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Número sete
John Gray, em seu “Sete tipos de ateísmo” (Record, 2021), impressiona pela capacidade de dizer muito com poucas páginas| Foto: Pixabay

Li John Gray logo após terminar Sandel, e foi um bálsamo. Se Sandel não ia direto ao ponto e usava infinitas páginas para dizer a mesma coisa, John Gray, em seu 'Sete tipos de ateísmo' (Record, 2021), impressiona pela capacidade de dizer muito com poucas páginas. O estilo é leve e o autor é muito erudito.

Ele faz um alerta logo no começo quanto às próprias preferências. Assim, vou fazer um aqui também: eu sou ateia, e cá com os meus botões divido o ateísmo em dois tipos, o coivara e o cético. Coivara é parte do plantio tupi: limpa-se o terreno com fogo para plantar em seguida. Pois bem: o ateísmo coivara é aquele que toca fogo na fé para plantar qualquer porcaria no lugar. Esse tipo de ateu se acha muito esperto por não acreditar em Deus, mas engole bovinamente todo tipo de bobagem, tais como: não existem homens e mulheres na natureza; o fim da propriedade privada está próximo; as urnas eletrônicas são absolutamente invioláveis etc. E esse credo tem, para o ateu de coivara, o mesmo peso moral que crenças religiosas profundas têm para os devotos. Desnecessário dizer que detesto o ateu coivara. Uma coisa é um católico achar imoral quem nega que a humanidade toda seja irmã, filha dos mesmos Adão e Eva. Outra coisa, absolutamente estapafúrdia, é considerar imoral quem ponha em dúvida a segurança da urna eletrônica.

Já o ateu cético é ateu por causa da própria índole. Não tem nada a ver com política nem nada. De minha parte, eu, quando criança, achava que os adultos falavam com tanta segurança aquelas coisas todas sobre Deus porque recebiam de um anjo essas instruções. Quando eu descobri que não estavam escondendo de mim nenhum anjo, atinei que a coisa toda consiste em um grande telefone sem fio ligando a Antiguidade até os dias de hoje: os devotos ouvem e repetem. Assim sendo, está fora da minha alçada acreditar.

Sempre existiu gente assim. Marco Túlio Cícero era, ao mesmo tempo, adivinho público da República romana e autor do livro “De divinatione”, uma crítica à eficácia da adivinhação. Ou seja: o romano médio acreditava nas profecias do haruspex, a adivinhação era uma arte ou técnica (ars divinatoria) com um método específico para eviscerar aves e fazer profecias a partir das entranhas. Cícero, não. Ele fazia tudo o que tinha de fazer no cargo público, mas não acreditava.

Religião como crença, novidade cristã

Comecei por Cícero para criticar a noção de religião adotada por John Gray. Ele segue umas noções wittgensteinianas segundo as quais as religiões politeístas consistiam em práticas em vez de crenças. Isso teria mudado (ao menos no Ocidente) a partir do cristianismo, quando a crença na história de Jesus passou a pautar a religião.

Eu não posso concordar com essa clivagem; afinal, é evidente que toda prática no mundo antigo estava atrelada a uma crença. Tanto era que Cícero se deu ao trabalho de escrever uma obra refutando a crença da maioria dos seus concidadãos. Além disso, católicos costumam participar de procissões, rezar terços, comungar e acender vela – coisas de ordem prática.

Me parece que John Gray tem uma concepção excessivamente protestante do cristianismo, haja vista que são os protestantes que gostam de ficar debatendo questiúnculas teológicas e criando seitas ad infinitum. Há, porém, uma dose de verdade nessa clivagem: se na época de Cícero era possível um cético desempenhar funções sacras, é porque aquela religião era mais presa a atos do que à crença individual.

Assim, para John Gray, o ateísmo no Ocidente é dependente do cristianismo. Se a religião passou a ser um sistema de crenças com o cristianismo, o ateísmo só pode fazer sentido após a invenção do cristianismo. Tanto que, fora do Ocidente cristão, existe religião ateia. Para o budismo, a inexistência de Deus não é nenhum drama, ao passo que para nós, ocidentais, é um drama e uma negação da religião. (Ao se falar em ateus orientais, vem à mente a China pós Mao. Mas esse caso não conta, pois o ateísmo doutrinário deles é de origem ocidental, marxista. Por mais que haja religiões bastante diferentes das ocidentais na história chinesa, o comunismo tratorou qualquer tipo de religião onde quer que passasse. Vide o próprio budismo, no Tibete.)

