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Colonos, gaúchos e etnias
| Foto: Pixabay

O voo aludido no último texto era para Porto Alegre. Por razões que não sei especificar, conheço um monte de sulista, tanto lá em Salvador, como na internet. Por isso, ainda que nunca tivesse posto os pés no Rio Grande do Sul, já tinha ouvido e cotejado uma porção de explicações de pessoas que não se conheciam sobre como funciona esse negócio de ser ou não ser colono, de ser gaúcho ou rio-grandense. As explicações são todas coesas, mesmo que venham de estados diferentes.

E uma coisa bem interessante que passa despercebida aos próprios sulistas é que eles estão mais perto dos índios do que dos brasileiros comuns no seguinte aspecto: têm etnias. Índio tem etnia, sulista tem etnia. Baiano, paulista, carioca, mineiro, paraibano, não têm etnia.

O que é etnia

Graças às leis racistas promovidas pela agenda progressista, o brasileiro, com sua formação arracial, vem se deparando com os termos raça, etnia e cor, misturados e usados como sinônimo.

Raça é um conceito biológico muito usado nos séculos XIX e XX. Tinha-se a intenção de criar uma classificação à maneira de Lineu, capaz de dar conta dos diversos tipos humanos encontrados pelo globo. Vem dessa empreitada o tradicional leque de raças branca, negra, amarela e vermelha. Por acaso, as raças têm nomes de cores. No histórico do Brasil, trabalhamos com a noção de cores, sem aspirações classificatórias de natureza científica. Quando dizemos “João é negro”, estamos somente nos referindo à cor de sua pele. Se quisermos refinar mais as classificações sobre João, poderemos dizer que é puxado para o cafuzo, pois tem cabelos lisos. Ou podemos destacar que tem os olhos verdes. Outra classificação comum (que o Movimento Negro detesta) é a “de traços finos”. Mas mesmo que João seja um negro de traços finos, mesmo que seja cobiçado por sua combinação rara de fenótipos, João não deixa de ser negro. Se sua ancestralidade for questionada, é apenas para explicar que tipo de miscigenação o produziu. E, coisa bem importante, João não é visto como membro de uma coletividade biológica definida pela ciência.

Cor e raça são coisas diferentes. Cor é coisa do Brasil, raça é coisa de país branco rico metido a científico. (Nos séculos importantes para este assunto, XIX e XX, isto incluía a Argentina.) Quando ficou feio falar de raça, os antropólogos culturais inventaram o conceito de etnia: um grupamento humano unido em primeiro lugar pela língua, pela cultura e, no meio de tudo isso, laços sanguíneos. Ora, dizer “raça vermelha” não ajuda ninguém que queira estudar tupinambás e nambiquaras. Para isso, em primeiro lugar há que aprender a língua, depois seguir os costumes.

Assim como no Brasil há uma confusão entre a noção de cor (que a gente entende) e a noção de raça (que a gente não entende), na Europa o advento dos estados nacionais dá azo a uma dificuldade para entender o que é etnia e o que é pertencimento a um Estado nacional. Se porventura um filho de imigrantes não-integrados ganhar nacionalidade francesa, isso faz dele um igual aos demais franceses perante o Estado, mas não quanto ao resto. É possível, portanto, ser francês num sentido burocrático e francês num sentido étnico ou cultural. Tanto é, que a Europa está nesse bafafá todo.

Tupis e charruas

É uma imprecisão dizer que o Brasil é formado por índios, brancos e negros. Não é importante especificar que os brancos em questão eram católicos, latinos e portugueses? Se em vez de portugueses fossem alemães protestantes os principais europeus por aqui, na certa este território seria uma coisa diferente do Brasil.

E quanto aos índios? A base do Brasil é português casando com filha de cacique tupi. Os tupis estavam por toda a costa brasileira e eram aparentados dos guaranis (em tupi, “carijós”), que ficavam pelo atual Paraguai e tinham muito intercâmbio com São Paulo por causa dos bandeirantes. Do Semiárido até o Sul havia os jês, aos quais os jesuítas se empenharam em evangelizar ensinando tupi em vez de português – para a fúria do Marquês de Pombal.

