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Alexandre Garcia

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Vorcaro e a delação

Vaticínios

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O novo advogado de Daniel Vorcaro tem experiência com delações premiadas. O banqueiro irá contar o que sabe? (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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Com a mente passeando entre os fatos, a imaginação cria uma daquelas senhorinhas de Bíblia na mão, na Praça dos Três Poderes a clamar: “O Todo-Poderoso enviou Vorcaro para separar o joio do trigo; a hora chegou!” Quando vi o discurso de Vorcaro, que está nas redes, em 15 de maio de 2024, em evento do Valor Econômico, em Nova York, percebi o modo da conquista. Alguns receberam como “palavras inspiradoras”, como a apresentadora do evento; outros foram além, como o escritório da família Moraes, que já estava no terceiro mês de recebimento de R$ 3,6 milhões mensais.

Volta e meia temos a demonstração de que somos ingênuos e espertos. Quando somos ingênuos, elogiamos um espertalhão e ele vira ícone de uma atividade – agora é banco. Na minha geração, lembro de muitos, que geraram elogios, notícias, coluna social; eram geniais, mas depois veio o escândalo, sempre de bilhões. Descobrimo-nos ingênuos, crédulos. Quando há espertos entre nós, agimos como nas piadas de recém-chegados à cidade, que compram bilhete premiado e bonde. O ingênuo pensa que é esperto, quer ganhar muito e vira bobo ante o espertalhão. Agora há mais um registro na nossa história de vigarices. E com efeitos num ano eleitoral.

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Parece um vaticínio da senhorinha da Bíblia: os espertos se enredaram em seus próprios negócios com o espertalhão. Mas agora é o espertalhão que abre o caminho da prisão. Esmurrando a parede, amaldiçoa os nomes dos espertos porque se sente um bobo que comprou serviços que não lhe foram entregues. E desmascara, em gritos ouvidos por carcereiros, os nomes dos mais espertos que o espertalhão. “Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo o que é condenável torna-se manifesto pela luz. É por isso que se diz: desperta, tu que dormes...” Parece mais vaticínio da minha senhorinha da Bíblia, mas é de pregação de São Paulo aos Efésios – ou aos brasileiros, epístola da segunda leitura na liturgia desse domingo.

Virá a luz pela boca de Vorcaro? Ele trocou de advogado. Contratou um que já fez a delação premiada de Léo Pinheiro, o empreiteiro do tríplex do Guarujá, que originou uma das condenações de Lula – entre as anuladas pelo Supremo. Se há o risco de Vorcaro ser sicariado, como imagina muita gente, os seus telefones são seguro de vida, porque levariam à luz os nomes dos prováveis suspeitos. Enquanto Vorcaro amaldiçoava nomes na prisão, chegava ao Brasil o eco das palavras do papa no sábado, quando abriu o ano do Judiciário vaticano: para ter credibilidade, a Justiça tem de ter a imparcialidade do juiz, o efetivo direito de defesa e a razoabilidade do prazo do processo. No Brasil falta isso num inquérito que começou ilegal e já dura sete bíblicos anos.

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Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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