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Patrulha
O acadêmico de classe média que está desesperado por emprego só tem uma coisa a fazer: ceder à patrulha e bajular orientador e figurões acadêmicos; mostrar-se bom menino e obediente| Foto: Pixabay

Ia eu contando ontem como era o ambiente intelectual baiano pré-PT, e nisso me referia a uma mudança promovida por Fernando Haddad em todo o território nacional, em vez das presepadas de Rui Costa ou Jaques Wagner. Foi o Reuni, do qual tantas vezes já falei neste espaço.

Com o Reuni, as federais multiplicaram as vagas, aumentaram o número de cursos, substituíram-se os vestibular locais pelo ENEM de Brasília e apareceram cotas pra burro. Paralelo a isso, houve a expansão da pós. Quanto mais pós-graduandos um programa tivesse, mais alta seria a sua nota e mais recursos ele receberia. As graduações se multiplicaram, os professores começaram a chamar os alunos para fazer mestrado prometendo-lhes uma bolsa de 1.200,00 reais.

No caso de cursos em que a carreira docente é quase compulsória – tenho em mente a filosofia por oposição ao direito, ou a física por oposição à engenharia, ou a biologia por oposição à enfermagem –, é frequente a evasão nos cursos de graduação. Então na prática isso significou pegar o alunado todo da graduação e tratar o mestrado, depois o doutorado, como o rumo natural de todo graduando bem sucedido.

As opções de trabalho para o licenciado

Houve uma completa descoordenação entre a Universidade e as escolas públicas. Nestas reina uma bagunça; raramente o professor de física é licenciado em física, ou o professor de filosofia é licenciado em filosofia.

Então o licenciado nessas disciplinas, que em geral fez o curso por gostar da matéria e topar levar uma vida modesta de professor, descobre que não tem emprego, mesmo que ele seja uma mão de obra qualificada num cenário de escassez. Os governos estaduais vão ficar com a mão de obra não-qualificada mesmo, que é concursada, e pronto. E, ao menos no caso da Bahia, não vão abrir concurso: vão fazer uma coisa provisória que aqui se chama REDA (mas em outros estados tem outro nome), que é um contrato provisório, sem possibilidade de renovação contínua e salário de fome. Daí resulta que na zona rural, no interior, não tem quem queira ir e o REDA contrate jovenzinhos egressos do ensino fundamental para dar aula ao ensino fundamental. Aliando os males tradicionais da escola pública à falta de concursos, o governo petista da Bahia conseguiu colocar o estado na rabeira do PISA, à frente apenas das Alagoas do herói da CPI.

Mas voltemos ao ensino superior. O jovem licenciado que nunca sonhou em ser rico e queria apenas ser um professor de filosofia ou biologia vê as portas das escolas fechadas e, ao mesmo tempo, seus professores da federal estão à cata de gente para fazer mestrado com bolsa e agradar o governo federal. O licenciado então acha que 1.200 reais por mês por dois anos é melhor que coisa nenhuma, ou que o REDA, e topa. Como as vagas para as escolas não aparecem, o aluno começa a aventar a possibilidade de seguir a carreira docente superior, que é onde tem concurso. E durante o Reuni, o que não faltava era concurso, mesmo. Nisso, descobre que o mestrado sozinho não serve de nada e precisa fazer o doutorado também.

Naturalmente, as ambições variam conforme a origem socioeconômica. Logo que entrei no curso, com 18 anos incompletos, me chamou a atenção a quantidade grande de pobres. Eu não entendia por que eles queriam fazer um curso que dá salário de fome.

Quanto a mim, também nunca sonhei em ser rica, mas não toparia virar professora de escola pública estadual — virar professora universitária era o plano inicial. Existiam mais colegas de origem social idêntica à minha, com as mesmas aspirações. Tendo todos nós recebido bolsas idênticas, eu enfim pude entender que 1.200 na mão da classe média são mesada e poupança forçada, pois não permitem sair da casa da família. Na mão do pobre que mora em favela, significa que você pode se casar e começar sua própria família, numa casa às vezes mais arejada e confortável do que os caixotes caros com condomínio que precisam de ar-condicionado. Então a aspiração inicial deles de virar professor do estado era muito sensata.