(Saiu uma pesquisa muito badalada da FAPESP dizendo que o erre caipira é de escravos jês. A mim não convence, porque não tem erre caipira no Nordeste, mas tem no Paraguai. Deve ser guarani.)

Enquanto isso, lá bem ao Sul, zanzando entre o Rio Grande, o Uruguai, a Argentina e um tiquinho do Paraguai, estavam os charruas, índios brabos que escaparam ao domínio jesuítico e cujas relações de integração com a Coroa desconheço. O que sei deles é que terminaram por se miscigenar com espanhóis e portugueses.

Toda essa área que consome erva mate e muita carne bovina é a área dos charruas, e essa cultura se manteve através de Estados nacionais e línguas diferentes. As palavras tchê e gaúcho existem nessa região. Como o argentino Ernesto Guevara chamava todo mundo de “tchê”, Tchê passou a ser seu apelido, grafado em espanhol como Che.

Gaúchos e gauchos

Que eu saiba, há um monte de explicações etimológicas da palavra gaúcho (ou gaucho, com “a” tônico, em espanhol), nenhuma das quais muito confiável. O interessante é notar que as acepções e conotações variam conforme as línguas.

Em português, há uma ambiguidade do termo. Existe o gaúcho com o significado étnico e o gaúcho com significado burocrático. No burocrático, é gaúcho quem nasce no estado do Rio Grande do Sul, ainda que fale italiano dentro de casa e viva à base de galinha com polenta. No significado étnico, serve para marcar uma cultura específica (como em “churrascaria gaúcha”, ou ao se apontar o gaudério), seja celebrando-a ou diferenciando-a dos riograndenses não-gaúchos.

No mais, registremos que “gaúcho” não é termo pejorativo nem elogioso. É, hoje, meramente descritivo.

Em língua espanhola, porém, gaucho não tem nenhum significado burocrático, tem conotação pejorativa e serve para marcar uma cultura.

Colonos e “brasileiros”

Assim, podemos supor que o Brasil e a Argentina lidaram com a imigração de maneiras opostas. No Brasil, o gaúcho foi alçado a símbolo oficial, enquanto colono é termo com conotação pejorativa que designa os membros das comunidades de imigrantes que se estabeleceram no Sul.

Essa é uma diferenciação étnica. Quando um paraibano vai para o Rio de Janeiro e constitui família lá, seus filhos são cariocas, mesmo que morem numa favela cheia de paraibanos. Eles se destacam dos outros cariocas apenas por terem um conhecimento melhor da cultura nordestina. Os cariocas têm um termo para designar o migrante nordestino do Semiárido: é “paraíba” e tem conotação pejorativa. Mas filho de paraíba não é considerado paraíba. E o que não falta na Zona Sul do Rio de Janeiro é carioca com antepassados nordestinos – sinal de que os cariocas aceitam os filhos dos paraíbas para casamento. O mesmo vale para baianos em São Paulo.

Com os colonos no Sul, a coisa é bem diferente. Há vários tipos de colonos, porque há imigrantes de origens nacionais diferentes. Um colono “alemão” é “alemão” não porque nasceu na Alemanha ou tem cidadania – ele não nasceu e provavelmente não tem. Ele é alemão no significado étnico do termo. Tenho diante de mim um pacote de wafel fabricado em Ivoti com o seguinte slogan rótulo: “O verdadeiro wafel holandês.” Entende-se que “holandês” aí também tem um significado étnico. Não significa que foi feito na Holanda, mas sim que não foi feito por imitadores dos colonos holandeses.

Se eles mesmos são alemães, italianos, holandeses etc., quem serão os habitantes com raízes antigas no Brasil? Ora, brasileiros. Então um colono é, do ponto de vista burocrático, um brasileiro; mas, do ponto de vista cultural, um não-brasileiro. Receita para confusão.

A questão do casamento é importante. Em princípio, só se casavam dentro das próprias comunidades, depois foram abrindo para comunidades diferentes (por exemplo: casar “alemão” com “italiano”) e hoje já há colonos descendentes de “brasileiros”. Dizem coisas como “Meu pai é brasileiro”, estando implícito que eles próprios são não-brasileiros. Mas, se você perguntar “Então você é colono?”, não vão gostar, porque o termo é meio pejorativo e a reputação dos colonos não é das melhores nas capitais.

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