrulha problematizadora. Foi chamada de “datada”, “cafona” e gerou comentários sofisticadíssimos como “soou tão romântico quanto um arroto no meio do beijo”. A história dos amantes que estão longe seria “uma deselegância, uma sacanagem, uma coisa feia e desnecessária”.

Para a produtora Flavia Azevedo, publicando no esquerdíssimo HuffPost, “a gente broxou“. No artigo, “essa mulher” que Chico canta “não sou, não é”. A autora não apenas recusa identificação com a personagem (“não sou”), para ela a mulher de Tua Cantiga “não é”. Chico é “datado” porque está falando de uma mulher que, vejam vocês, nem mulher é. As mulheres são iguais, mas para as novas feministas algumas são mais iguais que as outras.

Essa mulher que ele evoca, não sou, não é. Nem a que somos nem a que queremos ser. Essa que precisa ser salva, que sonha com o reino do lar, essa que goza ao ouvir largo mulher e filhos.

Flavia Azevedo, HuffPost

Em seu novo livro, Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock, Lobão vê Chico como especialista em “psicografar os dilemas e dramas femininos da mulher brasileira balzaquiana carente de classe média alta”. As antigas balzaquianas carentes ao menos não patrulhavam, tacavam pedras ou davam cuspes no ídolo como se fosse a própria Geni. Hoje já é outro dia.

Naquele tempo, ninguém chiava quando Chico avisava para a mulher “tô levando uns amigos pra conversar / Eles vão com uma fome / Que nem me contem; Eles vão com uma sede de anteontem. Salta a cerveja estupidamente / Gelada pra um batalhão / E vamos botar água no feijão.” Não satisfeito, ainda dizia para a esposa que ia cozinhar e servir os convidados: “mulher, você vai gostar”. Ele nem tinha dinheiro para a feijoada mas “diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão” e a ela só cabia sorrir encostada no fogão.

As balzaquianas carentes de classe média suspiravam ouvindo Chico. Hoje a mulher que faz feijoada para os amigos do marido nem mulher é.

– Será que é machismo um homem largar a família para ficar com a amante?- Pelo contrário. Machismo é ficar com a família e a amante.Diálogo entreouvido na fila de um supermercado…

Posted by Chico Buarque on Sunday, August 20, 2017

O pós-modernismo, como o Saturno de Goya, devora os próprios filhos. A velha esquerda, vamos chamar de “petista”, de raiz marxista, sindicalista ou de teologias de araque, queria o paraíso na Terra pilhando dinheiro de uns e “redistribuindo” para outros, não sem antes cobrar sua parte, a maior parte, pela intermediação. Já a nova esquerda, “psolista” ou “libertária”, radicalmente identitária, obcecada com transexualismo e drogas, profundamente anticristã e racialista, que fala em apropriação cultural e patrulha até palavras, transformou o antigo coletivismo classista no individualismo mais radical e divisivo. A menor minoria de todas, o indivíduo, teve até o corpo politizado.

Os oprimidos agora são tratados como flocos de neve que derretem com palavras, mesmo os terroristas muçulmanos mais radicais, e precisam ser defendidos com toda força pelo estado, pelas corporações comprometidas com a “justiça social” e pelos ativistas pós-modernos. O crime foi relativizado e há “crimes do bem”, praticados por grupos protegidos pela nova esquerda e que são inimputáveis, e “discurso de ódio fascista”, na verdade qualquer manifestação de pensamento que a nova esquerda não aprove. Nesse mundo distópico, orwelliano, disfuncional e fluido, nem os ícones da velha esquerda escapam.

Nova e velha esquerda são diferentes até no sexo, como Chico teve que aprender nos últimos dias. 

Nova e velha esquerda são diferentes até no sexo, como Chico teve que aprender nos últimos dias. A velha esquerda, em grande parte heterossexual e hedonista, acreditava que “não existe pecado do lado debaixo do Equador” e gritava “Vive la Différence!” nas ruas enquanto combinava a próxima orgia. A nova esquerda quer se unir com alguém do mesmo sexo, adotar uma criança e passear no shopping de mãos dadas. A velha esquerda tem esposa, amante e ainda transa com a faxineira. A nova passa as noites de sábado comendo Nutella, vendo série no Netflix e fazendo textão problematizador nas redes sociais. E “broxa” com palavrinhas em músicas.

