Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo

O Nobel que não nos chega

Divulgação

Foi anunciado hoje que o poeta sueco Tomas Tranströmer, de 80 anos e psicólogo de formação, é o vencedor do premio Nobel de Literatura esse ano. Para a literatura nórdica, a notícia não podia ser mais alvissareira (lembre-se de que o Nobel é uma premiação sueca): indicado à láurea desde 1973, a Suécia não vencia um Nobel há quase 40 anos, quando os poetas e escritores Harry Martinson e Eyvind Johnson conquistaram o prêmio juntos em 1974 numa escolha polêmica, já que ambos faziam parte da comissão julgadora. O próprio Tranströmer disse ter ficado perplexo. Segundo o secretário da comissão, Peter Englund, o autor estava escutando música quando recebeu a notícia.

Para nós, brasileiros, porém, o prêmio diz pouco: embora a obra de Tranströmer tenha sido traduzida para mais de 50 idiomas – em parte, graças à sua amizade com o poeta americano Robert Bly, que traduziu sua obra para o inglês – seus livros, até onde me consta, não chegaram no país. Não é uma surpresa, afinal: de poesia estrangeira temos maciçamente autores latino-americanos, algo além de Shakespeare na literatura inglesa e, quem sabe, um Eugenio Montale e um Cesare Pavese representando a Itália. Nada muito além disso. As editoras devem ter boas razões para acreditar que poesia sueca contemporânea não vende no Brasil. Como a nossa leitura, por mais bem intencionada que seja, está atrelada a prioridades mercadológicas, perdemos de conhecer a tempo um escritor que deve ter o seu valor para ganhar um prêmio Nobel de literatura e, quem sabe, comemorar como os fãs de Mario Vargas Llosa comemoraram a láurea do ano passado.
Agora já sabemos que qualquer livro de Tranströmer que chegar às prateleiras nos próximos meses será muito mais uma exploração do momento do que propriamente uma retratação ante nossa aparente falha curadoria de livros estrangeiros. E quando chegar (se chegar) um livro do autor às nossas megastores, eu vou comprar. Mas com a mesma sensação de comprar Romeu e Julieta de Shakespeare com uma cinta promocional que anuncia: “O livro que deu origem ao filme com Leonardo de Caprio e Claire Danes”.

Ps: Para ser completamente justo, há um único poema de Tranströmer traduzido no Brasil. “Poemas haikai” foi traduzido pela coleção Poesia Sempre número 25, da Fundação Biblioteca Nacional. A edição contou apenas com obras suecas e o poema foi traduzido por Marta Manhães de Andrade. Segue um trecho de “Poesias Haikai”:

Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.