
O músico e compositor Otto lançou recentemente Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, seu quarto disco-solo. Catalisado (ao menos “30%”) pelo fim do relacionamento com a atriz Alessandra Negrini, o álbum é vigoroso, genuíno e um dos melhores trabalhos pop da música brasileira recente — leia resenha completa aqui.
De um quarto de hotel em São Paulo, entre quatro bocejos e uma barra de chocolate, o músico conversou com este jornalista. Confira a entrevista a seguir.
Sobre o que seu novo disco fala, afinal?
Fala sobre como estou vendo o mundo. Como eu vejo o mundo é como eu estou. Em cinco anos, casei, descasei, tive filho. Foi tanta coisa para esse disco. Foi tão penoso. Em alguns momentos o mundo estava contra mim. Minha vida estava chata, levava porrada de todo mundo em todo lugar. Acho que ele fala sobre o ser humano que passa pela Terra. Sobre esse final e recomeço de século. Toda essa melancolia e tristeza, esse vazio e essa descrença. Perdi minha mãe há pouco tempo também. Na verdade eu vivo para tentar entender como é essa porra desse mundo.
Quanto o fim do relacionamento com a Alessandra Negrini influiu no trabalho?
Pois é. As pessoas se espantam com essa coisa de se separar. A importância do fato, na verdade, é a diferença entre o cantor e a atriz. Ela não pode fazer trabalho autoral, enquanto eu suo, me espremo para tentar tirar algo de mim. Já passei por várias separações e elas são iguais. Mas aí fui pai, minha mãe morreu agora… te digo que vários processos foram mais relevantes. Se for prático, 30% do disco é inspiração baseada na separação. Acho que a música “O Leite” é a que fala mais abertamente disso. “Crua” é mais o casco, é sobre a dor que todo mundo tem que sentir uma vez na vida.
Como é seu processo de composição?
Eu tenho que ser o espelho da galera. Sou muito racional na hora de escrever, muito sincero comigo mesmo. Me exponho muito nas músicas,mas tenho que fazer isso. Porque o meu centro de gravidade é cheio de amor.

Otto: aos 40 anos, pernambucano lança seu quarto e melhor disco.
Você optou por lançar o trabalho primeiro nos Estados Unidos. Como foi e por quê dessa escolha?
Eu tenho 40 anos e batalho pelas minhas coisas. A mídia por aqui soa indiferente e parece que eles dizem assim: “vou te botar naquele lugar ali e esperar você secar”. É difícil. A gente vai lutando por espaço na medida em que recebemos porrada. E lá foi espetacular. Foram dois shows em Chicago e um em Nova Iorque.
O que achou de ser chamado de “Moby do sertão” pelo jornal The New York Times?
Achei um luxo. A comparação foi maravilhosa e para mim tem muito valor. E tem a ver. Me considero inventivo também e vivo produzindo coisas. E essa comparação não é pejorativa. Eu sou da roça sim, mas a música dos recantos do mundo é importante. Muitos grandes da música vieram do interior. A roça muda a música.
Fale um pouco sobre a música “6 Minutos”.
Ela tem seis minutos, [na verdade, 5 minutos e 58 segundos], mas não foi planejado. Já toco ela com o Wax Poetic [projeto paralelo] e surgiu meio de improviso. A banda fez o tema e eu comecei a cantar. Ela é para estádio. Sugere um climão. O título é porque eu acho que quando uma pessoa morre, ela tem seis minutos para virar bebê de novo. É uma coisa minha. E ela lembra a Elis [Regina] também, não? “Quero uma casa no campo… “
Quem te ouve hoje?
Olha, se me matassem, iria ter muita gente chorando no enterro. Acho que tenho um público grande, que me acompanha de verdade. Sinto isso nos shows e faço um trabalho cirúrgico com meus fãs. Essa é a minha defesa: a relação com o público. E tive sorte de conhecer o Fred 04 e o Chico [Science]. Sabia que estava entrando em uma portinha da MPB. Espero contribuir para o meu país. Porque a música brasileira é respeitada. Então temos que ir furando, perfurando.
Onde está o manguebeat?
Ele está pavimentado em mim, no meu processo de criação. Nós, de lá de cima, não temos apoio, mas temos o talento e o público que nos aprova. O Dengue, o Catatau, a turma toda está junta. Não é mais um movimento, mas uma cooperativa de amigos. O mangue é isso. Não tocamos em rádio, ninguém faz reality show com a gente, mas conseguimos muita coisa. E existe algo desde aquele tempo do Chico [Science] que está nos segurando. A essência é essa, já que nunca vamos ter nada de mão beijada.
“Naquela Mesa”, de Sérgio Bittencourt, é uma homenagem ao pai famoso (Jacob do Bandolim). Você quis fazer o mesmo com a releitura?
Além de estar no filme, eu ouvi muito essa música durante a minha vida. Lembrei do meu pai, mas ela remete ao Brasil. Ela tem uma dignidade, e gosto de pegar coisas que remetem e simbolizam a infância, a adolescência. E eu fui pai. Então é quase uma consulta psicanalista, eu tento enxergar alguma coisa que ficou perdida por ali, na canção inclusive.
Você esteve no Festival Lupaluna, em Curitiba, em novembro. Acompanhou o Los Sebozos Postizos. Vocês andam juntos, fazem coisas juntos ainda?
Estava tocando com a Nação Zumbi em Santos. Fizemos um show especial do disco “Da Lama ao Caos”. Eu estava parado e eles me chamaram. Isso é também o manguebeat. Eu revivi muito o movimento mangue nos últimos tempos, tocando com eles, convivendo com eles.







