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Antonio Cabrera

Antonio Cabrera

Fertilizantes

O rombo bilionário que o agro paga duas vezes

Refinaria Abreu e Lima da Petrobras
Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco (Foto: Agência Petrobras)

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Há desperdício público que deveria provocar mais que indignação. Deveria provocar vergonha.

O Brasil enfrenta hoje uma dependência perigosa de fertilizantes importados, e um elo dessa cadeia ficou particularmente exposto: o enxofre, matéria-prima essencial para produzir ácido sulfúrico e fertilizantes fosfatados.

Segundo a Abiquim, cerca de 92% do enxofre consumido no país vem do exterior. Com conflitos internacionais, problemas logísticos e preços elevados, essa dependência já pressiona o custo da safra brasileira.

É nesse momento que vale olhar para trás.

A Petrobras reconheceu prejuízo contábil de cerca de R$ 2,8 bilhões com as refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará. Bilhões gastos em projetos e preparação de empreendimentos que nunca produziram um único litro de combustível.

Mas capacidade industrial não nasce por decreto quando a crise já começou.

Depois temos o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), no Rio de Janeiro.

Concebido inicialmente com investimentos de pouco mais de US$ 6 bilhões, o projeto passou por sucessivas revisões. O TCU registra estimativas que chegaram a US$ 30,5 bilhões e até US$ 47,7 bilhões caso o complexo original fosse integralmente construído. Em determinado momento, a perda econômica estimada do empreendimento superava US$ 14 bilhões.

E há a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

Ela existe e produz. Mas sua história tornou-se símbolo de explosão de custos e das irregularidades reveladas pela Lava Jato. O TCU registra que uma estimativa inicial de US$ 2,3 bilhões chegou a US$ 20,1 bilhões. As investigações também comprovaram cartel e fraudes em licitações da refinaria.

O que tudo isso tem a ver com o agricultor?

Muito.

Refino, enxofre, ácido sulfúrico e fertilizantes pertencem a cadeias industriais interligadas. A própria Abreu e Lima opera hoje uma unidade SNOX que, além de controlar emissões, produz ácido sulfúrico.

Isso não significa que as refinarias canceladas teriam tornado o Brasil autossuficiente em enxofre. Não teriam.

Mas capacidade industrial não nasce por decreto quando a crise já começou. Ela leva anos para ser construída – e décadas de decisões ruins também cobram seu preço.

Agora há outro capítulo curioso dessa história.

A Petrobras está investindo mais de R$ 8,3 bilhões para concluir o Trem 2 de Abreu e Lima. Entre as empresas contratadas estão a Consag, do Grupo Andrade Gutierrez, e a Tenenge, ligada ao Grupo Novonor. São grupos empresariais cujas empresas estiveram envolvidas nas antigas investigações sobre o cartel das obras da própria refinaria.

Isso não significa que os contratos atuais sejam irregulares. Devem ser julgados pelos seus resultados e pelas regras atuais de governança.

Mas, diante da história, exigir transparência, competição e retorno sobre cada real investido não é preconceito contra investimento. É memória.

Ao mesmo tempo, a Petrobras voltou à produção de fertilizantes, reativando fábricas e retomando a conclusão da UFN-III, em Mato Grosso do Sul.

O problema brasileiro nunca foi falta de bilhões. Bilhões nós gastamos.

Produzir fertilizantes no Brasil pode ser ótimo. Desde que seja economicamente competitivo.

Depois de Comperj, Abreu e Lima e das duas Premium, algumas perguntas são inevitáveis: quanto vai custar? Qual será o retorno? Será competitivo sem subsídios? E quem absorverá o prejuízo se as premissas estiverem erradas?

O produtor rural paga pelos erros dessa política duas vezes.

Primeiro como cidadão, quando bilhões são destruídos em investimentos malsucedidos.

Depois como produtor, quando precisa comprar insumos mais caros num país que continua extremamente dependente do exterior.

O problema brasileiro nunca foi falta de bilhões. Bilhões nós gastamos. O problema é transformar bilhões em fábricas eficientes, competitivas e funcionando.

Antes de prometer fertilizantes, expliquem os bilhões enterrados nas refinarias.

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