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Basta pôr turbinas nas portas dos presídios para aproveitar a energia do movimento incessante de bandidos entrando e saindo. Polícia prende, juiz solta.
Basta pôr turbinas nas portas dos presídios para aproveitar a energia do movimento incessante de bandidos entrando e saindo. Polícia prende, juiz solta.| Foto: Pixabay

Como vimos, policiamento ostensivo é coisa moderna e urbana. O Brasil só ganhou metrópoles em meados do século passado. Assim, faz sentido que tenha uma justiça formal tão leniente: o pano de fundo deve ser o da justiça privada, com os senhores influentes dos interiores resolvendo as questões de maneira local, sem ceder poder punitivo ao judiciário, nem a ele se submeter.

Para piorar, a Constituição de 88 instaurou no Brasil um humanismo piegas, muito voltado à visão romântica da humanidade segundo a qual a maldade decorre de falta de dinheiro ou de amor no coração. Um homem cometeu uma série de latrocínios e foi preso? Tadinho do bichinho. É uma vítima da sociedade. Se ele ficar preso muito tempo, vai se tornar uma pessoa pior. Como sabe qualquer um que leia frases de agenda (antes da internet), livros são coisas mágicas que tornam boazinhas quem os lê. Então a vítima da sociedade pode conseguir reduzir seu tempo em cana lendo livros.

E os psicopatas incorrigíveis? Não existe tal coisa: se Chico Picadinho já saiu da cadeia por bom comportamento, fez picadinho de mais mulheres e voltou para a cadeia com um diagnóstico de psicopata, ele tem que ser solto após trinta anos de prisão, porque a Constituição manda. Ela decidiu que psicopatas são inconstitucionais e portanto não existem. Quanto a um “menor infrator” como Champinha, das duas, uma: ou se faz uma gambiarra jurídica arbitrária para mantê-lo na cadeia impedido de matar de novo, ou se joga pro alto e espera um agente privado matar e sumir com o corpo.

Se pensarmos o Estado como mera fonte de renda para quem não gosta de trabalhar, dá para explicar a coisa. Os governantes não precisam se preocupar com coisas tão trabalhosas como construir presídios e mantê-los em ordem. Os juízes podem receber seus gordos salários sem se dar ao trabalho de mandar ninguém pra cadeia.

Compassivos, empáticos e bem remunerados, deixam de construir coisas tão feias quanto presídios, soltam condenados por superlotação de presídios, soltam vítimas da sociedade que só estavam lá por falta de oportunidades (no século XX) ou do racismo estrutural (no século XXI). Os concursados das universidades federais acham tudo muito bonito. O policial e a população que vistam sua roupa de sapo e deem seus pulos.

Os pulos

O rico anda com seguranças armados. A classe média cria comunidades e socializa os custos da segurança com a taxa de condomínio: mora em prédios salvaguardados por uma portaria, ou em condomínios murados e cheios de câmeras, que parecem verdadeiras casas de detenção.

Assim, não é de admirar que os pobres se organizassem para pagar polícia privada quando Brizola os retirou formalmente da proteção do Estado, alegando que a “polícia da ditadura” era perigosa. (A ditadura terminou, mas hoje ninguém diz que temos a “polícia da democracia”.) Aí está a origem da antiga “polícia mineira”, ou, como é chamada hoje, milícia. E aí está a origem da simpatia a traficantes que implementaram a ordem nas áreas que dominam e, por assim dizer, privatizam informalmente.

Nos espaços sem dono fica o policial militar. Em sua existência contraditória, está incumbido de conter meliantes que são vítimas da sociedade. O espaço público, na prática, é terra sem lei. E o policial, se for certinho, integrará uma grande fonte de energia renovável para o país: basta pôr turbinas nas portas dos presídios para aproveitar a energia do movimento incessante de bandidos entrando e saindo. Polícia prende, juiz solta.

Um governador amado e sua substituição

No entanto, na Bahia tivemos o exemplo de um governador amado pelo povo por uma série de motivos que incluía a Segurança Pública. Carismático e astuto, ACM fez grandes obras (lembrem que são baianas a Odebrecht e a OAS), tinha o legislativo na palma da mão, gozava da simpatia de grandes artistas (comunistas ou não) e fazia campanhas de marketing ao mesmo tempo refinadas e populares. Misturou em vídeos de campanha Irmã Dulce, orixás, Jorge Amado e Vinícius de Moraes. E uma das expressões constantes na boca dos intelectuais detratores era a “polícia de ACM”.

