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Nos EUA, tal como na questão gay, o progressismo é puritano e profundamente repressor da sexualidade
Nos EUA, tal como na questão gay, o progressismo é puritano e profundamente repressor da sexualidade| Foto: Pixabay

Levante a mão quem gosta de trabalhar. Eu mesma levanto porque tenho a sorte de trabalhar com algo intelectualmente estimulante, que algumas pessoas têm como hobby. O leitor talvez tenha levantado a mão também; afinal, não é nenhum necessitado (do contrário, não gastaria com a assinatura de um jornal), deve ter um trabalho intelectualmente estimulante (como são alguns dos trabalhos complexos de classe média) e prefere o agito à pasmaceira (do contrário, veria só filmes em vez de assinar um jornal).

Mas se fizéssemos essa pergunta a toda a humanidade vivente, não parece razoável crer que os pedreiros dissessem que adoram bater laje, que os ascensoristas adoram passar o dia apertando botão, que os roceiros adoram capinar um lote, que os operadores de telemarketing amam repetir os gerúndios do manual e ouvir os compreensíveis desaforos dos clientes.

Não estou dizendo que todos os trabalhadores não-qualificados trabalhem tristes ou de mau humor; acredito que pedreiros tenham, com o coleguismo, mil meios de levar um dia mais bem-humorados do que muito professor universitário. Digo somente que o trabalho em si mesmo dificilmente é uma fonte de alegria ou realização para a maioria da humanidade. Um empresário, um acadêmico, um artista e um profissional liberal podem apontar para uma obra do seu trabalho com orgulho. Um ascensorista, não.

A noção de que o trabalho liberta é, compreensivelmente, muito nova na história da humanidade. Se a humanidade pudesse, viveria no País da Cocanha, o paraíso medieval em que há comida à mão o tempo inteiro, sem precisar de trabalho: os porquinhos andam já assados com uma faca espetada, os rios eram de vinho. No cinema, temos Chaplin fantasiando uma vida em que o homem estenderia um copo na janela e então apareceria uma vaquinha esguichando leite aí até ele mandar parar. (Se a memória não falha, está em Tempos Modernos.)

Se a ideia de que o trabalho é uma coisa boa em si mesma é novidade – e uma novidade elitista, diga-se –, que diremos da carreira como uma coisa boa em si mesma para as mulheres?

Mulheres no mercado de trabalho

Weber escreveu a primeira parte d’ “A ética protestante e o espírito capitalista” em 1904. Como vimos, o livro tem por objetivo explicar uma nova ordem social que trata o trabalho lucrativo como um fim em si mesmo, ou seja, a sociedade regida pelo espírito capitalista. O corte mais famoso dele é o religioso: calvinistas começaram com isso, e a ausência da moral calvinista explica a relativa pobreza dos países católicos.

Enquanto um católico se contentaria com a Cocanha e trabalhava por obrigação, o calvinista se matava de trabalhar porque interpretava o lucro como indício da Graça divina. Se você aumentasse muito o pagamento pelo lote capinado, o roceiro católico iria trabalhar menos; o protestante, a seu turno, iria trabalhar mais e mais, e acumular capital.

Pois já em 1904 Weber via uma outra resistência à ordem capitalista: as mulheres. “Uma imagem da forma tradicionalista e atrasada de trabalho nos é fornecida hoje especialmente pelas mulheres operárias, sobretudo as solteiras”, diz ele. “Em particular sua incapacidade e falta de vontade de abandonar os modos de trabalho tradicionais há muito assimilados em favor de outras modalidades mais práticas, de adaptar-se a novas formas de trabalho e as assimilar, de concentrar seu intelecto ou simplesmente de fazer uso dele – eis uma queixa generalizada dos patrões que empregam moças, sobretudo moças alemãs. Explicações sobre a possibilidade de tornar o próprio trabalho mais fácil, e acima de tudo mais lucrativo, costumam esbarrar com a sua mais completa incompreensão, e o aumento das taxas de remuneração por tarefa choca-se em vão contra a muralha do hábito.”

Antes da invenção da pílula e da liberação sexual, a Revolução Industrial e o modo de vida capitalista já tinha tornado cara a manutenção de mulheres sem trabalho remunerado. Não é nem um pouco surpreendente que a mulher, até então criada apenas para cuidar da casa e constituir família, ofereça resistência à ideia de trabalhar por dinheiro, como um homem, e de que ela não poderá ficar em casa cuidando dos filhos, os quais, no mundo rico, foram transferidos para a escola de tempo integral.

