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o terror da existência
| Foto: Bigstock

Saiu há pouco pela É Realizações O Terror da Existência: Do Eclesiastes ao Teatro do Absurdo, de Theodore Dalrymple e Kenneth Francis, tradução de Pedro Sette-Câmara. O leitor deste jornal já está familiarizado com um dos autores: Dalrymple é o pseudônimo de Anthony Daniels, um psiquiatra inglês aposentado que trabalhava em presídio e no SUS de lá (o NHS). É um ateu caro aos conservadores, goza de uma notoriedade peculiar no Brasil, tem o hábito de refletir sobre o mundo cão que via em sua prática profissional e mostra erudição ao tratar de literatura, história e outras culturas. Kenneth Francis é teólogo e editor.

Cada qual tem uma cosmovisão – uma ateia, outra teísta –, ambos constatam o fato de que o homem ocidental perdeu o senso de transcendência e ambos concordam que isso é uma coisa ruim. O mundo seria um grande teatro do absurdo, onde todos esperam Godot por mera falta de sentido nas próprias vidas.

A obra tem uma forma bastante peculiar. É composta por 23 textos, dos quais 22 são ensaios escritos ora por Dalrymple, ora por Francis, com uma forma velada de réplica e tréplica. Primeiro Dalrymple escreve, depois Francis responde, depois Dalrymple treplica e assim sucessivamente. Cada ensaio é sobre um texto dotado de valor literário, a começar por Eclesiastes. Mutatis mutandis, é como se fosse desafio de repentistas: um retoma o fio da meada deixado por outro e ambos se desafiam se sujeitando a uma regra de ordem literária; no caso, fazer um curto ensaio que use uma obra de valor literário como gancho. A regra só é quebrada uma vez, por iniciativa de Francis, quando ele faz objetivamente uma pergunta a Dalrymple, que a responde também objetivamente.

Segundo a apresentação, esse duelo parece ter acontecido por e-mails, já que ambos agradecem um ao outro e informam que se viram somente uma vez, num pub irlandês, mas esperam se encontrar mais vezes.

A teoria de Dalrymple

A teoria de Dalrymple é que à medida em que o homem foi se escolarizando mais e mais, foi se sentindo obrigado a dar justificativas para juízos morais e estéticos que o homem das antigas fazia irrefletidamente. No entanto, nossa capacidade de embasar nossos juízos é muito inferior a essa demanda. “Se não há essas justificativas”, diz ele, “se na verdade não há um ponto cartesiano com base no qual se possa alavancar os juízos, inevitavelmente segue-se a cacofonia moral e estética”. Afinal, fazer juízos morais e estéticos é essencial à vida. Em outros livros, Dalrymple volta e meia fica intrigado com uma frase muito comum na boca dos ingleses: “eu não julgo”. É impossível não julgar, já que a todo momento, conscientemente ou não, julgamos bom ou mau, belo ou feio, e o próprio sujeito que se gaba de não julgar julga que não ter um juízo é uma coisa boa.

Antes de vingar essa obrigação cartesiana de fundar todo juízo, quando o homem era bem menos letrado, a religião e os costumes davam às pessoas um senso de transcendência que não era questionado, nem muito meditado. A vida era ordenada justo por ser pouco pensada. As pessoas faziam seus juízos morais e estéticos em paz, sem se sentirem obrigadas a fundamentar tudo, ou – pior ainda – a não fazer juízo nenhum, como se a ausência de preconceitos (isto é, de juízos prévios, prejudice) fosse uma obrigação moral.

O próprio Dalrymple é ateu, mas não é um niilista. Tal como muitas pessoas dotada de vida intelectual, vê um sentido no seu trabalho, formula juízos e enxerga um sentido para a própria vida. Do fato de ele próprio ser um ateu de bem com a vida não se segue que todo mundo possa ser um ateu de bem com a vida. Assim, ele enxerga o atual estado de coisas como um drama: o homem foi deixado com a responsabilidade individual de dar um sentido à própria vida, e a maioria não é capaz disso.

A teoria de Kenneth Francis

Com Francis, ao meu ver, há uma confusão entre teologia pobre e uma despercebida teoria social. Tout court, o homem tem necessidade de Jesus para ter um senso de transcendência, e, se a sociedade como um todo deixa de crer em Jesus, o senso de transcendência vai pro saco e vira todo mundo niilista depravado. O mundo está de cabeça para baixo porque as pessoas deixaram Jesus.

