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Gunnar Myrdal
O economista sueco Gunnar Myrdal, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1974.| Foto: PRESSENS BILD AB/HASSE PERSSON/EFE

Gunnar Myrdal é um célebre economista sueco que dividiu o Nobel com Hayek em 1974. A Suécia é um país apontado pelos bons moços como o paraíso na terra: muitos impostos, mas muitos serviços públicos de qualidade, além de um IDH altíssimo. A Real Academia Sueca, em 1974, se esmerou em agradar gregos e troianos, já que Hayek e Myrdal propunham teses opostas. Hayek acreditava que a inteligência difusa pela sociedade era capaz de engendrar, descentralizadamente, uma ordem superior à de qualquer planejador. Isto fazia de Hayek um anticomunista, mas também um antinazista, um antifascista, um antipositivista e um antiprogressista, já que todas essas correntes políticas acreditavam na planificação da economia por uma autoridade central. Gunnar Myrdal era precisamente o contrário. Era o defensor do Estado forte e planificado, capaz de prover a todos os cidadãos o bem estar. Era, numa palavra, o ideólogo da atual Suécia.

Mas se o Estado irá planejar as benesses distribuídas aos cidadãos, nada mais natural que querer regular a quantidade de habitantes. Assim, Myrdal e sua mulher eram notórios ativistas do movimento eugenista. E a Suécia se esmerou em esterilizar compulsoriamente seus cidadãos considerados inúteis, com foco em mulheres em idade fértil. Uns óculos ruins, e uma enfermeira poderia concluir que se tratava de uma débil mental incapaz de ler, portanto, uma garota a ser esterilizada.

A gente só acha a Suécia bonita porque é trouxa. Não estamos sozinhos nisso, porém. Gunnar Myrdal foi pago pela Carnegie Corporation de Nova York para fazer um relatório sobre “the Negro problem” lá nos Estados Unidos. Uma conclusão, nada surpreendente, é de que a população negra precisava ser diminuída. A surpresa é saber que sua obra An American Dillema: The Negro Problem and Modern Democracy (Harper, 1944), o relatório resultante, é considerada um documento indispensável para o avanço dos negros nos Estados Unidos. Foi até usado no caso Brown v. Board of Education, quando a Suprema Corte considerou inconstitucional a segregação racial nas instituições de ensino.

Racialização do regionalismo

Vamos dar uma olhadela no livro; em particular, no capítulo “População”. Ao considerar as taxas de natalidade, chama a atenção que Gunnar Myrdal usa o corte negros X brancos mesmo estando ciente da importância das discrepâncias regionais. Como vimos com Sowell, há uma importante cisão regional nos Estados Unidos entre o Sul agrário e o Norte urbano. Dado que os negros da época de Myrdal se concentravam na área agrária, não era de admirar que eles tivessem uma taxa de natalidade maior que a dos brancos, nem que a mortalidade infantil fosse maior que a dos brancos. Isso é um reflexo do corte rural X urbano, já que o mundo rural tende (ou tendia, antes da agricultura tecnológica) a ter taxas de natalidade e mortalidade infantil mais altas que nos centros urbanos. Se os negros estão concentrados na área agrária, isso se explica. Para ter relevância racial, só se houvesse uma estatística que considerasse brancos e negros da área rural. E de fato os brancos do Sul eram chamados de white trash no jargão dos planejadores sociais (expressão ainda usada por Sílvio Almeida para se referir aos eleitores de Donald Trump). Inclusive Carrie Buck, esterilizada à força pelos Estados Unidos no começo do século, era uma branca pobre do Sul.

Será que surgiu com Myrdal essa prática de usar o corte racial, em vez do regional, para tratar dos negros no âmbito federal? É possível que sim, já que os Estados Unidos, antes do século XX, tinham uma forte cisão regional, que culminou numa sangrenta guerra civil. Por outro lado, Myrdal pode não ter sido individualmente responsável por isso, já que o progressismo faz isso e é mais velho do que Myrdal.

Assim, mesmo sendo sempre pouco mais do que 10% da população dos Estados Unidos e concentrando-se, à época do estudo, na zona rural, os negros eram postos lado a lado com o conjunto dos brancos por Myrdal, e, naturalmente, sempre levavam a pior. Um motivo de preocupação, portanto, eram as tais taxas de natalidade e mortalidade infantil, acompanhadas pela pobreza. Qual a melhor solução para isso? Reduzir a natalidade e, por conseguinte, a mortalidade. Na verdade, reduzir a população geral dos negros a fim de que haja negros melhores.

