
A briga de Lula com Donald Trump por causa de embaixadores já está nos afetando. Daniel Perez é jovem, tem menos de 40 anos, é da Flórida, filho de imigrantes cubanos, entrou na política pelo Partido Republicano, foi eleito deputado estadual pela Flórida, teve uma grande votação e Trump o escolheu para ser o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, um posto que estava vago. O Brasil faz corpo mole para conceder o acordo – chamado em francês de agrément –, e por causa disso Trump até tirou o visto da nossa embaixadora em Washington.
A briga é tanta que Lula agora confirma que é mesmo amigo de Daniel Ortega. Imagino os membros do TSE de 2022; devem estar com a cara no chão, porque proibiram, na campanha eleitoral, que se mencionasse a aliança entre Lula e Ortega. Mas a verdade é que os dois são amigos. Ortega e a mulher, Rosario Murillo, que é a copresidente (não é mais vice-presidente, é copresidente), declararam que não haverá mais eleição na Nicarágua enquanto houver a oposição por lá. Os EUA pediram a convocação de uma reunião de chanceleres dos países-membros da Organização dos Estados Americanos para examinar o caso. O Brasil rejeitou e foi voto vencido. Então, haverá essa reunião para deixar bem claro que há ditadura na Nicarágua, como já não soubéssemos.
WhatsApp: entre no grupo e receba as colunas do Alexandre Garcia
A política externa brasileira está uma calamidade sob o comando de Celso Amorim (que é quem realmente manda, apesar de o chanceler ser Mauro Vieira). Quando Amorim era o ministro de Relações Exteriores, houve aquele caso do Manuel Zelaya, em Honduras, que foi abrigado na embaixada brasileira e a converteu em diretório político. Ele fazia o que queria: andava de chapelão dentro do prédio (é falta de educação usar chapéu em lugar fechado), botava os pés calçados com aquelas botas em cima da mesa... E ele nem perdeu o cargo por golpe: foi removido pelo Congresso e pela Suprema Corte. Mesmo assim, Celso Amorim o apoiou. A nossa política externa está um desastre. Pobre do Instituto Rio Branco, que ensina tão bem.
Ministro do STJ que perdeu o cargo por abuso ganhava acima do teto, quem diria...
Já cansei de ler o inciso XI do artigo 37 da Constituição, que trata da remuneração no serviço público. E leio novamente: “a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração direta, autárquica e fundacional, dos membros de qualquer dos poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos ministros do Supremo Tribunal Federal”. E qual é esse valor? R$ 46 mil. O Supremo já tem decisões que permitiram penduricalhos, mas a Constituição diz que o limite é R$ 46 mil, e pronto.
VEJA TAMBÉM:
O ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça, esse que teria tentado agarrar uma moça de 18 anos por baixo d’água em Balneário Camboriú, ganhava mais de R$ 100 mil por mês até fevereiro, quando foi afastado por causa da denúncia. Passou a ganhar “só” R$ 29 mil. Agora, o STJ decidiu, por 24 votos a 4, que ele deve perder o cargo; não é mais juiz, nem aposentadoria compulsória terá. Ele provavelmente deve recorrer ao Supremo.
Buzzi é um que deixará de receber fortunas acima do teto, mas o problema permanece: é muito fácil dar salários de mais de R$ 46 mil com o suor de quem trabalha para pagar imposto. Ontem, na hora do almoço, ouvi um grupo grande dizer que “no Brasil uma maioria trabalha para sustentar uma minoria de vagabundos” – foi essa a palavra que usaram. É revoltante perceber que há uma nomenklatura, como havia na União Soviética, de seres especiais: uma casta superior que deveria ser de servidores, mas é de senhores. O Estado existe para servir a nação, e a nação são as pessoas, os cidadãos que trabalham, pagam impostos, nomeiam pelo voto os seus servidores, para que prestem bons serviços públicos de justiça, segurança pública, saúde, ensino, previdência.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



