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Marília Gabriela tinha nove candidatos, regras ainda pouco testadas e egos demais para administrar. Na noite de 17 de julho de 1989, nos estúdios da Band, a jornalista precisou interromper, repreender e chamar os presidenciáveis à ordem mais de uma vez.
Era o primeiro debate presidencial da televisão brasileira desde o fim da ditadura, e a única mulher no estúdio era justamente quem precisava impedir que futuros presidentes falassem todos ao mesmo tempo.
Voltei a esse debate várias vezes, e o que mais me prende são os homens sentados naquela mesa. Eles não eram apenas nove candidatos. Eram nove projetos de país, nove passados políticos e nove respostas possíveis para uma democracia que acabava de nascer.
Mário Covas tinha acabado de fundar o PSDB, sigla que por décadas seria a principal adversária do PT nas urnas. Leonel Brizola carregava quinze anos de exílio e um mandato cassado pela ditadura, apresentando-se como herdeiro do trabalhismo getulista e do “socialismo moreno”. Paulo Maluf ainda trazia o peso da ARENA, o partido que sustentou o regime militar por duas décadas e que, anos mais tarde, seria condenado por lavagem de dinheiro.
Lula estreava sua trajetória como candidato à Presidência. Tinha bastante cabelo, a barba já inconfundível e nenhum fio branco. Ronaldo Caiado, também no início da carreira, aparecia com o cabelo completamente preto. Quase quatro décadas depois, estaria novamente em um debate presidencial, agora em 2026.
Também havia uma ausência que conecta 1989 a 2026. Marília Gabriela abriu o programa anunciando quem tinha faltado. Entre eles estava Fernando Collor, favorito nas pesquisas. Liderava havia meses e escolheu não se expor ao ataque simultâneo dos oito adversários. Cinco meses depois, seria eleito presidente.
A lógica não envelheceu. Em 2026, Lula e Flávio Bolsonaro também preferiram não comparecer. Favoritos nas pesquisas, avaliaram que participar os exporia mais do que lhes renderia. O cálculo é o mesmo de Collor: quem lidera não precisa entrar em uma arena onde todos os outros têm interesse em atacá-lo.
Mas a diferença mais profunda entre as duas noites está em quem os candidatos tentavam alcançar.
Em 1989, o debate era transmitido para milhões, mas parecia falar para poucos. Discutia-se dívida pública, dívida externa, moratória e planos de estabilização numa linguagem dirigida a empresários, líderes partidários e formadores de opinião. O eleitor comum assistia de casa, mas não era exatamente o destinatário daquela conversa.
Era compreensível. O Brasil tinha recém saído de 21 anos de ditadura e vivia a instabilidade do governo Sarney, a hiperinflação e uma sucessão de planos econômicos fracassados.
Ninguém sabia que rosto teria a democracia recém-nascida.
De terno e gravata, todos tentavam vender moderação, técnica e preparo. Era como se cada um dissesse: “eu não tenho ideia para onde o Brasil está indo, mas sou o homem mais qualificado para ser o comandante”.
E não foi apenas o conteúdo dos debates que mudou. Mudou a plateia.
Em 2026, o debate ainda trata de política, mas já não fala apenas com quem entende de política. Ele precisa alcançar o eleitor que vai esbarrar em um vídeo no Instagram, no TikTok ou no WhatsApp, sem ter assistido a um minuto sequer do programa.
Foi assim que Renan Santos entrou no estúdio da Band carregando duas fraldas geriátricas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro. A discussão mal tinha começado, mas a imagem já estava pronta para circular
Isso mudou até a preparação dos candidatos. Não basta dominar números ou apresentar um plano coerente. É preciso sair do estúdio com uma frase, uma imagem ou uma provocação que sobreviva ao programa.
O debate virou matéria-prima. O produto final é o corte.
Não é que o debate de 1989 fosse necessariamente melhor. Era técnico, solene e distante. O de 2026 é mais popular, mais acessível e fala diretamente com o cidadão comum. Mas cobra um preço: em vez de apenas convencer, o candidato agora precisa performar.
E é inegável que algo se perdeu no caminho. Em 1989, Marília Gabriela quase enlouqueceu tentando segurar nove candidatos que falavam por cima uns dos outros, interrompiam e faziam de tudo para ocupar espaço. Em 2026, a Band reuniu apenas três candidatos, e por pouco não foram dois: um deles fez um escândalo na porta da emissora e ameaçou desistir. Os demais passaram a enxergar o debate como um risco que não vale a pena correr.
E, ao abandonar os debates, os candidatos esvaziam um dos poucos espaços em que projetos de país se enfrentam diante do eleitor, sob as mesmas regras e sem edição.
Antes, todos queriam dividir esse palco porque era uma rara chance de falar ao país inteiro. Hoje, muitos preferem falar apenas com suas próprias bolhas em seus ambientes controlados. Antes, eram candidatos demais querendo ser ouvidos. Hoje, faltam justamente os que mais têm a explicar.

Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política pela UFPR, comentarista e colunista da Gazeta do Povo. Tem trajetória em instituições no Brasil e no exterior dedicadas à promoção da liberdade, com experiência em Washington, D.C. É fundadora do Instituto Amplifica, iniciativa voltada à formação de vozes em defesa da liberdade no debate público. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



