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Não é sensato acharmos que o mundo é uma locomotiva que se move segundo os trilhos da história e que a próxima parada é o pesadelo.
Não é sensato acharmos que o mundo é uma locomotiva que se move segundo os trilhos da história e que a próxima parada é o pesadelo.| Foto: Pixabay

Como vimos, a “Ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber, é um livro antimarxista. É certo que Weber não gosta do espírito moderno do capitalismo, mas também é certo que seu desgosto se deve ao materialismo que tal espírito terminou por suscitar.

Dito da maneira mais simples possível, Weber defende que as disposições psicológicas causadas pela crença calvinista no lucro como sinal da Graça divina levaram os países protestantes a criarem o capitalismo moderno e, ao mesmo tempo, banirem toda fonte extramundana de sentido para a vida. O livro é antimarxista por defender que o capitalismo não é a evolução necessária de fenômenos materiais, senão fruto acidental de uma concepção espiritual. O capitalismo vem do espírito, e não, como pretendia Marx, da matéria.

E vimos também que Weber terminava o seu livro pessimista quanto ao futuro do Ocidente. Seria um mundo de especialistas utilitários e sem espírito? Apareceria uma nova metafísica, utilitária, para dar sentido a um mundo desencantado, inteiramente materialista?

O livro de Douglas Murray, também já comentado aqui, aponta algo nesse sentido, ao menos no mundo anglófono. (Que os países de línguas latinas sejam menos propensos a isso, vê-se também na Europa, comparando-se os franceses, italianos e ibéricos aos seus vizinhos não-latinos).

A finalidade deste texto não é, em hipótese alguma, alimentar derrotismo. Não é sensato acharmos que o mundo é uma locomotiva que se move segundo os trilhos da história e que a próxima parada é o pesadelo. Esta é uma mentalidade marxista. O juízo de valor pode não ser, mas a visão do mundo como predeterminado é uma visão marxista, que despreza o poder que as ideias têm sobre os homens. O futuro está sempre em aberto e cabe a nós não agirmos com covardia.

A finalidade deste texto é compreender do inimigo, passo essencial para lidar com ele. Vejamos hoje, em particular, o papel que o anonimato do pensamento tem para coagir.

Uma metafísica nova e anônima

Douglas Murray tem toda a razão ao dizer que “a interpretação do mundo através das lentes da ‘justiça social’, da ‘política de identidade de grupo’ e da ‘interseccionalidade’ provavelmente é o mais audacioso e abrangente esforço, desde o fim da Guerra Fria, de criar uma nova ideologia.” De fato, a União Soviética foi uma máquina de propaganda da ideologia comunista – uma ideologia que, bem ou mal, já rondava a Europa desde o século XIX. A nova ideologia, não. Ela surge nos departamentos mais obscuros de universidades anglófonas lá pelos anos 1970 e, em menos de cinquenta anos, torna-se padrão no jornalismo, nas artes e nas universidades.

Outro contraste entre o comunismo e essa nova ideologia é que o comunismo tinha um nome para se apresentar ao público, bem como um pensador fundamental. O ideólogo dos anos 1960 tem vocabulário suficiente para dizer: “Olá, sou comunista, vim espalhar a ciência de Karl Marx”. Isso não implicava que o pensamento marxista fosse todo igual, dado que existiam trotskistas, leninistas e maoístas. Mesmo com a diversidade interna, os comunistas eram identificados enquanto tais e o público sabia que todos eles tinham em comum a deferência pela palavra de Marx. Por consequência, quem quisesse criticar o comunismo sabia o que ler.

Hoje, não há sequer um nome inequívoco para a nova ideologia. Tenho chamado de “progressismo” ou de “identitarismo”. Uso mais o primeiro porque é um termo que às vezes os ideólogos usam para se referir a si próprios. O “politicamente correto” também serve para nomeá-la, bem como os outros nomes citados por Murray (“interseccionalidade”, “justiça social” e “política de identidade de grupo”).

