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Alvinho foi premiado, alfabetizou-se sozinho, aprendeu inglês por aplicativo, foi laureado em xadrez, tem 10 anos, vivia na Maré e está com a mãe em um abrigo para moradores de rua, no Rio de Janeiro, segundo noticia O Globo. Faz três anos que Adriano Álvaro Melo ficou conhecido como o pequeno gênio do Complexo da Maré. Num curso on-line de programação, da Universidade Harvard, ele se destacou criando o “Super Alvinho”, todo em inglês: um jogo em que um super cientista cria robôs para produção agrícola e produção/distribuição de alimentos pelo mundo. Em dezembro de 2023, com 7 anos, foi palestrante num evento de pedagogia social da Universidade Federal Fluminense. Seu desejo maior é estudar na Europa e se aperfeiçoar na construção de robôs. A mãe, de 42 anos, sofre de uma tuberculose resistente.
Quantos meninos como ele terão seus talentos desperdiçados, e que poderiam beneficiar suas famílias, o Brasil, a humanidade? Quantos discursos Alvinho já ouviu, enaltecendo a tecnologia essencial para o Brasil de amanhã? O presidente Lula foi à Maré em fevereiro de 2024, e Alvinho lhe entregou uma carta, sugerindo uma escola federal para meninos pobres com talentos como os dele. Alvinho e a mãe passaram a viver de favor na Maré, depois que ela foi vítima de um golpe em que perdeu o apartamento em Itaboraí e o FGTS. Após ganhar competições de xadrez e robótica, foi o mais jovem condecorado pela Câmara de Vereadores do Rio, com a Medalha Pedro Ernesto.
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O Brasil da hipocrisia, da conversa fiada, das homenagens, mas não das ações reais, está todo na história de Alvinho. A mãe desenganada pelos remédios e enganada por golpista, cuidando sozinha do filho; Alvinho sonhando em estudar fora, por falta de opção no seu próprio país, sem lugar apropriado para se desenvolver e até para dormir e comer, alvo de reconhecimento, mas sem solução de futuro. País que discursa há décadas sobre inclusão social, combate à pobreza, criação de oportunidades, mas se limita a dar esmola – e não a ensinar conhecimento para a pessoa crescer com dignidade por seus próprios meios.
Alvinho e outros gênios ocultos, e os milhões de meninos nas favelas, morros, periferias, os que correm em bandos de arrastões nas praias, os que arrancam cordões de ouro, tiram celulares, seriam apenas danos colaterais da mentira, da corrupção, da hipocrisia, da incompetência, do desperdício, do desvio dos impostos, da falta de objetivos, da demagogia, do engodo. É falta de ensino que dê conhecimento e que possibilite o desenvolvimento pessoal com dignidade, não com esmola que vicia e aprisiona. É falta de bom exemplo dos que estão bem acima desses meninos. Maus exemplos que vêm do topo tornam impossível disseminar a boa educação, os princípios, o caráter, honestidade, respeito às leis, ao próximo e ao alheio. Essa é uma questão que falta ser tratada nas entrevistas, sabatinas e debates com os candidatos.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