Contra o tradicionalismo feminino ergueu-se primeiro a propaganda comunista, que passou a pregar a libertação pelo trabalho e o fim da opressão dos homens sobre as mulheres. Atingia-se a igualdade, e a mulher valia tanto quanto um homem. O subtexto é que uma boa dona de casa valia menos do que um operário de chão de fábrica – mas é o subtexto da época, já que a industrialização se converteu numa tara generalizada.

Depois, com a pílula anticoncepcional e a consequente liberação sexual, a possibilidade de vender remedinhos para metade da população fértil e deixar todos os adultos no mercado de trabalho (diminuindo o poder de barganha do trabalhador homem) fez com que o feminismo se tornasse, também, objeto de propaganda capitalista.

Então hoje as feministas se orgulham muito de trabalhar (como se não trabalhar fosse uma opção), juram de pé junto que não querem ter filhos, mas, quando conseguem ter um filho, fazem um parto na banheira pra todo mundo ver e chamam fotógrafo. (Se bem que essa moda parece ter passado. Terão morrido muitos bebês na society para desistirem das doulas?)

Feminismo que inviabiliza a mulher no mercado de trabalho

Na Europa, as feministas só querem sexo sem compromisso e autonomia radical. Nos EUA, tal como na questão gay, o progressismo é puritano e profundamente repressor da sexualidade. Presume que mulheres não desejam sexo e são incapazes de assentir. Só a mulher precisa de um affirmative consent – o consentimento afirmativo, no qual ela diz expressamente “sim” ao sexo, sem o qual é estupro. Se um casal transa bêbado, só a mulher é uma incapaz e portanto uma estuprada, enquanto que o homem tem sua liberdade reconhecida e é considerado um estuprador.

No entanto, para além da repressão sexual, o feminismo progressista dos EUA ameaça a capacidade das mulheres de conseguir se sustentar com um trabalho bom. Vejamos o Me Too: o grande aprendizado, para os homens, é que ficar entre quatro paredes com uma mulher é o mesmo que dar a ela a chance de acabar com a sua vida. Se a “palavra da vítima” (isto é, da vítima autodeclarada) é algo sagrado, então toda mulher tem o poder de condenar um homem por estupro. Evidentemente, mulheres não são anjos: existem boas e más, picaretas e honestas. Basta um homem ter passado um minuto a sós com uma picareta, e ela terá em suas mãos um poderoso instrumento de chantagem.

Uma das razões para homens e mulheres ficarem a sós é a relação de trabalho. Como um homem poderá contratar uma subordinada com a qual não poderá ficar a sós? Se seguirmos perguntando isso às feministas puritanas, elas irão imaginar para nós um mundo parecido com o Irã, onde vigora um apartheid sexual nos espaços públicos e de trabalho. Aliás, se só o homem é tratado como um ser capaz de bondade e maldade, se as mulheres são vistas como bebezonas ingênuas, por que não concluir logo que precisam de tutela masculina? Esse feminismo puritano dos EUA é coisa de aiatolá.

E que seja algo bem diferente da Europa, podemos ver pelo fato de que o Me Too não fez o mesmo estrago por lá e esteve restrito praticamente à Inglaterra, que compartilha muito mais da cultura com os EUA.

Volta ao lar?

Poderíamos então descrever o progressismo feminista de matriz norte-americana como uma volta ao lar? Não, porque esse retorno não parece estar acontecendo. Ademais, se a renda dos norte-americanos tem caído desde o pós-guerra, uma esposa do lar provavelmente ainda é algo caro demais para estar na alçada do norte-americano.

Acho que podemos descrever esse progressismo como uma revolta da mulher de classe média contra o seu ingresso compulsório no mercado de trabalho qualificado. Qual era a antiga opção de trabalho para mulheres que não viravam dona de casa? Aquela que é crime nos Estados Unidos: prostituição. Ao arrepio da lei, vão surgindo as sugar babies (concubinas assalariadas). Vai também se tornando moda produzir pornografia de si mesma e vender na internet (Only Fans).

gazetadopovo

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