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Por que a cultura brasileira era de esquerda?
| Foto: Pixabay

O olavismo pôs em circulação no Brasil uma teoria sobre o nosso cenário intelectual e cultural: os marxistas aplicam, desde a década de 70, o seu plano gramscista de hegemonia cultural, que faz com que as pessoas se tornem esquerdistas sem tomar ciência disto. Essa tese tem um significativo amparo histórico. Listo aqui: (1) o fato de Paulo Freire dominar as faculdades de educação mesmo durante a ditadura militar; (2) o expurgo de Antonio Paim perpetrado, durante a ditadura, pelos professores de filosofia da PUC-Rio que depois iriam para a UFRJ e para o seio da burocracia do MEC; (3) a difamação de Simonal. É verdade que os marxistas conspiraram para se manterem sozinhos na crista da onda da cultura. É verdade que isso se deu sob os narizes dos militares. (No caso da universidade, ao meu ver, a culpa é justamente da estrutura centralizadora da burocracia acadêmica criada por eles. E acho sensato não terem pretendido instaurar doutrinas oficiais dentro da universidade.) Também é verdade que a cultura tem a capacidade de influenciar as opiniões políticas das pessoas.

Mas, porém, contudo, todavia, influência é sempre algo a ser mensurado. Entre não sofrer influência nenhuma e se tornar um teleguiado. As pessoas sabem disso na vida comum. Se eu digo que Pixinguinha sofreu influência do jazz, qualquer um entende que isso não faz dele um músico de jazz. Do mesmo jeito, se dissermos que um esquerdismo difuso era a influência cultural predominante no Brasil, isso sequer significa que o Brasil era esquerdista. Mas essa é a admissão tácita dos olavetes, que continuam a história colocando Olavo num cavalo branco matando o dragão do esquerdismo enquanto distribui pílulas vermelhas (a red pill da Matrix) à população. É inegável que Olavo teve influência – mas, de novo: influência é passível de mensuração.

No último texto, vimos que a esquerda tem uma dificuldade muito grande em lidar com a espontaneidade dos protestos da direita. Em vez de achar que a direita faz feitiçaria com a internet, a esquerda deveria procurar entender os motivos legítimos que levam as massas à rua. O olavismo também tem uma dificuldade muito grande em lidar com a espontaneidade, mas esta se projeta para o passado. Em vez de achar que a esquerda fazia feitiçaria na mídia e nas universidades, os olavetes deveriam procurar entender os motivos legítimos que fizeram a esquerda ter apelo.

Oba-oba em defesa da democracia

O motivo para o sucesso da esquerda no Brasil durante a ditadura militar é evidente: a alegada defesa da democracia. É verdade que de 1964 a 1988 a esquerda marxista queria derrubar a ditadura militar para instaurar um regime totalitário. Antes mesmo de 64, porém, houve o Relatório Kruschev, quando o grosso da esquerda concordou que era feio ser stalinista. Intelectuais como Sartre continuaram apoiando a URSS; ainda assim, o apelo que Sartre tinha era muito mais voltado para o mundo das artes e dos costumes do que para um programa político específico. Você pode aderir ao existencialismo ou ao amor livre enquanto se mantém apolítico. Na verdade, uma crítica de Raymond Aron a Sartre era precisamente esta: sua revolução não passa de beletrismo. Sartre era tão apolítico, mas tão apolítico, que nem Hitler, isto é, nem a ocupação nazista de Paris, foi capaz de tirá-lo do seu habitual pedantismo blasé.

Outro movimento de esquerda que teve muito peso nesse período foi a contracultura. Eu não preciso me alongar sobre o quão contrário à esquerda de hoje é a contracultura, já que Camille Paglia, egressa desse movimento, faz isso a torto e a direito. O puritanismo das feministas de hoje em dia, dos liberals, não tem nada a ver com a esquerda contracultural que pegou no Brasil. Essa esquerda progressista importada dos EUA, que é hegemônica no Brasil hoje, não existia aqui nos anos 60. Apareceu só com a Fundação Ford, que amiúde era entendida como direitista à época.

Assim, podemos fazer uma simplificação dizendo que existiram no Brasil duas correntes de esquerda: a pró-soviética e a contracultura. O habitat da pró-soviética era a universidade; a da contracultura, o meio artístico e a juventude de classe média. O meio da primeira era, na cultura, bem mais restrito do que o outro: uma coisa era idolatrar o pernambucano sósia de Conselheiro que realizou um milagre na longínqua Angicos; outra era ouvir Caetano Veloso. A primeira teve sucesso em infiltrar a burocracia, mas não em ganhar as massas. Quanto à segunda, embora consiga mamar nas tetas do Estado, é destituída de um projeto político propriamente dito. Chame um freireano da Educação para legislar, e ele terá mil planos prontos; chame um Caetano, e o máximo que ele conseguirá elaborar é projeto de captação de recursos para artistas. Plano político, ali, só em devaneio de viagem de ácido.