O nome de ACM não sai da boca dos velhos quando se fala em violência: “Bom era no tempo de ACM, quando bandido não se criava.” A imagem que os baianos têm (ou tinham) da polícia é bem diferente da que os cariocas tinham. Qualquer guarda no Rio remete à propina. Na Bahia, polícia remete a matar bandido e sumir com o corpo. Há quem jure de pé junto que aquele monstrengo de concreto, o CAB (Centro Administrativo da Bahia) foi construído por ACM sobre o local de desova de corpos de bandidos. A construção se deu na década de 70, que coincidiu com a explosão demográfica de Salvador.

Desde a pandemia, a situação em Salvador está um descalabro, com bandido trocando tiro em área nobre. Por isso voltei a ouvir loas a ACM.

Em meio à onda de violência, não dei bola quando apareceu no noticiário a morte de seis pessoas, inclusive um menor, numa festa de paredão. Em vez de baile funk, no Norte e Nordeste tem “paredão”. Tal como os funkeiros do Sudeste, os organizadores do paredão botam caixas de som potentíssimas na porta de casa das pessoas e varam a madrugada sem deixá-las dormir. Quem faz isso normalmente está armado e tem relações com o tráfico.

Na imprensa foi aquela coisa de sempre: mostram uma foto do pobrezinho do menor de idade, que usava o cabelo e os adereços da moda entre traficantes, e entrevistam a mãe, que jura que o menino era bom, que sonhava em ser astronauta ou coisa do gênero. Com isso, a imprensa irrita o telespectador e o leitor. Dá pra denunciar a escalada da violência sem dar uma de Rolando Lero contrito toda vez que morre uma “vítima da sociedade”. Pois bem: desta vez os jornalistas não apontavam sua vilã habitual – a polícia – e se limitavam à empatia canastrona com as vítimas do massacre.

Indo à rua, pude ver que a notícia estava na boca do povo. Saudava-se a boa nova de que “estão matando” quem faz paredão e não foi só em Salvador, não, também “mataram” um que organizava paredão num município próximo.

Não sei se é justiça do tráfico, não sei se é grupo de extermínio autônomo. Sei é que a terceira pessoa do plural está tapando o buraco deixado pela “polícia de ACM”. E sei que há uma desconexão abissal entre a mídia e o cidadão comum.

Quem faz paredão ou baile funk conhece a vizinhança

No último texto concluímos que, em locais onde não há anonimato, é normal haver pouca violência, já que poucos homens são psicopatas e todos têm interesse em zelar pela própria reputação. Onde todo mundo se conhece, devemos esperar paz: isto vale para cidades pequenas e para favelinhas que não são ponto de passagem.

Assim, se há violência em tais lugares, há de haver uma explicação cultural para isso. O que leva um pirralho de 16 anos a empunhar armas contra quem o viu crescer? O que leva qualquer jovem a pôr uma parede de caixas de som na porta do vizinho que ele conhece muito bem e sabe que precisa acordar cedo para trabalhar?

Existe um comportamento antissocial novo que cresce à sombra do tráfico, mas não necessariamente por causa dele. Eu penso que há uma crise na educação doméstica, e que há muitas mulheres sendo mães por motivos mesquinhos. Umas podem querer um boneco para expor no Instagram e, eventualmente, deixar o namorado sádico torturar até a morte (tenho em mente o Dr. Jairinho). Com uma legislação toda misândrica, as mulheres podem manter os filhos consigo em função da pensão que arranjam com os pais, sejam eles pedreiros que não têm onde cair mortos ou profissionais liberais bem sucedidos.

Antes mesmo do narcotráfico (que no Nordeste é antiquíssimo, porque nasce maconha), creio que há um problema cultural que é o da maternidade pecuniária. Se for adiante o projeto – já aprovado na Comissão dos Direitos da Mulher – segundo o qual mães solteiras receberão um auxílio permanente de R$1.200,00, que espécie de mães aparecerão? Se o projeto não for adiante, ninguém há de negar que ele representa um certo espírito do tempo: as mulheres fazem parte do grupo das vítimas eternas e incondicionais, e vítimas merecem reparação material.

Antigamente, mulher que não queria ter trabalho não engravidava. Hoje pega auxílio ou pensão, larga a criança com avós nos primeiros anos, os avós morrem e as crianças ficam largadas, com uma mãe que não está nem aí pra elas. São aliciadas pelo tráfico e conhecem pouco calor humano.

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