A velha esquerda tentou defender o novo álbum de Chico destacando que a música As Caravanas, por exemplo, é o comunista raiz atualizando o discurso para bater até em Trump: “não há barreira que retenha esses estranhos / Suburbanos tipo muçulmanos / do Jacarezinho”. Uma nova ópera para seus velhos malandros de estimação. Não funcionou.

No site do PCO, Desaforos é tratada como “um tapa da cara da direita” por ser uma resposta de Chico aos que viram o rosto para ele nos restaurantes. A turma da Causa Operária, preocupadíssima com os olhares trocados entre as mesas de restaurantes chiques da Zona Sul carioca, pensa que os frequentadores dos mesmos locais que Chico no Rio de Janeiro são “de direita”. É sempre um alívio ser lembrado do nível de informação e conhecimento desse pessoal sobre o mundo fora das suas cidadelas, as universidades federais, agências de mídias sociais, coletivos e redações.

Entender a diferença entre a velha e a nova esquerda, que está longe de ser sutil, é fundamental para que você saiba quem está combatendo. A nova esquerda, cada vez menos interessada em economia ou no fim imediato do capitalismo, fez uma improvável parceria com algumas das maiores empresas e fortunas do mundo para avançar sua agenda social, desnorteando os que usam ferramentas de análise do século passado para entender a política de hoje. Em pleno 2017, ainda há quem pense que “rico” é sinônimo de “direitista” ou que “empresário” é o mesmo que “empreendedor” e defensor do livre mercado.

A nova esquerda ama Barack Obama, Justin Trudeau, Emmanuel Macron e toleram provisoriamente Ângela Merkel porque sabe que eles farão o possível para facilitar a entrada indiscriminada de imigrantes nos principais países do Ocidente, o que ajudaria a destruir a herança civilizacional cristã e aumentaria exponencialmente o número de clientes do estado e, por tabela, de eleitores da própria esquerda. Os novos ícones da esquerda “centrista” mundial farão tudo para desnortear a manifestação natural da sexualidade dos jovens, ajudarão a criminalizar o debate livre de idéias até nas redes sociais e destruirão o que ainda resta de ensino superior e do jornalismo tradicional, transformando as antigas universidades e veículos de comunicação em seus think tanks.

Estes líderes, chamados até de “fofos” na imprensa, garantem que durante a desconstrução do Ocidente judaico-cristão os iPhones da nova esquerda continuarão a ser produzidos, o Uber circula normalmente e ninguém vai se meter a besta com a Netflix ou com o Google, muito pelo contrário. A nova esquerda sequer aceita o rótulo de esquerda, querem ser o novo “centro”, os que não são nem de esquerda nem de direita, querem apenas “o que dá certo”. E o que dá certo? O que a nova esquerda defende, mas é mera coincidência.

É claro que o Brasil, aquele país que ouve Wesley Safadão, Anitta, Naiara Azevedo, Simone & Simaria, Nego do Borel, Thiaguinho e Luan Santana, que fala “tô namorando todo mundo, 99% anjo, perfeito, mas aquele 1% é vagabundo”, não tem a menor idéia de que essa discussão existe. O povo que vai para rua cantar letras como “Meu fechamento é você, mozão / Eu não preciso mais beber / E nem fumar maconha / Que a sua presença me deu onda (…) meu p* te ama”, graças ao competente trabalho da esquerda nas escolas, universidades, no jornalismo e na cultura do país nas últimas décadas, pensa que desconstrução é demolir a laje para fazer o novo puxadinho.

Não estou nem aí para as confusões em volta de Chico Buarque e é inegável uma certa Shadenfreude quando algo assim acontece na esquerda. O importante mesmo é que conservadores e liberais clássicos atualizem sua bibliografia, seu discurso e entendam o campo de batalha do século XXI. E ele é muito diferente das velhas distinções de base econômica e marxista entre esquerda e direita.

 

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