A contracultura, assim como o existencialismo, faz muito barulho, mas na prática é apolítica. Pode tecer loas a Che Guevara, mas só por achá-lo bonito, e nem quererá saber detalhes do que ele fez ou deixou de fazer em Cuba. A estética importa mais do que qualquer coisa.

E a defesa da democracia com isso? Bom, defender a democracia felizmente é uma coisa bonita para nós brasileiros, e por isso a contracultura defendia, nem que fosse só da boca para fora. O mais importante, aos olhos do público, é que ela era a única em posição de defender a democracia sem estar comprometida com uma ditadura real implementada no país. Um Caetano gostava de ser abertamente contrário ao stalinismo e à URSS, e o público gostava que ele assim fosse. Por outro lado, a esquerda armada, careta, desprezava os "degenerados" e os "pederastas" da contracultura. Serviam para financiar a guerrilha com seu uso de drogas.

Qual público?

Uma coisa importante para comparar a política brasileira do século XX à do seculo XXI é a dimensão da população politicamente ativa. Como vimos no penúltimo texto, antes da internet, a as correntes culturais (política inclusa) adquiriam dimensões nacionais somente por meio de rádio, TV e jornal impresso. Se a maioria imensa da população brasileira não se sentisse representada por nenhuma das correntes que circulassem aí, restava-lhe virar as costas e tocar sua vida. Tocar a vida era facílimo naquele país de Milagre Econômico e pleno emprego.

Enquanto isso, dentro daquela bolha mais intelectualizada e dentro dos meios artísticos, um efeito modesto da ditadura era sentido com máximo incômodo: a censura. O maior tiro no pé dos militares provavelmente foi a censura prévia, que dava a alguns desocupados a possibilidade de censurar artistas por quaisquer motivos. Um exemplo disso é a censura de de Adoniran Barbosa. Ele queria regravar alguns sucessos da década de 50, crente que não haveria problemas com a censura. Mas censora vetou por “falta de gosto” sambinhas que faziam graça com a linguagem coloquial, como “Tiro ao álvaro” e “Samba do Arnesto”.

Botar um monte de dondoca para decidir o que o artista pode apresentar ao seu público é um belo de um motivo para deixar artistas e apreciadores de cultura furiosos com a ditadura, defensores da democracia e simpatizantes daqueles caras da contracultura, que faziam o maior bundalelê em desafio à censura.

A bolha intelectualizada via essa simpatia e concluía, erroneamente, que o povo brasileiro era de esquerda. Um dos maiores choques que a eleição de Bolsonaro trouxe para essa bolha é que o povo não estava nem aí para o período militar, enquanto que ela própria tinha certeza de ser a pior coisa na face da terra depois do nazismo.

Guinada à direita

Hoje, quem promove a censura puritana da arte não é a direita, e sim a esquerda. Quem quer calar humorista não é a direita, e sim a esquerda. Ator pornô se elegeu pela direita, enquanto que Haddad aparecia na propaganda ostentando uma família margarina. Essa irritação com o moralismo hipócrita e autoritário naturalmente mudou a orientação política.

A ala da esquerda que tomou o poder foi a revolucionária e carrancuda, que nunca gozou da simpatia popular. Ela foi implementando o seu programa, e, enquanto foi bem-sucedida na economia, foi amada por isso. Mas quando a economia degringolou, passou a ser odiada.

No âmbito intelectual, uma novidade apareceu. De 88 aos anos 2000, era fácil acreditar que a esquerda tinha se democratizado e que havia apenas grupelhos minoritários afeitos ao comunismo; grupelhos que caberiam num DCE e nunca chegariam ao palco da política brasileira. Tudo mudou com a crise da Venezuela e a Lava Jato, que mostraram, para além de qualquer dúvida, um complô pró-ditaduras esquerdistas integrado pelo governo federal brasileiro.

Assim, aqueles que detestam autoritarismo tiveram que abandonar o barco da esquerda. E tiveram que ficar muito mais atentos à política, já que o esquerdismo, no mais das vezes, era um senso comum pró-pobre e anti-moralismo.

Por fim, há a internet. Com ela, as pessoas que pensavam muito diferente de seus colegas puderam encontrar pares e desenvolver conversas. A direita deixou de ser identificada com defensores da ditadura militar e se abriu um novo leque político.

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