O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.| Foto: EFE/Joédson Alves
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Este fim de semana, a internet não-progressista ficou falando mal de Alexandre de Moraes por ele ter dito que a internet deu voz aos imbecis, mas o Judiciário não vai se omitir e está aí para nos salvar. Descontada a segunda parte, isto é, a da solução a nós oferecida queiramos ou não, a mesma frase circulou anos atrás mui elogiosamente na internet. É que quem a proferia era Umberto Eco (1932 – 2016). Se uma autoridade política que sai prendendo os outros nos diz que estamos usando uma ferramenta que dá voz a idiotas, a indireta-direta é bem entendida, e lá vai o povo usar a internet para lançar-lhe tomates virtuais. Mas se um escritor europeu laureado cheio de prestígio disser a mesma coisa, logo despontam, internet afora, pessoas dizendo que é isso mesmo.

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Funciona assim a cabeça do letrado blasé: “Um escritor muito inteligente disse que a internet deu voz a uma legião de imbecis, então deve ser verdade. Como eu uso internet para ficar palpitando, preciso me certificar de que eu mesmo não sou um imbecil. Ora, vou me colocar debaixo do guarda-chuva desse homem tão inteligente, porque assim tenho certeza de que eu não sou um imbecil, já que concordo com ele. Imbecis são os outros, que não têm um livro de Eco para enfeitar a estante. Pensando bem, eu mesmo não tenho. Preciso comprar urgentemente um exemplar de O Nome da Rosa. Vou colocá-lo em cima da mesa ao lado de uma xícara de café e postar no Instagram em preto e branco, com a legenda: ‘A internet deu voz aos imbecis’”. E por aí se vê que o finado Eco tinha razão, a internet deu mesmo voz a legiões de imbecis.

Mas também, que meio de comunicação não dá voz a uma legião de imbecis? Amaldiçoemos de uma vez o sumério que inventou a escrita cuneiforme, a qual precedeu os papiros, os pergaminhos, a imprensa e a publicação instantânea da internet.

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Fetichismo com livro ou controle?

Intuitivamente, o imbecil que ecoa Eco sabe que não é por aí, já que gosta de fetichizar o objeto livro. Livros escritos por imbecis não faltam neste mundo. E, como tudo o que aumenta a quantidade de ideias em geral, aumenta por tabela a quantidade de ideias imbecis, podemos dizer que o primeiro personagem a aumentar sozinho a quantidade de imbecis com voz foi Gutenberg. Antes dele, para fazer um único livro, era preciso copiar letrinha por letrinha.

Com a máquina de tipos móveis, a produção de livros em série ficou muito mais facilitada, abrindo-se o caminho para que fosse viável os indivíduos avulsos, sem filiação institucional nenhuma, escreverem seus próprios livros com ideias inovadoras, sejam elas boas ou ruins. Não à toa, Gutenberg é visto com bons olhos na História Ocidental. Por outro lado, as redes sociais são vistas como um mal pelas mesmas pessoas que veem o invento de Gutenberg como um bem.

Vamos à frase original de Eco e ao contexto. O ano era 2015; o evento, uma aula magna dada a jornalistas em Turim após receber o título de doutor honoris causa em comunicação. A fala estampada pelo jornal La Stampa em 11 de junho de 2015 era: “I social media danno diritto di parola a legioni di imbecilli che prima parlavano solo al bar dopo un bicchiere di vino, senza danneggiare la collettività. Venivano subito messi a tacere, mentre ora hanno lo stesso diritto di parola di un Premio Nobel. È l’invasione degli imbecilli”. Traduzo assim: “As redes sociais dão o direito à livre expressão a legiões de imbecis que antes só falavam no bar depois de uma taça de vinho, sem causar danos à coletividade. Num instante eram levados a se calar, enquanto que agora têm o mesmo direito à livre expressão que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”. Não é de um autoritarismo palpável? Devo lembrar que Egas Moniz ganhou um Nobel, e é uma pena que não tivesse ficado calado.

