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Antonio Cabrera

Antonio Cabrera

Potencial de crescimento

Um país magnífico: o Brasil que esquecemos de admirar

O brasileiro precisa redescobrir o orgulho de viver e produzir num país de condições tão excepcionais. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Há algo curioso acontecendo nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo.
Milhares de turistas estrangeiros chegaram esperando encontrar um país sombrio, decadente, dividido e melancólico — a imagem tantas vezes vendida por parte da imprensa e da elite cultural internacional. Em vez disso, encontraram outra coisa: abundância.

E ficaram espantados.

Os vídeos viralizaram. Torcedores europeus, latino-americanos e asiáticos encantados com coisas que, para o americano comum, parecem banais: refil grátis de refrigerante, estacionamentos imensos, supermercados gigantescos, churrasco texano, ar-condicionado gelado, casas espaçosas, estradas largas, variedade infinita de produtos, atendimento simpático, academias 24 horas, lojas como Costco, Cracker Barrel e Chick-fil-A.
Até ônibus escolares amarelos viraram atração turística. Muitos achavam que existiam apenas nos filmes.

O que para um americano é uma terça-feira comum, para o visitante estrangeiro virou descoberta civilizacional. Esse talvez seja o ponto mais interessante: quem vive muito tempo dentro de uma grande obra de arte corre o risco de deixar de enxergá-la. Passe todos os dias diante do mesmo quadro por trinta anos e, em algum momento, ele desaparece da sua atenção. Continua ali, mas você já não o vê. A familiaridade pode matar a admiração.
Foi preciso o olhar do estrangeiro para muitos americanos redescobrirem a grandeza cotidiana do próprio país.

E talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer no Brasil: será que não acontece o mesmo conosco? Será que não estamos tão acostumados ao Brasil que deixamos de enxergar o Brasil?

Vivemos reclamando — muitas vezes com razão. O Estado pesa demais. A burocracia sufoca. A insegurança jurídica assusta. Os impostos punem quem trabalha. A infraestrutura ainda está muito aquém do nosso potencial. A violência destrói a liberdade cotidiana. A política frequentemente parece organizada para desperdiçar oportunidades. Tudo isso é verdade.

Mas também é verdade que existe um país extraordinário por trás dos nossos vícios institucionais. E talvez estejamos valorizando pouco o incrível país que temos.

O Brasil é uma das maiores potências agrícolas do planeta. Produz alimentos em escala continental, com tecnologia tropical própria, em um ambiente climático, logístico e regulatório muito mais difícil do que o enfrentado por muitos concorrentes. Alimentamos centenas de milhões de pessoas no mundo e, ainda assim, muitos brasileiros falam do agro como se fosse um problema, não uma conquista.

Poucos países conseguem colher duas ou três safras no mesmo ano. Poucos transformaram solos antes considerados pobres em áreas produtivas de alta eficiência. Poucos criaram uma agricultura tropical capaz de competir com países temperados, ricos e altamente subsidiados.


O que para nós virou rotina — soja no Cerrado, milho de segunda safra, integração lavoura-pecuária, etanol de cana e de milho, proteína animal competitiva, frutas tropicais, café, algodão, florestas plantadas — para boa parte do mundo é quase milagre produtivo.


Mas nós nos acostumamos.

O Brasil também é um país de abundância natural difícil de comparar. Temos água, sol, terras agricultáveis, biodiversidade, energia renovável, rios, litoral, florestas, minérios (inclusive terras raras), clima favorável, vocação turística e uma população criativa, empreendedora e resiliente.


Temos praias que muitos europeus cruzariam oceanos para conhecer. Temos comida farta, variada e acessível em comparação com boa parte do mundo. Temos uma cultura hospitaleira, uma capacidade rara de convivência e uma alegria social que sobrevive até em ambientes de dificuldade.
O estrangeiro percebe isso rapidamente.

Ele se surpreende com o churrasco, com a feira, com o pão de queijo, com o açaí, com o guaraná e a caipirinha, com a praia cheia, com a informalidade simpática, com a comida servida em abundância, com a música, com a mistura humana, com a beleza natural, com a dimensão continental do país.
Nós, muitas vezes, passamos por tudo isso sem ver.

O mesmo acontece com a liberdade possível que ainda existe no Brasil real, apesar do Brasil oficial. O pequeno comerciante que abre cedo. O produtor rural que trabalha contra o clima, contra o juro, contra o fiscal e contra a ideologia. O caminhoneiro que cruza o país. O empreendedor que transforma uma garagem em empresa. A família que educa os filhos com sacrifício. A igreja local que socorre onde o Estado não chega.


Há um Brasil vivo, trabalhador e virtuoso que não cabe nas manchetes pessimistas. O problema é que nos acostumamos a olhar para o país apenas pelo ângulo de Brasília. E Brasília não é o Brasil. Brasília é, na maioria das vezes, o peso sobre o Brasil.

O Brasil verdadeiro está no campo produzindo alimento, na indústria tentando sobreviver ao manicômio tributário, no comércio que abre as portas apesar da insegurança, nas igrejas que servem comunidades, nas famílias que sustentam valores, nas pequenas cidades que ainda preservam confiança, nas fazendas que unem tecnologia e conservação, nas empresas que criam riqueza apesar de tudo.

Esse Brasil merece ser visto. Não para negar nossos problemas, mas para lembrar que nossos problemas são ainda mais graves justamente porque desperdiçam um país magnífico.


A tragédia brasileira não é sermos pobres por falta de potencial.
A tragédia brasileira é sermos menores do que poderíamos ser, apesar de termos quase tudo para ser muito maiores.

Os turistas que hoje se encantam com a abundância americana estão fazendo um favor aos próprios americanos: estão devolvendo a eles o olhar da admiração.


Talvez precisemos do mesmo. Talvez precisemos olhar para o Brasil como quem chega pela primeira vez.

Ver a imensidão do território. A força do agro. A criatividade do povo. A beleza natural. A energia renovável. A capacidade de produzir alimento. A hospitalidade. A fé. A família. O empreendedorismo espontâneo. A alegria que resiste.


E então perguntar: como um país com tanto potencial aceita ser travado por tanta burocracia? Como uma nação com tanta riqueza natural aceita um Estado tão caro e tão ineficiente? Como um povo tão trabalhador aceita ser tratado como suspeito por quem vive do seu imposto?

Amar o Brasil não é fechar os olhos para seus defeitos. É exatamente o contrário. É enxergar sua grandeza com tanta clareza que se torna impossível aceitar sua mediocridade institucional.


O Brasil não precisa copiar os Estados Unidos. Precisa aprender a admirar e defender aquilo que já tem de extraordinário.

Precisamos recuperar a capacidade de olhar para o nosso país com gratidão, responsabilidade e ambição.


Porque um povo que deixa de admirar o próprio país acaba entregando seu destino a quem só sabe administrá-lo como problema.
O Brasil é muito maior do que o Brasil oficial.

E talvez a primeira revolução de que precisamos seja esta: voltar a enxergar o país incrível que se tornou invisível aos nossos próprios olhos.

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