No momento da infração da regra, Francis deixa claro que repeita a autoridade do filósofo analítico Alvin Plantinga, que é de chorar de tão pobre. Depois de mais de um milênio de debates teológicos sobre as variadas formas de provar a existência de Deus, Plantinga deu a questão por resolvida alegando que é tão certo quanto a nossa percepção de um membro do corpo. Dizer “Deus existe” é tão evidente e precisa de tantas provas quanto dizer “eu tenho uma mão”. Ora bolas, todas as línguas do mundo devem ser capazes de expressar “eu tenho uma mão”; ateus também dizem que têm mãos. Mas ateus negam a existência de Deus, e, caso se considere todas as línguas do mundo têm uma palavra para “Deus”, certamente o seu entendimento vai variar de credo para credo. Se um canibal tupi acreditar em Deus no ano de 1400, certamente é um Deus muito diferente do de Plantinga. E se acreditarmos em Plantinga, nem entendemos por que Deus se daria ao trabalho de fazer uma Revelação, já que sua existência é tão óbvia.

“Ao rejeitar Cristo, rejeitamos o lógos: a Lógica, a Razão e a Verdade”, diz Kenneth Francis. “Toda a ordem moral objetiva se baseia nisso. Porém, no ensino superior do século XXI, o pós-modernismo é evidente”. Assim, a crença dele é que todos, como bons protestantes, interpretavam a Bíblia correta e objetivamente, e daí tiravam a ordem moral bíblica. Veio o pós-modernismo, então a ordem ruiu. Um defeito grave do racionalismo moderno é ignorar a experiência humana acumulada e considerar tudo a uma luz abstrata. É evidente que Cristo não é idêntico à lógica; se fosse assim, todos os nascidos antes de Cristo e todos os povos que não receberam a Boa Nova seriam irracionais. Contam-se entre os nascidos antes de Cristo Sócrates, Platão e Aristóteles. Este último foi de suma importância para o catolicismo; seu professor, porém, é o mestre de todo racionalista – sobretudo ao considerar a divindade essencial à percepção do belo e do bom. No mais, judeus rejeitaram Cristo. São seres irracionais? Essa é uma leitura da Bíblia que não cheira muito bem.

A teoria social é muito ruim. Se a negação de Cristo implicasse niilismo e anomia, todos os povos não-cristãos do mundo seriam niilistas e caóticos; em todos os períodos históricos, a maioria dos indianos e dos japoneses seria incapaz de ter um sentindo em suas vidas e encontrar uma transcendência.

Ponto para Dalrymple

Pouco depois de dar essa concepção exclusivista da racionalidade, critica os professores pós-modernos que chamam a lógica e a matemática de brancas, cristãs e europeias – por aí vemos que pós-moderno não deixa de ser a outra face desse mesmo exclusivismo protestante. Vejam que construção confusa: “Soljenítsin estava familiarizado até demais com o mal que as pessoas praticam ao rejeitar Cristo. Isso não equivale a dizer que todos os ateus são maus. Muitos ateus são pessoas moralmente boas, mas é difícil para elas justificar de forma objetiva sua moralidade”. Ora, todo o argumento dele é que a sociedade precisa de justificação moral para ser boa. Resta saber se ele próprio tem uma justificativa moral objetiva para raciocinar com um ateu.

A despeito de sua filosofia moralmente perigosa (vide a questão judaica) e factualmente errada (vide a longa história da Lógica e da Razão anterior a Cristo), Francis se mostra um pensador tolerante, culto e perspicaz. Isso mostra que Dalrymple tem razão ao considerar que nossas fundamentações objetivas não são importantes para a nossa conduta. Francis é um bom escritor, se deixarmos de lado suas “fundamentações objetivas”.

Como os críticos pós-modernos, podemos dizer que Francis é um observador que comete o erro de se pretender universal, mas sua percepção é aguda caso nos restrinjamos à Europa ocidental, cuja elite é hoje indistinta das elites das Américas. E até raciocinando sobre o escopo de até onde vale o raciocínio de Francis mais dúvidas se levantam na minha cabeça. Por exemplo: na Europa há muito ateísmo, mas não nas Américas. Assim, é provável que a mãe inglesa que vive de seguro social e expõe os filhos a padrastos rotativos violentos abra a boca e diga que Deus não existe. Mas o mesmíssimo tipo de mulher existe no Brasil e nos Estados Unidos, e é muito improvável que elas neguem Jesus. Ao contrário, devem atribuir o seguro social a ele. Daí penso que é possível perder o senso de transcendência de tal maneira, que até Deus conseguiram achatar. Talvez seja um gerenciador imaterial de benefícios materiais, como sugerem aqueles adesivos de carro onde se lê “Foi Deus que me deu”.

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