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Neste sábado, 18 de julho, faz 51 anos de um dos dias mais duros da história do agro brasileiro — e da minha própria história. Para muitos, essa é uma data histórica. Para mim, é uma fronteira no tempo: existe a vida antes e a vida depois daquela madrugada.
Sou filho de imigrantes que vieram para o Brasil para trabalhar na lavoura de café, em São Paulo. Cresci ouvindo o barulho da colheita, sentindo o cheiro do terreiro de secagem e acompanhando a expectativa de cada safra como quem espera o veredito de um ano inteiro de trabalho.
Por isso, o café nunca foi apenas uma bebida ou uma mercadoria para a minha família. Foi trabalho, esperança, integração e a possibilidade de construir uma nova vida no interior de São Paulo.
Mas, na madrugada de 18 de julho de 1975, veio a Geada Negra. Uma massa de ar polar vinda da Antártida varreu o Sul e o Sudeste do Brasil, com temperaturas negativas registradas em grande parte das áreas produtoras do interior paulista. Em Londrina, no Paraná, o termômetro chegou a -9°C junto ao solo, um registro extremo para aquela região.
Não foi uma geada comum: o frio extremo, combinado ao ar seco, congelou os tecidos internos das plantas, sem a formação da camada branca de cristais normalmente associada às geadas. No dia seguinte, os cafezais pareciam ter sido queimados pelo fogo.
Só em São Paulo, estima-se que cerca de 200 milhões de pés de café foram destruídos naquela madrugada — somados a mais de 700 milhões no Paraná, num total de quase 1 bilhão de cafeeiros dizimados em poucas horas.
Naquele período, o Paraná concentrava cerca de metade da produção brasileira, chegou a cultivar 1,8 milhão de hectares e colhia, em média, 20 milhões de sacas. No ano seguinte, a produção desabou e, em vastas áreas, nada pôde ser colhido.
Em muitas regiões paulistas, a cafeicultura simplesmente deixou de existir dali em diante, dando lugar à cana-de-açúcar e, em outras áreas, ao eucalipto. No Paraná, o vácuo deixado pelo café abriu caminho para a expansão da soja, que se tornaria, poucos anos depois, o novo motor econômico do estado — e, mais tarde, um dos pilares do agro nacional.
O mapa da produção mudou, mas também mudou o mapa das famílias. Trabalhadores deixaram o campo, propriedades foram vendidas, cidades perderam população e muitos agricultores partiram em busca de novas fronteiras onde pudessem começar novamente.
A geada mudou a geografia do café e da própria agropecuária brasileira. O impacto foi sentido além das fronteiras do Brasil: no mercado internacional, o preço da saca de café subiu fortemente nos anos seguintes, evidenciando como uma única madrugada, em duas regiões do país, foi capaz de alterar o preço do café no mundo inteiro.
Mas os números não contam tudo.
Não foi só uma perda agrícola. Foi um cataclismo social. Famílias inteiras — muitas delas de imigrantes que tinham atravessado o oceano justamente para plantar café em terra estranha — viram, da noite para o dia, décadas de trabalho reduzidas a cinzas de gelo.
Uma única madrugada, em duas regiões do país, foi capaz de alterar o preço do café no mundo inteiro
A geada não destruiu apenas árvores. Interrompeu contratos, eliminou empregos, desfez planos e obrigou pais a explicar aos filhos que o futuro imaginado até a véspera já não existia.
Lembro do impacto daquele dia dentro de casa. Não era só uma safra perdida — era um projeto de vida inteiro.
Aprendi, com o meu pai, de maneira dolorosa, que uma única madrugada pode alterar o destino de várias gerações.
Não há romantismo na ruína. Recomeçar significou assumir novas dívidas, vender patrimônio, abandonar atividades conhecidas e tomar decisões sem qualquer garantia de sucesso.
Mas o que aprendi com esse episódio, e que carrego até hoje, é que a tragédia também foi o início de uma reinvenção. Onde antes havia monocultura cafeeira, nasceram novas culturas, novas cadeias produtivas e uma agricultura mais diversificada e tecnificada.
Nenhuma medida estatal poderia decidir, arriscar, trabalhar e replantar no lugar do produtor. Foram as famílias rurais que se reinventaram, testaram novas culturas e reconstruíram suas vidas — porque a alternativa era desistir.
Recordo a força de homens e mulheres que, diante de lavouras mortas, não permitiram que a esperança também morresse. Alguns replantaram. Outros mudaram de cultura, de cidade ou de estado. Muitos começaram novamente do zero.
O agro brasileiro não foi construído apenas por grandes colheitas.
Foi construído também por pessoas que perderam tudo — e encontraram coragem para recomeçar.
Cinquenta e um anos depois, quando falo sobre liberdade econômica, sobre a capacidade do produtor rural de se adaptar, competir e recomeçar, não falo de teoria. Falo de uma geada que atravessou a história da minha própria família — e de milhares de outras — e que, mesmo destruindo tudo, não conseguiu destruir a vontade de replantar.
Liberdade econômica, para quem vive no campo, não é uma abstração acadêmica. É a possibilidade de mudar de cultura, buscar novos mercados, adotar tecnologia e reconstruir a própria vida quando todas as certezas desaparecem.
Hoje, ao tomar um café, penso nos imigrantes que vieram trabalhar nessa lavoura, na minha família e em todos que perderam tudo naquela madrugada de 1975 e, mesmo assim, encontraram uma forma de continuar.
Talvez essa seja a maior lição daquela madrugada: resiliência não é permanecer de pé diante de tudo. É cair, olhar para uma lavoura destruída e ainda encontrar forças para plantar novamente.
A geada foi negra, mas luminosa foi a resposta daqueles agricultores.

Antonio Cabrera é médico-veterinário, empresário do agronegócio e presidente do Grupo Cabrera. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária — o mais jovem da história — e secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Integra o Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e preside o Centro Mackenzie de Liberdade Econômica. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