De fato, é uma conclusão estranha, já que Myrdal escrevia enquanto os negros migravam do Sul para o Norte urbano. Segundo ele mesmo apontava, quanto mais ricos e urbanos os brancos e os negros, menor a taxa de natalidade. A taxa de natalidade decrescia entre brancos e negros porque ambos estavam se urbanizando e aderindo à novidade do controle de natalidade – mas decrescia menos entre os negros, porque os brancos já eram muito urbanos (o Norte era habitado e tinha poucos negros – poucos e bem sucedidos, como diz Sowell, em geral vindos do Caribe). Se fosse assim, era de esperar que os negros, sendo pessoas normais, enriquecessem também, apesar da discriminação.

Fertilidade, dinheiro e causalidade

Diz Myrdal: “Como não antevemos nenhuma subida no status econômico das massas negras no futuro imediato, e nem mesmo um grande aumento nas suas diminutas elites e classes médias, não parece que o fator de um aumento de padrão de vida será per se de grande importância para a fertilidade” (p. 164-165). Por aí se vê que a redução da população é fim em si mesma. Assim, seria necessário enriquecer os negros modesta e artificialmente, para ter impacto sobre a quantidade. Continua ele: “O futuro desenvolvimento da política de Bem Estar pode se tornar muito mais importante [do que a melhoria do padrão de vida], mas seu efeito seria diferente de um aumento de renda. Se o sistema de seguridade social se estender e as pensões forem dadas às crianças, e a outras políticas de Bem Estar – relativas à habitação, alimentação e saúde – forem desenvolvidas e dirigidas mais ao bem-estar das crianças, isso pode parar o declínio da fertilidade, diminuir a mortalidade e aumentar a reprodução líquida. Esses efeitos serão maiores sobre os pobres do que sobre os remediados, e portanto seria melhor para os negros do que para os brancos – já que os negros estão mais concentrados nos estratos de rendas mais baixas. Se houver uma divulgação aumentada de informação sobre o controle de natalidade, haverá uma queda na fertilidade, mortalidade e reprodução líquida” (p. 165). Moral da história: tem que dar políticas de bem-estar para os negros e, ao mesmo tempo, controle de natalidade, senão eles se reproduzem. No mais, a alternativa para o crescimento da população negra seria a imigração de negros estrangeiros, normalmente do Caribe (que ele ainda chama de Índias Ocidentais). Mas como os negros têm poucas oportunidades, essa imigração parece improvável, de modo que, dando bem-estar e controle de natalidade aos pobres de modo geral, a fertilidade dos negros em particular deveria cair.

Conciliação nacional via redução populacional

Na seção 4 do capítulo, intitulada “Fins e meios da política de população”, Myrdal é mais explícito. Lastima-se de que a heterogeneidade dos EUA dificulte a engenharia social (o termo não era pejorativo à época) e, especificamente, a aplicação do controle de natalidade. Protestantes “fundamentalistas” do Sul e enclaves católicos no Norte são contra a “discussão” do assunto – e por aí se vê que, ao menos desde 44, “discussão” é um eufemismo para imposição.

O dilema apontado por Mydral no título do livro é entre os ideais de liberdade, igualdade e caridade cristã dos Estados Unidos e o racismo. Eis que surge uma solução que talvez possa agradar a todos: “Se nos esquecermos dos meios por enquanto, e considerarmos só a meta quantitativa para a política populacional dos negros, não há dúvida de que a maioria esmagadora dos americanos brancos [– que já eram a maioria esmagadora do país –] desejam que haja tanto menos negros quanto possível nos EUA. Se os negros pudessem ser eliminados dos EUA ou muito reduzidos em número, isto encontraria a aprovação dos brancos – desde que se pudesse conseguir por meios que sejam também aprovados. Correspondentemente, um aumento da proporção dos negros na população americana é comumente vista como indesejável” (p. 167). Se botar todo mundo num campo de extermínio, o americano vai achar feio. Então tem que reduzir de um jeito bonitinho (na verdade, as opções históricas apresentadas por Myrdal – e rejeitadas pelos sulistas – eram a deportação para a África e a criação de um 49º estado). Nas palavras de Myrdal, “todos [sic] os brancos americanos concordam que, se o negro for eliminado, tem que ser eliminado vagarosamente, sem ferir nenhum indivíduo negro vivo. Portanto, a avaliação dominante nos EUA é que o negro deve ser eliminado do cenário americano, mas devagar” (p. 168).