Além disso, perto dos primos, o pobre estava muito bem na fita, fazia gosto à mãe etc. Já o de classe média estava na casa dos pais ganhando uma merreca, enquanto que o primo que fez direito passou num concurso escalafobético e foi passar as férias em Paris, ou então se tornou empresário e vai bem, obrigado. A família tende a medi-lo pelo sucesso material e ele, rancoroso, vai tentar convencê-la de que sua pesquisa hiperespecífica sobre a asa da joaninha é a coisa mais importante do mundo, vai sacralizar a Ciência etc. Já a família do pobre sabe que dinheiro não é um bom medidor de êxito e quem fica mal na fita é a mãe do traficante, por mais dinheiro que ele tenha.

Desespero num setor da classe média

Nisso, os colegas com o meu perfil socioeconômico perceberam que teriam um montão de concorrente nos concursos. Se tiverem sido sensatos, começaram a se perguntar se haveria vaga para tanta gente assim. Quando ficou claro que não haveria, até porque o festival de concursos aconteceu quando estávamos em formação, a inflação de doutores estava consumada. Mesmo que os colegas pobres não existissem, não teria tanta vaga pra tanta gente de classe média ainda assim. Afinal, o problema era ainda mais grave no Sudeste, e os egressos de lá já inundavam concursos de universidades federais e estaduais em cada rincão do país. O que tinha de uspiano desempregado doido para se mudar pra Jequié no começo dos anos 10 já não estava no gibi.

E se simplesmente não houver emprego? O que fará o acadêmico que investiu uns 10 anos de sua vida na carreira e, ao fazê-lo, foi coagido pela CAPES e pelos programas a não ingressar no mercado de trabalho formal?

Nisso, os pobres se saem mil vezes melhor do que os de classe média. Se o pobre virar pedreiro, não vai ser vergonha nenhuma para a família. E mais: sua família numerosa e a vizinhança são uma espécie de LinkedIn de nascença. Vai encontrar emprego não-escolarizado com facilidade. Já se o letrado de classe média tiver a coragem de ir contra os próprios preconceitos e virar um trabalhador braçal, ele não vai ter nem experiência, nem contatos. E ainda vai ter de lidar com preconceito vindo de empregadores.

Tive um colega que não conseguia emprego em telemarketing porque as empresas cruzavam os dados dos candidatos com o do alunado da UFBA, presumindo erroneamente que estes logo arrumariam um emprego melhor. Em época de pleno emprego deve ser fácil alguém de classe média virar peão; em época de desemprego, não é.

No frigir dos ovos, os colegas pobres estavam até bem na fita, em sua situação de universitários da família. Alguns passaram nos raros concursos para escola lá onde Judas perdeu as botas e foram. Como a vida no interior é mais barata do que em favela da capital, o poder de compra do salário magro é maior ainda.

O diferencial em meio à inflação de diplomas

Concurso de professor universitário é política de departamento; não é meritocrático nem impessoal. (Já expliquei aqui como é.) Assim, o acadêmico de classe média que está desesperado por emprego só tem uma coisa a fazer: bajular orientador e figurões acadêmicos; mostrar-se bom menino e obediente.

E como a parcela do professorado que galga posições de poder costuma ser petista ou satélite do petismo, resta ao acadêmico tornar-se mais realista que o rei e ficar aderindo a cada slogan, a cada hashtag, a cada filtro de perfil, para anunciar ao mundo acadêmico que ele será um conformista submisso caso passe num concurso. Se todo mundo tem diploma, resta procurar outros meios pra se destacar.

No fim, uma consequência muito triste é que os acadêmicos que não estão dispostos a se sujeitar à bajulação acabam se autocensurando. É o meio termo prudente adotado, creio eu, pela maioria: nem bajular, nem falar o que pensa. Eu penso que essa seja uma má estratégia, porque as vagas de concurso estão predestinadas aos bajuladores, e o silêncio dos bons acadêmicos acaba os colocando na invisibilidade. Eles não vão conseguir passar num concurso, nem serão enxergados pela iniciativa privada.

Questão

No caso da academia, eu estou segura para estabelecer uma correlação entre lacração e inflação de diplomas. Se há uma demanda lacradora vinda de cima – no caso da academia, dos figurões petistas e quejandos que tomam conta da distribuição de financiamento à pesquisa e dos concursos –, uma corja de inescrupulosos saberá o que fazer para passar na frente da multidão de doutores.

Hoje há lacração no mundo corporativo, e, se a demanda não vem sempre de cima, vem pelo menos do RH, que é responsável nada menos que pela contratação.

Enquanto eu estava me deliciando com as consequências do Reuni, é provável que o povo de direito, engenharia, jornalismo, administração etc., que não depende da carreira docente, estivesse se deliciando com as consequências do Prouni. Que promoveu uma inflação de diplomas também. Será que isso não explica o surto de lacração e de autocensura no mundo corporativo?

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