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New York Times
The New York Times;| Foto: Pixabay

Lançado ano passado com estardalhaço, o projeto “1619” do New York Times é uma aula de narrativa e todos os atores políticos com alguma intenção de influenciar o resultado de eleições em qualquer lugar do mundo deveriam prestar mais atenção.

A iniciativa explicitamente assume que seu objetivo é nada menos que reescrever a história do país. Ela considera o ano de fundação da América não foi, como se sabe, em 1776 com a Declaração da Independência, mas em 1619 quando o primeiro escravo africano chegou na Virgínia. Lembrou de “quem controla o passado, controla o futuro” de “1984”? É por aí.

Se a história americana promove a liberdade, a responsabilidade individual, as associações voluntárias entre os cidadãos e a livre iniciativa, o que a elite antiliberal (no sentido clássico) e antidemocrática pode fazer? Mobilizar seus quase infinitos recursos para rasgar os livros, ignorar a realidade e encobrir a verdade com o manto do proselitismo político que justifique a expansão dos tentáculos do Leviatã estatal, o que mina a mobilidade social e ajuda os ricos a continuarem ricos, bem como seus descendentes.

A roupagem do projeto é evidentemente acadêmica e jornalística, mas não há sequer a disposição em disfarçar a intenção dos seus membros, a começar pela sua diretora Nikole Hannah-Jones, de mudar radicalmente a percepção de que a experiência americana é o grande exemplo de liberdade, justiça e prosperidade da humanidade. Deslegitimar o excepcionalismo americano, evidentemente, é o caminho para minar politicamente a própria ideia de democracia liberal, economia de livre mercado e, por tabela, seus defensores no debate público.

Ao colocar a escravidão como marco fundador do país, os radicais ideológicos cuidadosamente selecionados para o projeto querem convencer seus pares nas redações e na academia, que por sua vez doutrinarão o resto da população, que a América deveria não apenas reconhecer os males do legado escravocrata, o que já faz exaustivamente desde a Guerra de Secessão (1860-1865), a mais sangrenta da sua história e que foi motivada exatamente pelo abolicionismo, mas aceitar que é o evento definidor do país que só teria prosperado pela exploração da mão de obra escrava.

A tese seria apenas absurda se não fosse tão tóxica nas suas prováveis consequências, já que a escravidão é, tragicamente, um mancha de todas as sociedades humanas em todos os tempos (e que ainda persiste, é bom lembrar), mas só a América é a América. Não faz sentido algum, mas nada indica que não pode funcionar cultural e eleitoralmente.

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Levar a sério o conteúdo produzido em “1619” é descartar o que é único na América de 1776, seus ideais importados do cristianismo e do Iluminismo britânico, seu processo de independência, sua Constituição e sua carta de direitos, suas liberdades e sua vida comunitária descritos de forma definitiva em “Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É trocar o que é especial e distinto pelo que é comum a todos os outros países e culturas.

Por que esse assunto interessaria a você no Brasil? Para que se entenda, de uma vez por todas, que a política é o resultado da cultura e do sistema ético e moral de uma sociedade, seus representantes são os que, aos olhos dos eleitores, personificam melhor o que pensam, acreditam e desejam na sua relação com o estado e as instituições.

Políticos não são a causa, mas a consequência da “imaginação moral” de um país, que pode ser construída de forma orgânica e natural, da sabedoria geracional acumulada, ou diretamente influenciada por quem tem dinheiro, poder e energia para isso, quem entende como manejar o solo onde as idéias políticas são plantadas e candidaturas florescem ou não.

Políticos, quase sempre, são a tropa da elite. Quando você olhar a classe política de uma nação, pense um pouco menos nela e mais no caldo cultural e sociológico que ajudou a colocar ela lá, nas ideias que os políticos não criaram mas representam e personificam.

Os representantes eleitos pelo povo refletem em parte o que ele pensa e muito do que suas elites desejam e a elas cabe uma parte enorme, a mais importante, da responsabilidade sobre quem são e o que fazem. Uma elite com a bússola moral torta, que não pensa nas próximas gerações, que tem vergonha do passado e desprezo pelo próprio povo, gente cujo horizonte não passa do próximo trimestre, carrega uma doença na alma que nem cloroquina cura.

Se “1619” prosperar, as próximas gerações de americanos podem realmente acreditar que seu país é uma força do mal e sua história indigna e imoral, que sua prosperidade é baseada em exploração, violência e roubo, que o passado partilhado por eles, assim como sua riqueza, condena e deve ser derrubado. As primeiras estátuas já começaram a cair.

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