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Estátua de Oxum, em Porto Alegre.
Estátua de Oxum, em Porto Alegre.| Foto: Wikimedia Commons

Se o leitor tiver levado a sério a minha exótica sugestão de fazer turismo em Porto Alegre, recomendo também Ipanema, na orla do Guaíba. Este é um rio bem largo; não dá para enxergar com clareza o outro lado da margem. Esse pedaço da orla é uma área bonita, bem arborizada, com bancos de concreto, mesinhas com tabuleiros pintados, churrasqueiras públicas (o cidadão leva os espetos, carvão e carne) e uma cancha para os velhos jogarem bocha. Se bem apreendi, a finalidade do jogo é atirar as bolas o mais perto possível de uma bolinha atirada previamente – coisa que parece uma mistura de boliche com sinuca. Reproduzo as explicações do meu amigo descendente de italianos, que diz ser um jogo trazido pelos italianos. Pelas investigações dele, tem pelo Sudeste também, mas com outro nome. Pela partida que eu vi, daria para dizer que o hábito se tornou gaúcho, já que havia negro entre os participantes.

A alternativa a tornar-se gaúcho seria manter-se como coisa de “gringo”. Em Porto Alegre e no sul do Rio Grande do Sul, os descendentes branquelos dos imigrantes italianos e alemães rurais são chamados de gringos. Nesse esquema, em um casamento de gringo com gaúcho, se a criança sair branquela, nasceu gringa; se não, gaúcha. O status de gaúcho pode ser alcançado pelo gringo via costumes, mas ninguém vira gringo, que é tipo físico. Para descrever o tipo físico do gaúcho sem aspecto europeu, há o termo “pelo duro”. Essa explicação me foi dada por um gaúcho da fronteira como Uruguai, que não hesitou em categorizar meu anfitrião como gringo. Depois outros gaúchos de Porto Alegre confirmaram a classificação dele, que está conforme ao uso do sul do Rio Grande do Sul. Mas ainda assim o uso difere: os portalegrenses entendem que “colono” é o gringo do campo (ou, por outra, que o gringo é o colono urbano), enquanto que o gaúcho da fronteira com o Uruguai entende que “colono” designa o invasor do MST. Assim, ambos diriam que Stédile é colono, mas cada qual querendo dizer uma coisa com isso.

É curioso que os usos dessas palavras varie tanto num espaço tão pequeno e as pessoas nem se deem conta. E qual será a etimologia de “gringo”?

Presença negra

Gilberto Freyre não se interessava pelo Rio Grande do Sul, mas me lembrei dele ao ver na orla do Guaíba uma escultura de Oxum. O amigo gringo resolveu testar meus conhecimentos e perguntou como eu sabia que era Oxum. Simples: amarelo e rio. Não botou fé até andar à plaquinha e ver escrito “Oxum”. Expliquei que amarelo é a cor de Oxum, que a seu turno é a orixá da água doce, e nós estávamos à beira de um rio. Elementar, meu caro Watson. Iemanjá é da água salgada; Oxum, da doce.

Ficou intrigado. Então como Iemanjá, e não Oxum, era cultuada como padroeira de Porto Alegre, se o Guaíba é doce e Iemanjá é da água salgada? Pensou e concluiu que devia ser por causa do sincretismo: Nossa Senhora dos Navegantes é a padroeira católica, que é sincretizada com Iemanjá, que acaba sendo homenageada. Acrescentei que em Cachoeira, na Bahia, cultua-se Iemanjá à beira do rio Paraguaçu, cujas águas são salobras na cidade por causa da proximidade do mar. Como Porto Alegre está perto do mar…

O amigo gringo teve ocasião para tirar essa dúvida com o amigo gaúcho da fronteira. Nossas suspeitas foram confirmadas. No mais, confirmou-se ainda que a macumba é forte no estado, o que trouxe à tona a questão do porquê de o Rio Grande do Sul passar por estado branco europeu.

Ambos convergiram para a culpa de Gramado, uma cidade meio cenográfica montada para turista. O brasileiro iria para lá fingir que saiu do Brasil e viver suas fantasias românticas de Europa civilizada. O portalegrense, em particular, iria para Gramado dirigir muito bem, sem atropelar os pedestres, e elogiar a educação do povo de Gramado. Depois voltaria para Porto Alegre para atropelar pedestres.

Numa rápida pesquisada, deu para descobrir que volta e meia quebravam a estátua de Oxum no Guaíba. O barraco é a mesmíssima coisa que em Salvador: os crentes morrem de medo de macumba e destroem monumentos públicos. É claro que eles só têm esse medo porque acreditam nos poderes dos orixás. Eu não tenho medo de macumba porque sou ateia.

O gaúcho da fronteira é versado em assuntos de macumba e tem pai de santo. Já o amigo gringo descobriu que um antepassado “brasileiro” encarnava caboclo em umbanda. Posso então chutar que Freyre está certo quanto à importância do negro na unificação cultural do Brasil: onde português não ficava, ia o negro levando a língua portuguesa e a cultura brasileira – macumba inclusa.

Tríade um pouco diferente

Contei que os negões da Bahia se orgulham de sua cor e atribuem propriedades viris à sua “tinta”, daí existir uma ofensa dirigida por eles aos mulatos: tinta fraca ou tinta ruim. Segundo o amigo da fronteira o mesmo se dá com os negões de lá, que creem montar a cavalo melhor do que todo mundo por serem negões. Por lá, existe a conotação elogiosa da palavra “gaúcho”, de modo que os negões seriam mais gaúchos do que os pelo-duro. Por outro lado, em Florianópolis descobri que existe a expressão “coisa de gaúcho”, usada do mesmo jeito que outras regiões dizem “coisa de baiano” ou “coisa de preto”. Moral da história: o gaúcho é um tipo cultural bem definido, e a conotação pejorativa ou elogiosa vai variar conforme o juízo de valor que os habitantes de uma região façam dos gaúchos.

Então creio que podemos enxergar a coisa assim: existe no Rio Grande do Sul uma base cultural brasileira que é uma variação da tradicional tríade branco, negro e índio. O mais pertinente dessa variação é o fato de os gaúchos serem índios por meio dos charrua em vez dos tupis. Nesse cenário chegaram os colonos que estabeleceram comunidades rurais. Ao contrário do Nordeste e do Rio de Janeiro, lá chegaram muitas mulheres europeias, de modo que é mais difícil abrasileirar essa população. Afinal, se o homem vem sozinho e casa com a cabocla, seus filhos serão aculturados. Se os colonos vêm aos pares, um lar europeu é formado.

Mas ao longo dos séculos essa mistura vem sendo feita – tanto na cama quanto na cultura –, e os gaúchos serão diferentes do resto do Brasil também quanto aos brancos que os formaram. Só o negro permanece o mesmo.

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