Os sete tipos de ateísmo

Dada a presunção de John Gray de que o ateísmo é um fenômeno do seio de sociedades cristãs, ele fica livre então para fazer uma pequena história das ideias com o tema do ateísmo. Por isso essa classificação numerosa, que computa sete tipos de ateísmo ocorridos na história ocidental.

Por outro lado, como bom ateu cético que enxerga a diferença entre ele mesmo e os ateus que acreditam em qualquer bobagem, a classificação dele tem algo de taxonômica, como a minha. Os sete tipos de ateísmo descrevem eventos históricos recorrentes, sendo que às vezes um deles pode ser a versão laica e moderna de um movimento místico ocorrido na Idade Média. Ou seja, os tipos são independentes da história, pois classificam movimentos sem continuidade.

O ateísmo que chamo de coivara ocupa os cinco primeiros tipos descritos. O primeiro tipo descrito é o “ateísmo novo” (new atheism), amiúde traduzido para o português como neoateísmo. Seus nomes são Sam Harris, Richard Dawkins etc. Como, segundo Gray, é um tipo muito pobre, ele não dispensa muitas linhas na análise.

O neoateísmo consiste em achar que é necessário opor ciência e religião, e predomina em países de língua inglesa. Seus partidários costumam ser liberais e fazem de conta que ateísmo está vinculado a liberalismo. Também segundo o próprio Gray, ateus de língua inglesa costumam ser ignorantes, e é o caso dos neoateus: estes consideram falsamente a ciência um empreendimento antirreligioso e ignoram a longa tradição de iliberalismo dos ateus. Esse tipo de ateísmo tem suas origens na Inglaterra do Iluminismo, que pretendeu usar Newton para provar cientificamente o design inteligente e, portanto, a Criação por Deus.

O segundo tipo de ateísmo é muito parecido com o primeiro: é o humanismo secular. Sua origem está em Comte, que de fato criou uma religião da Humanidade, calcada na ciência, para substituir o cristianismo. Com toda razão, John Gray aponta que a salvação da Humanidade é uma ideia peculiar do Cristianismo, mas os ateus dessa corrente não se dão conta. O humanismo secular é, então, uma tentativa de restaurar o mito cristão da Humanidade em busca da salvação. Segundo essa visão da História, a Humanidade está numa marcha rumo ao progresso. Nessa corrente ateia estão John Stuart Mill e Bertrand Russell.

Esse capítulo inclui ainda Nietzsche e Ayn Rand, a qual é apresentada como uma líder de seita que copia o Übermensch de Nietzsche para transformá-lo num capitalista que foge de impostos. O Übermensch, para Gray, é uma tentativa de Nietzsche de restaurar Jesus Cristo, criando uma nova figura redentora da Humanidade. Através dele, ela poderia continuar sua marcha rumo ao progresso.

No terceiro tipo de ateísmo, há uma crítica furibunda ao Iluminismo, feita mais com o fígado do que com o cérebro. O autor chega a dizer que “se celebrarmos as figuras mais celebradas do Iluminismo – David Hume, Immanuel Kant e Voltaire –, veremos que as ideias de hierarquia racial são centrais [sic!] no seu pensamento. Boa parte do Iluminismo foi uma tentativa de demonstrar a superioridade de uma parte da humanidade — a da Europa e de seus postos avançados coloniais — sobre todo o resto”.

Em toda a obra de Hume, há somente uma nota em que ele menciona a possibilidade de os negros serem inferiores, para explicar o atraso da África. Adam Smith, também iluminista, prefere explicar por fatores geográficos, tais como a escassez de rios navegáveis. Dizer que a vasta obra de Hume e Kant têm como centro a superioridade racial é um despautério; não há outro termo. Hume é famoso na posteridade pela crítica à causalidade e, na sua época, pelos ensaios sobre comércio (que inspiraram Smith) e pela História da Inglaterra.