Mas acontece que tais nomes, genéricos, são muito menos usados do que os nomes das “províncias” dessa ideologia. Por exemplo, é mais fácil encontrar alguém se declarando “feminista interseccional” do que simplesmente “interseccional”. Para piorar, é possível que um homem branco (como Freixo) concorde tintim por tintim com Djamila Ribeiro, mas o rótulo de “feminista interseccional” só pode ser abraçado publicamente por mulheres negras. Em outros tempos, Freixo e Djamila diriam algo como “sou comunista” e, havendo divergências entre os dois, cada qual diria a linha à qual pertencia. Creio que pela primeira vez na história pessoas com ideias semelhantes não têm um nome para dizer que pertencem à mesma corrente ideológica. A raça, agora, não só existe como é condição para alguém ser um legítimo membro de uma corrente.

Antes, existia uma ideologia só – o comunismo, por exemplo – a abarcar gente de todas as cores e sexos. (Mas não todas as orientações sexuais, pois a homossexualidade era vício burguês). Hoje, cada qual vai merecer um nome diferente, a depender da sua cor de pele, do seu sexo e da sua orientação sexual ou “identidade de gênero”. Feminista interseccional, queer, trans, não-binárie (sic), antirracista, descolonial, aliado da luta tal são alguns dos nomes para indivíduos que compartilham das mesmíssimas ideias, variando somente quanto à cor da pele, sexo e causa.

Repetição mecanizada

Outro feito interessante de Douglas Murray foi dar nomes aos autores de jargões. No mundo anglófono, expressões como white privilege e white fragility são abundantes em quaisquer ambientes infestados pelo progressismo. White fragility é recente e quem estiver atento ao mundo anglófono saberá que sua autora é Robin Di Angelo, que tem um best-seller com esse título. White privilege, porém, é mais antigo e traz uma ideia que já chegou ao Brasil: se você nasce branco, é um privilegiado nato, porque a brancura traz um montão de recompensas injustas. Mesmo que você seja uma mulher, ainda assim, é um baita privilégio ser branca, e dizer isso é muito importante porque os progressistas juram de pé junto que ser mulher no Ocidente é horrível.

A mera asserção de que há preconceito contra negros e, portanto, não ter esse preconceito é uma vantagem, pode encontrar apoio de muita gente sensata. No entanto, chamar de privilégio aquilo que deveria ser uma norma é um tremendo salto retórico. O senso comum entende o privilégio como algo passível de ser cortado, e amiúde injusto, tal como pensão para filha solteira de militar. Viver sem ser destratado pela cor da pele não é um privilégio e todos deveriam ser assim. Até mesmo a noção de que privilégio é para poucos vai contra essa concepção, dado que, mesmo que supuséssemos que todo não-branco é vítima de racismo nos EUA, a maioria segue branca e, portanto, portadora de “privilégio”. Nessa retórica, é como se o normal fosse ser vítima de racismo e toda não-vítima fosse culpada.

Para piorar, os progressistas listam coisas idiotas quando querem provar a tese do “privilégio branco”. Todo militante negro jura de pé junto que não pode entrar num supermercado sem ser seguido pelos seguranças (o que exigiria que os supermercados de certas cidades tivessem mais seguranças do que clientes). Juram que sofrem, também, por não se verem “representados” em um dado nicho. Por exemplo, há menos professores universitários negros em comunicação do que brancos, e o aluno negro se esvai em lágrimas por isso.

Com Douglas Murray, aprendemos que a ideia de que todo branco é um privilegiado é de autoria de uma tal Margaret Means, que escreve com o pseudônimo de Peggy McIntosh e está com 86 anos. É uma acadêmica de women’s studies, ou seja, uma feminista acadêmica - e branca. Escreveu num periódico acadêmico em 1988 um panfleto longo e lacrimoso chamado “"White Privilege and Male Privilege: A Personal Account of Coming to See Correspondences Through Work in Women’s Studies”, que ganhou em 1989 uma versão curta, chamada “White Privilege: Unpacking the Invisible Knapsack”. O leitor pode encontrar em inglês aqui.

