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Quase todos os brasileiros acreditam que foi Charles de Gaulle o autor da frase “o Brasil não é um país sério”. Não foi. Quem pronunciou a frase foi o próprio embaixador do Brasil na França, depois de ter sido recebido por De Gaulle. O que comprova que não somos um país sério. Naqueles tempos da Guerra da Lagosta, com Jânio Quadros e João Goulart, éramos apenas sem seriedade; hoje somos também um país de faz-de-conta. Faz de conta que o contrato de R$ 129 milhões é só da senhora Moraes; faz de conta que o Tayayá é um resort digno de investimentos milionários, como se no Caribe estivesse; faz de conta que escrever no papel um código de ética vai ter o condão de moralizar o Supremo.
Vivemos a era do faz-de-conta. Faz de conta que queriam dar golpe de Estado sem armas e sem força militar. Faz de conta que senhorinhas com Bíblia e senhora com batom iam derrubar o governo; faz de conta que merece 14 anos de prisão o idoso que doou um pix de R$ 500 para ajudar a pagar um ônibus para Brasília com manifestantes de Blumenau. Faz de conta que Filipe Martins desembarcou na Flórida em dezembro de 2022. Estou usando o faz-de-conta como um eufemismo; fingir acreditar no que não é, na verdade, é uma forma de mentir para si mesmo.
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Enfim, mentir, como tem sido propalado pelo presidente da República, é recebido como forma de esperteza, que é aplaudida e não vaiada. Ou, como não é um país sério, com gente achando graça disto: “A gente tem de mentir.” “Minha mãe me ensinou que a verdade engatinha e a mentira voa.” “O Brasil tem 25 milhões de crianças de rua.” São algumas pérolas que não vão levar à ordem escrita na bandeira, tampouco à consequência da ordem, que é o progresso. No Senado, fazem de conta que a Constituição não exige notável saber jurídico e planejam perguntar fofocas sobre o Master na sabatina de Messias. Santo ilusionismo!
Com o governo gastando mal os impostos, fazemos de conta que imposto não é parte do nosso trabalho, não é o nosso dinheiro. Temos medo de assaltos, balas perdidas; medo do arbítrio do Supremo, medo de matricular nossos filhos em universidade pública, mas fazemos de conta que somos felizes assim. É muito ruim ser pessimista, mas quem sente necessidade de anunciar que é feliz já está se entregando. Ser feliz não é transmitido pela boca, mas pelas atitudes. Aí, somos vítimas do nosso faz-de-conta. Quem aceita não está contribuindo para mudar para melhor. O voto deste ano não pode ser, de novo, fazer de conta que vai melhorar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








