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O passeio diário que preciso fazer nas redes sociais mostra que quase não há argumentos no debate político neste ano eleitoral. Há muitos adjetivos e interjeições, e poucos substantivos – vale dizer, pouca substância. Poucos têm dúvidas e muitos têm certezas. Não que isso seja uma novidade, mas se acentua num período em que deveriam se debater ideias, mas se debatem pessoas. O previsível resultado é que vamos eleger mais uma vez temperamentos individuais e não caminhos, princípios, objetivos. Logo se percebe que há pouca inteligência nisso. Na polaridade, os dois lados falam para seus próprios irmãos de lado, não estão abertos a convencer o outro lado; ao contrário, se distanciam cada vez mais com ofensas. Com isso, não vão alterar posições com as quais entraram no ano eleitoral.
Não é consolo saber que até os alemães padeceram dessa ausência de pensamento crítico, diante do nazismo. O teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer percebeu que a estupidez é pior que a maldade. Na prisão pré-execução, escreveu sua constatação de que gente de nível universitário, religiosos, professores, pais de família, doutores, gente boa, aplaudiam Hitler. A maldade pode ser combatida, porque quer algo, se revela; mas a estupidez não, porque é alguém que renunciou ao uso de seu próprio juízo, alguém que entregou sua capacidade de pensar e decidir a um líder, a um slogan, uma palavra de ordem, a uma ideologia. E, quando isso acontece, não se pode apelar à razão, ter um diálogo com argumentos, porque essa pessoa já não tem razão própria, porque está abduzida pela razão alheia, do líder.
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Quando alguém se junta a um grupo, e quanto mais poderoso é o grupo, mas fácil é a pessoa deixar de pensar por si mesma. O grupo dá identidade; e pensar por si próprio pode ter um custo. Aí, o estúpido se torna instrumento de outros sem saber que é. Está feliz porque se sente parte de algo grande, portanto correto. Bonhoeffer mostra que não foram Hitler e Goebbels que destruíram a Alemanha, mas os milhões de alemães que se entregaram sem critério, sem fazer perguntas. Pior que malvados, eram obedientes sem pensamento próprio.
É gente que repete palavras de ordem sem saber de onde vêm. Que compartilha títulos sem ter lido o conteúdo, gente que odeia pessoas que nunca conheceu, apenas porque alguém disse que aquele é o inimigo. Não são más pessoas, são pessoas que deixaram de pensar por si mesmas e não sabem; ao contrário, se sentem lúcidas, mais informadas que os outros. Bonhoeffer ensina que estupidez não se cura com educação, com informação, não se cura com argumentos. Não é que a pessoa não saiba; é que decidiu que a aprovação do seu grupo é maior que seu próprio critério, e isso só é resolvido pela coragem de libertar sua própria mente. O PCC e o CV são apenas um dos efeitos da decadência a que nos adaptamos para sobreviver; vamos normalizando o anormal.
Acaba de ser divulgada a primeira encíclica do papa Leão XIV, em que aborda a inteligência artificial e como a tecnologia influencia a própria cognição humana. Cada vez mais as pessoas não usam o intelecto, não precisam buscar o conhecimento, delegando tarefas à inteligência artificial. Está mais fácil deixar de pensar, está mais fácil ser passivo, seguir a massa, seguir a moda. Perde-se a individualidade, a alegria de aprender e de encher de vida o universo do cérebro, o verdadeiro produtor do prazer da felicidade. E das decisões políticas sobre quem serão nossos governantes. O papa pediu desculpas por a Igreja ter escravos e ter justificado a escravidão. A única liberdade que não podemos ter é a de escolher de quem seremos escravos. Dizem que não existem coincidências. A véspera do lançamento da encíclica foi Pentecostes. O Espírito Santo baixou em línguas de fogo sobre as cabeças dos apóstolos e eles ganharam o dom de falar todas as línguas. Que não deixemos a inteligência artificial ou marqueteiros como Goebbels substituírem, em nosso cérebro, o fogo do nosso próprio juízo que rege nossas escolhas.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