Em seguida ele considera que os negros jamais podem concordar com a meta final, mas, porém, contudo, todavia, devem concordar com a redução da própria população. Ele lastima que quase todo negro que ele tenha encontrado lá considere a quantidade de filhos a prova da virilidade do povo. Cita então o notório eugenista negro Du Bois para promover a conciliação nacional. Referindo-se aos negros de opinião comum, Du Bois diz: “Precisam aprender que, entre as raças e grupos humanos, tal como os legumes, a qualidade conta, e não a mera quantidade” (p. 169). A teoria de Du Bois é que os negros devem engendrar uma elite a partir dos 10% dos negros talentosos. Assim como os brancos americanos esterilizaram Carrie Buck para melhorar a raça e os suecos alguns milhares de suecas, os negros também poderiam ser eugênicos e até “antirracistas”, se considerarem a existência de meros 10% de negros que prestem. Mandar esterilizar 90% dos negros para fazer negros bons é uma forma de “antirracismo” nos EUA.

Bom, quanto à comparação entre homens e legumes, nota-se que a direita cristã perde hoje um tempo danado falando mal de comunista, quando essa outra fonte de desvalorização da vida está na nossa cara, hidden in plain sight, como dizem os anglófonos. É uma pena que o progressismo não tenha uma bandeira, como o comunismo tem a foice e o martelo. Essa ideologia fica pegando as bandeiras dos outros e enganando trouxa.

Não deixemos de notar que a grande demografia branca foi usada em combinação com a democracia (ou antes um democratismo) para planejar a eliminação de uma parcela da população.

Propaganda antinatalista

Se os negros não querem ir embora nem ser assassinados, e se isso vai também contra o credo da maioria branca, resta o controle de natalidade – que encontra resistência de fanáticos ao Sul e católicos ao Norte. Mas o “fato” pseudocientífico é que “há no Sul um grande número de negros – bem como de brancos – que são tão despossuídos que, de um ponto de vista social geral [isto é, o dele], que seria altamente desejável [para Myrdal] que eles não procriassem. O mesmo é verdade, embora em grau muito menor, no Norte” (p. 175).

Mas esterilizar contra a vontade os americanos acham feio, então não vai dar para fazer como na Suécia. Outra opção é o aborto, mas “o americano médio tem uma atitude similar” quanto a essa medida, pois “em sua opinião a vida não deve ser extinguida. O aborto, ademais, não é de todo isento de riscos à saúde” (p. 176). Sem esterilização compulsória e aborto induzido, resta a contracepção. Além de religiões organizadas, este método enfrenta “a inércia e a moralidade puritana das massas” (p. 178).

Assim, resta investir na propaganda e na instalação de clínicas de controle de natalidade em áreas de negros, como já vinha fazendo, com êxito, a Planned Parenthood da eugenista Margaret Sanger. Isso implicava deixar de fazer da contracepção um assunto a ser tratado apenas por médicos. Diz ele: “A principal razão para defender essa mudança de ênfase é que a instrução das massas e a propaganda alcançam mais gente em menos tempo e a menos custo do que clínicas dirigidas por médicos e enfermeiras” (p. 181).

As fontes do engano

Durante todo esse capítulo, repisa-se que o nascimento de crianças pobres é uma coisa ruim em si mesma. Tudo se passa como se a riqueza fosse um grande bolo pronto, e a maior quantidade de crianças implicasse o menor tamanho das fatias. É maltusianismo.

Outra pressuposição é a de que, tendo cada criança uma fatia gordinha do bolo, tudo estava resolvido. As crianças são como os legumes de Du Bois, aos quais basta uma quantidade de matéria para que se desenvolvam. De minha parte, nunca vi ninguém conversar com um leguminoso ou dar-lhe palmadas para que ele crescesse bem. As pensões para mães solteiras fizeram aumentar as mães solteiras, os filhos sem pai se tornaram mais propensos à criminalidade, e os negros dos EUA seguem enchendo as cadeias. A desgraça das famílias negras, a confiarmos em Sowell, é resultado da engenharia social que leva o bonito nome de Bem-Estar.

Chesterton, em Eugenia e outras desgraças, diz que a eugenia é uma nova moral segundo a qual somos responsáveis só pelos bebês que não nascem. Ele escreveu isso em 1922, e o tempo viria a mostrar sua correção. Vários bebês não nasceram; os nascidos ficaram descuidados.

O materialismo é o problema principal. Mas outro, triste de se constatar, é que Myrdal conseguiu resolver o conflito moral dos EUA adulando o racismo e o desejo de sumir com os negros.

A história dos negros no Brasil é mil vezes melhor do que isso.

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