Essa fala de Eco foi considerada importante o suficiente para aparecer no verbete anglófono sobre o octogenário na Wikipedia (traduzindo “diritto di parola” como “right to speak”), bem como para aparecer na revista Época, após a sua morte, como uma de suas ideias memoráveis. Eis a tradução da Época: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Mídia social é sinônimo de rede social; direito à fala traduz literalmente “right to speak”. Como “diritto di parola”, literalmente “direito de palavra”, é sinônimo de “libertà di parola”, que é o termo italiano usual para “liberdade de expressão”, optei por “direito à livre expressão”. Fica bem claro no italiano que é o exercício um direito fundamental das democracias liberais o que causa o incômodo de Eco.

Uma tradução que obnubila isso é “dar voz”. Ela apareceu primeiro já em 2015, no Terra, com a chamada “Redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Já a frase de Alexandre de Moraes é ligeiramente diferente: “As plataformas e a internet deram voz aos imbecis”.

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Mas devo dizer que o primeiro resultado que encontrei ao pesquisar no Google “umberto eco internet” foi uma tradução quase igual à frase de Alexandre de Moraes: “A internet deu voz a uma legião de imbecis”. Para minha surpresa, está no portal Fronteiras do Pensamento. O autor do artigo, um erudito liberal conservador bastante conhecido no meio literário chamado Eduardo Wolf, apoia Eco.

Como o resultado é o primeiro que aparece, é natural supormos que o ministro censor tenha pensado: “Qual é mesmo aquela frase de Eco sobre os imbecis na internet?” e reproduzido a tradução em conformidade com o artigo de Wolf.

Na prática, a teoria liberal é outra

Umberto Eco foi mesmo um pioneiro. Em 2015, ele expôs o sentimento comum dos jornalistas que viria a predominar anos depois: as redes sociais estão descontroladas, a liberdade de expressão é um problema e, pelo seu próprio bem, a coletividade deve abrir mão dessa liberdade para voltar a confiar nos jornalistas. O que eles querem é retornar ao status quo ante, no qual Gutenberg permitira fartura de meios o bastante para haver jornalistas, escritores e acadêmicos se expressando, mas não tias do zape. É um clamor pela restauração da credibilidade do jornalismo tradicional por meios externos ao jornalismo. Não há espaço para a autocrítica, já que quem prefere a internet ao jornal é imbecil.

Pois bem. Como é coisa ao gosto de jornalista, apenas uma meia dúzia de frases sem grande fundamentação se tornou uma sensação, uma verdade do universo capaz de dar um jeito na prestação que vai vencer por falta de assinaturas. Alexandre de Moraes apresentou a solução para os jornalistas e acadêmicos de plantão: sair prendendo ou censurando.

Mas como essa é uma solução radical demais, há que colocar intermediários e justificativas. Nunca se trata de mera perda de direitos, senão de questão de vida ou morte que requer intervenção enérgica. Cito Wolf: “Das loucuras trompistas sobre 'fraude' nas eleições americanas às campanhas antivacina (mesmo em meio à pandemia), parece que a principal forma de imbecilidade praticada e disseminada pela internet é justamente essa pletora de teorias conspiratórias, muitas das quais acabam por ter resultados fatais (vide mortes no Capitólio, ou disseminação de um vírus letal)”. Para ele “agora […] estamos todos acompanhando vivamente a expansão de tantas e tão novas formas de teorias conspiratórias afetando nossas vidas (fraude de urnas, vacinas que transformam as pessoas em jacarés, etc.)”. Quem conhece alguém que acredite em vacina que transforma em jacaré? Bolsonaro fez uma evidente hipérbole para explicar o problema sério da responsabilização jurídica por efeitos colaterais.