Kant até que escreveu bastante sobre raça, mas o mais importante em sua obra são a sua teoria do entendimento humano (humano, não europeu) e a sua fundamentação laica da máxima cristã (“amar ao próximo como a ti mesmo”). Voltaire era um polemista, e de fato ficou do lado do racismo contra Buffon. Mas há uma ausência acachapante: Jean-Jacques Rousseau, que tanto romantizou os selvagens e o estado de natureza.

Na verdade, o Iluminismo foi uma caixa de Pandora. Saiu de tudo de lá. E a questão da raça nem é culpa desse movimento: tudo começou na Renascença, com os “pré-adamitas”. Vendo os índios, alguns hereges supuseram que eles não descendiam de Adão e Eva. A Igreja perseguiu, mas os protestantes deixaram a coisa correr solta. Não é por acaso que os países de formação protestante são mais propensos ao racismo de Estado do que os católicos. O próprio Voltaire era um anglófilo dentro da França.

Mas enfim, John Gray atribui ao Iluminismo a origem de um ateísmo que idolatra a Ciência como panaceia da Humanidade. A essa corrente filiam-se o leninismo e o transumanismo (uns malucos que querem fazer becape de alma e botar numa máquina).

Vamos ao quarto, que é bem interessante. O gnosticismo seria a religião política, seja ateia ou não. Acredita-se que o conhecimento liberta; assim, de posse de uma verdade política, reestrutura-se toda a sociedade. A Münster medieval, num regime místico sem propriedade privada de um tal Jan Bockelson, era um prenúncio das seguintes religiões políticas: jacobinismo (a primeira religião política moderna), bolchevismo, nazismo e “liberalismo evangélico”. Este é o nome que Gray dá aos que têm a democracia liberal como único regime político aceitável e pretendem espalhá-lo pelo mundo, nem que seja na bala.

O quinto, no qual não quero me alongar, é o dos que odeiam Deus e o adoram pelo avesso. Aqui Gray bota o Marquês de Sade e Dostoiévski (pela boca de Ivan Karamázov).

O sexto parece ser o ateísmo do próprio Gray, que ele chama de “ateísmo sem progresso”. Esta classificação não deixa de ser um corolário da própria ideia de que o Progresso da Humanidade é um mito cristão. Nesse balaio ele põe Santayana, “um ateu que amava a religião”, e Joseph Conrad. O primeiro é um bon vivant meio eremita, que não estava nem aí para calamidades políticas, e o segundo era um profundo sofredor que viu as maiores catástrofes perpetradas pelo homem contra o homem no Congo Belga e escolheu denunciá-las ao mundo.

O sétimo é o ateísmo místico de Schopenhauer e Spinoza. Schopenhauer era afeito ao budismo, e Spinoza equivalia Deus e natureza.

Explicação para o erro crasso de John Gray

Num dado momento, Gray critica Voegelin assim: “A crença de que o mundo humano poderia ser refeito em um plano melhor não é encontrada em momento algum entre os gnósticos antigos. Não fica claro por que Voegelin insistia em identificar o gnosticismo com essa ideia. Talvez quisesse dizer que o Ocidente é inocente das monstruosas religiões políticas de tempos modernos.” Ele dá uma explicação psicológica para o que crê ser um erro de Voegelin. Pois eu dou uma explicação também psicológica para o erro de Gray, que é culto demais para tratar o Iluminismo do mesmo jeito que uma lumena.

Concordo com ele quanto ao progresso. Progresso não é um dado, e não é possível apontar uma melhora linear na história da humanidade. Concordo com ele, também, que a noção de Humanidade como um único agente moral é uma peculiaridade cristã. Mas ele parece tirar daí uma inércia moral num mundo sem progresso. O Iluminismo, com todos os seus defeitos, foi um movimento de audácia intelectual. Os iluministas se propuseram a tarefa de pensar a Humanidade e aprimorar o seu curso.

Ora, o progresso não é um dado, mas nós não somos objetos inertes. Nós, humanos, podemos tomar a empreitada iluminista. E, se coletividade moral alguma existe, fato é que a Humanidade é a melhor ficção de todas já encontrada. Há bons e maus mitos, o mito da unidade moral da Humanidade é sem dúvida superior aos mitos de povos escolhidos ou raças superiores.

Muito do Iluminismo deu errado, muito do Iluminismo deu certo. Normal: é que progresso não é um dado, e o homem aprende por tentativa e erro. Preguiça é dizer que o progresso não existe e portar-se como uma pedra.

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