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Lobo
Não é razoável confiar sempre no poder da razão, já que este não é o único poder do mundo.| Foto: Pixabay

Cerca de meio milênio antes da era cristã, Esopo já escrevia uma fábula para ensinar os seus conterrâneos a distinguir entre os que fazem uso da força e os que fazem o uso da razão. O cordeirinho racional bebia água no mesmo rio que o lobo, também racional. Este estava mais próximo da nascente. Ainda assim, dizia ao cordeirinho que ele estava turvando a sua água. Se o cordeiro racional não fosse cordeiro, e tivesse alguma malícia ou simples bom-senso, consideraria que o lobo é um lobo, antes de ser um animal racional, e que ele próprio, por mais que se considere um animal digno, é ao mesmo tempo uma presa apetitosa. Se um lobo está procurando conflito com você, cordeiro, corra!

Mas o cordeirinho acreditava que tudo era razão e diálogo, e que poderia solucionar o problema convencendo o lobo de que o seu argumento não era razoável. O cordeiro argumenta que, devido ao curso do rio, é impossível que ele esteja turvando a água do lobo. É um argumento de uma evidência cristalina. Tão cristalina, mas tão cristalina, que é impossível que o lobo não soubesse de antemão. Após discutirem, o lobo engole o cordeiro.

Moral da história: não é razoável confiar sempre no poder da razão, já que este não é o único poder do mundo.

Irracionalidade evidente em 2020

Logo no começo da pandemia, a Europa começou a fechar parques e a trancar as pessoas em casa. Não obstante, apinhar-se nos metrôs para ir trabalhar era permitido. No caso da França, o cantor HK fez uma série de versos e canções contra as medidas sanitárias irracionais. Uma, em particular, “Danser Encore”, foi traduzida para várias línguas europeias e se transformou numa espécie de hino dos protestos. (Escrevi sobre isto quando tomei conhecimento, já que foi abafado.)

No território nacional, lembro-me do primeiro susto que tomei com a irracionalidade das medidas. Foi quando a prefeitura de São Paulo resolveu restringir a frota de ônibus. Ora bolas, caçarolas: como o único exemplo de lockdown no Brasil equiparável ao da Europa foi no município de Araraquara, estava claro, lógico, evidente, que o grosso da população de São Paulo continuaria saindo às ruas para trabalhar. E como se sabia que o vírus era transmissível por via respiratória, era evidente, lógico, claro, que apinhar as pessoas em vagões mais apertados aumentava o contágio. Dada a evidência, eu não era nenhum gênio ao notar isso. A própria notícia amiúde vinha acompanhada de críticas. E não obstante a prefeitura de São Paulo ia sendo imitada pelas prefeituras das capitais Brasil afora.

Depois disso, veio a redução de horários de funcionamento de lojas e do serviço público. Cansei de ouvir gente reclamando que as medidas não faziam sentido, porque as pessoas passavam a se aglutinar nas lojas e a se apinhar nas filas do serviço público. As autoridades não se empenhavam em dar nenhuma resposta satisfatória. No máximo, os psolistas do funcionalismo diziam que a culpa da redução do trabalho era de Bolsonaro, que não os tinha vacinado. Mas para a redução de transporte público, necas. Repetiam que as pessoas iam deixar de sair de casa, mesmo que sabendo que é mentira. São como o lobo da fábula.

Por fim, o cúmulo do absurdo, os shoppings foram reabertos antes dos parques e praças. No ano passado, eu quis mostrar o Campo Grande para a minha tia carioca, mas estava fechado. Já no shopping se podia entrar. Alguém quer dizer que há racionalidade nisso? É como se os lobos repetissem para nós, desde a Europa até Salvador, dando um balão em São Paulo: Tu estás turvando a minha água, ó cordeirinho! Fique longe das praças, evite o ar livre e apinhe-se no transporte público lotado para não pegar covid!

Irracionalidade evidente em 2021

Os lobos falaram, e de fato ficamos com as nossas liberdades restritas. Hoje estamos menos livres do que em 2019, mas o retorno parcial à normalidade fez com que muitos se sentissem aliviados. Aí lembra uma outra fábula, moderna, de autoria desconhecida. O homem vai ao médico contando que quer se matar e o doutor receita um bode na sala. A cada ida ao médico, é prescrito um bode na sala. A vida do homem piora, com os bodes defecando em tudo, arrancando a dentadas nacos do estofado, fazendo bééé. Até que o médico passa a recomendar a retirada gradual de bodes. No fim, sem bodes, o homem acha a vida uma maravilha e se considera curado.

A moral original da fábula é que devemos dar valor ao que temos. Mas ela revela uma psicologia dos bodes que é útil para entendermos a nossa situação atual. Em vez de médico, bem podemos ter um lobo da fábula de Esopo. E em vez de ter em vista a cura, tem em vista a restrição gradual das liberdades. Assim, é possível que o governo vá nos impondo um bode na sala, depois dois bodes na sala, e quando ele tira um, ficamos felizes por ter na sala um bode em vez de dois. E aí ele bota de novo o segundo bode, mais o terceiro, e depois tira só o terceiro. E assim ficamos felizes por ter apenas dois bodes na sala, em vez de três. A coisa pode seguir em progressão rumo ao infinito. Ficaremos aliviados por ter n bodes na sala, em vez de n + 1.

A novidade de 2021 foi o passaporte sanitário. A vacina impede o contágio? Não. A vacina traz riscos? A própria bula diz que sim. Matou Bruno Graf, e o governo de Santa Catarina só reconheceu isso porque a mãe dele reuniu firmeza de caráter e condições financeiras para bancar exames caros. (Dizem que o caso de Bruno Graf é raríssimo, como se a mãe dele, Arlene Graf, não fosse uma mulher raríssima. Se o cinismo e a covardia não estivessem em alta, o Brasil não pararia de se perguntar: mas não era de interesse público a apuração das mortes causadas por vacina? A batalha de Arlene Graf não é uma evidência de que corremos um risco inaceitável?) A conclusão lógica, evidente e clara é que o Estado vai obrigar os Brunos Grafs a pagarem com a vida por uma segurança que não será entregue.

Além disso, ignoram-se as evidências contundentes de que a imunidade adquirida com a covid é superior à artificial de que ora dispomos, e que a vacinação dos imunizados pode ser prejudicial à sua saúde. É uma irracionalidade evidente obrigar os milhões de brasileiros que sobreviveram à covid a tomarem essas vacinas compradas pelo Estado.

Irracionalidade evidente em 2022

O governador do meu estado baixou um decreto segundo o qual eu não vou poder pegar nem o transporte intermunicipal alternativo sem um comprovante de vacinação do ConecteSUS, cuja funcionalidade não sabemos se é muito melhor do que a do aplicativo eleitoral do PSDB. Para ingressar no SAC, que faz documentos de identidade, é preciso ter o comprovante também. O cidadão sem cartão pode virar um cão vadio perante o estado da Bahia. E não digam que é por ser do PT, porque a vacinação aqui contou com menos adesão da população do que o estado de João Doria, o Herr Vacina. O que ele não faria, caso a população desobedecesse?

Assim, enquanto o governo me tira liberdades quotidianas e básicas em nome do combate à covid, libera o carnaval de 2022. O Rio, cujo carnaval também é grande, também está perseguindo seus cidadãos e liberando o carnaval de 2022. Alguém acredita que isso faça algum sentido?

Não faz. São uns lobos. Dizer que passamos covid é só um jeito de dizer que turvamos a água.

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