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Como resolver esse problema urgente, que vai matar as pessoas e acabar com a democracia? Eco ofereceu duas soluções que Wolf considera otimistas: agência de checagem de fatos e media literacy (esta última, ainda não muito em voga no Brasil, é a doutrinação escolar para fazer as crianças acreditarem em agências de checagem de fatos). Eco não deu nome aos bois, mas descreveu-os: “Seria preciso exercer essa crítica – filtrar, distinguir – sobre a própria internet. Eu sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar e filtrar informações. O problema é que nem mesmo os professores estão preparados para isso. Foi nesse sentido que eu defendi recentemente que os jornais, em vez de se tornarem vítimas da internet, repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espaço para a análise das informações que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que é sério, o que é um hoax [boato, fake news], por exemplo. Será que os jornais estão prontos pra isso? Seria preciso ter gente especializada em diversas áreas”.

É verdade que precisamos de senso crítico ao lidar com a internet. Mas a experiência ensina quais são os resultados de instituir um senso crítico oficial ou de dar aulas de senso crítico: censura e doutrinação. Porque liberalismo, em teoria, implica desconfiar da centralização do poder. E o mero bom senso, mais velho que o liberalismo, manda perguntar desde a época em que se falava latim: Quis custodiet ipsos custodes? Quem vai vigiar os vigilantes? Agora mesmo vimos uma agência de checagem de fatos ter que pagar indenização por chamar os outros de conspiradores. Vamos propor que Alexandre de Moraes cheque as agências de checagem?

Falta de bom-senso

A moral da história é que não adianta estudo, não adianta conhecimento teórico, nem erudição, se o bom-senso for dar uma voltinha e a frivolidade conformista tomar conta. Com esta, podem ser inventadas todas as justificativas para explicar por que urubu deve ser chamado de meu louro, ou por que criar um Ministério da Verdade e uma Bramatti Jugend é coisa de liberal, sim.

Na verdade, dá para localizar um setor importante da civilização ocidental que tem razões para lastimar o invento de Gutenberg: a Contrarreforma, já que a multiplicação de cópias da Bíblia tornou viável a ideia herética de que cada homem poderia ler a Bíblia sozinho e interpretá-la segundo o seu próprio juízo. Uma consequência pouco enfatizada do cisma da cristandade ocidental, ao meu ver, é o fim do tabu da origem comum da humanidade. O pré-adamitismo, heresia para o Vaticano, ganhou versão laica e científica na poligenia humana, que embasou o racismo científico. Este vingou com mais força em países protestantes, sinal de que a censura inquisitorial deve ter tido eficácia em combater essa ideia que corria por livros e mais livros. E por mais que gostemos da liberdade de expressão e não queiramos nos mudar para a Idade Média, é preciso reconhecer que nem tudo é apenas bom ou apenas ruim. A censura não é apenas ruim; a liberdade não é apenas boa. Uma vez que escolhemos a liberdade, toda censura tem que ser rara e muito bem fundamentada. Entre nós, há décadas racismo é crime; logo, é uma ideia sob censura há décadas na nossa democracia. Não por uma razão científica, mas por um motivo moral.

Eu entendo que a Igreja promovesse censura pensando numa sociedade harmônica e estática, já que se reconhecia um motivo divino para isso. Mas e esses pseudoliberais aí, querem o quê? Não dizem “você é um herege”; dizem “você é um imbecil”. Muito bem, eu sou uma imbecil, pois eu corro das vacinas de Covid feito o diabo da cruz e nego a infalibilidade do TSE. E você, pseudoliberal, é o quê? Quem o investiu de autoridade? O inquisidor ao menos tinha um vasto corpo teológico e jurídico embasando as reprimendas, e dava para entender por que um herege era um herege. Os pseudoliberais, não. Embasam tudo em slogans do momento. Sequer têm coragem de admitir que fazem escolhas morais; passam por científicos e técnicos. São uns covardes que precisam mesmo de censura, porque não têm como se defender.

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]