Nesse panfleto, o leitor aprenderá que todo branco tem uma “mochila” de privilégios a ser exposta numa listinha. Nela, encontramos as mesmas coisas idiotas que os militantes do movimento negro dizem: brancos são privilegiados porque, ao contrário dos negros, não são seguidos no mercado, porque têm representatividade e por um montão de outras coisas. O item número um  da listinha é o “privilégio” de conseguir, “se eu quiser, estar na companhia de pessoas da minha raça na maior parte do tempo”. Eu, por mim, espalho aos quatro cantos e boto no jornal em caixa alta: ESSA SENHORA É UMA RACISTA E QUEM A LEVA A SÉRIO TAMBÉM.

Essa ideia contida na expressão “privilégio branco”, sobretudo vinda de uma feminista, implica que dá para fazer aquela tabela de opressão, em que as mulheres negras têm direito a chorar mais e pedir mais carguinho do que as mulheres brancas e os homens negros. No jargão, diz-se que sua condição oprimida é uma interseção de mulher e de negra – dessa hierarquia do chororô pecuniário vem o feminismo interseccional. Mas quem inventou o termo é uma tal de Kimberlé Crenshaw, negra, de apenas 61 anos. Ela ganha o rótulo de feminista interseccional, enquanto que sua predecessora branca, não, por ser branca.

O poder do anonimato artificial

Pois então. Se eu concordasse com essa senhora infame, daria crédito à ideia toda vez que fosse repeti-la. Repito as ideias de Weber e digo que são de Weber; repito as de Douglas Murray, digo que são de Douglas Murray. Todo autor gosta de ser creditado por suas ideias e fica orgulhoso quando as vê ganhar o mundo.

No entanto, Peggy McIntosh nem sequer tem livro traduzido para o português. A pensadora é irrelevante. As pessoas repetem, repetem, repetem e vira verdade. Peggy McIntosh não é como Marx, cujos opositores podem ler e criticar. Ela é um gerador de frase feita.

Isso passa uma falsa impressão de evidência e de consenso. Se um monte de celebridade negra começa a dizer que é perseguida no supermercado pelo mero fato de ser negro, os não-negros (que são maioria no Brasil e nos EUA) vão começar a achar que isso é uma verdade evidente.

Essa é a praxe em várias teorias do progressismo. A mais bizarra deve ser a teoria de gênero, segundo a qual as mulheres são mulheres por causa do papel que a sociedade lhes ensinou, e não por causa da natureza. Todos teríamos um sexo (biológico) e um gênero (social), não havendo correlação entre uma coisa e outra.

Isso foi inventado por um sujeito chamado John Money, que capou um menino criado como menina, fez com que treinasse a posição de fêmea em simulação de sexo com o seu irmãozinho e desencadeou o alcoolismo letal de um e o suicídio do outro. Quais chances de ganhar o mundo teria essa ideologia, se todos soubessem do seu criador?

Pecúnia

Apenas para não deixar a ponta do Weber solta, notemos por fim como é estritamente materialista e pecuniária essa nova metafísica.

O mundo tem quatro categorias de oprimidos e opressores: negros X brancos, mulheres X homens, homossexuais X heterossexuais, transgênero X cisgênero. A categorização pode ser ampliada, e agora já tem ganhado força a cômica cisão gordos X magros. Estes são os habitantes do mundo.

E o que é o mundo? Nada mais que um conjunto de empregos que requerem diplomas. Assim, tudo o que essa metafísica faz é realocar os empregos conforme a divisão que dê na telha, e as pessoas se sentem boas ou más em função de uma luta que não passa de repartição de renda.

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