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A paralisação dos caminhoneiros me fez lembrar dois momentos marcantes. Pela ordem temporal, o primeiro foi o congelamento de preços do governo de José Sarney e aquelas criaturas inacreditáveis batizadas de “fiscais do Sarney”. O segundo foi experimentar, por dois dias, o que é ser caminhoneiro.

Você, jovem que me lê, não faz ideia do que era o Brasil dos anos 1980. Não era apenas outro país. Politica e economicamente, era um mundo paralelo, uma Matrix abjeta, pavorosa. A começar pela presidência daquele que Paulo Francis chamava jocosamente de “Sir Ney”, o primeiro presidente de esquerda após o fim do regime militar em 1985.

Naquela época, eram tantos e sucessivos os reajustes de preços de tudo que até hoje eu me pergunto por que não nos tornamos uma nação de exímios matemáticos.

Todo dia no supermercado era uma experiência diferente. Parafraseando Heráclito sobre o rio que nunca é o mesmo, o brasileiro que entrava duas vezes no local não encontrava os mesmos preços, e ele próprio, exasperado pela experiência, já se modificava. O preço de hoje jamais era o de ontem.

O que faziam os sábios do governo? Em vez de tirarem o Estado da economia, pretendiam solucionar o problema econômico com mais governo: e dá-lhe controle de preços. Já citei numa coluna passada: em 12 de junho de 1987 o então Ministro da Fazenda, Bresser Pereira, lançou um plano econômico com medidas inteligentíssimas como o congelamento de preços e de salários por 90 dias e o aumento de tarifas públicas. As consequências óbvias – menos para ministro e presidente – foram hiperinflação, recessão e desvalorização da moeda.

No livro Forty Centuries of Wage and Price Controls, Robert L. Schuettinger e Eamonn F. Butler (Wahsginton DC: Heritage Foundation, 1979) mostram a origem e os reflexos negativos de 40 séculos de controle de preço e de salário. Explicam, com exemplos em várias partes do mundo, por que o mecanismo jamais funcionou. Desde o Código de Hamurabi, aliás, apontado pelos autores como o primeiro grande exemplo de lei escrita que impôs um rígido sistema de controle de preços e salários.

Os 4.000 anos de história parecem não significar nada para os políticos brasileiros e para uma parcela da sociedade. Se hoje o governo de Michel Temer reduziu o preço do diesel para atender a pressão dos caminhoneiros, ontem foi Dilma Rousseff que usou e abusou do controle de preços, anteontem foi Fernando Collor de Mello e José Sarney.

Um aspecto a que normalmente não nos damos conta é exatamente esse: em pleno início do século 21, o governo brasileiro ainda tem poder e respaldo legal para exercer diversos tipos de controle sobre as nossas vidas, sendo a econômica apenas uma delas. Depois de uma momentânea sensação de que o cerne do problema foi atacado, a seguir vem o tsunami em forma de escassez, queda na produção, desabastecimento, inflação, desvalorização da moeda, redução do poder de compra et cetera, et cetera, et cetera.

O gesto desesperado dos caminhoneiros é compreensível diante da ignorância econômica e política que os levaram a repetir o que estamos acostumados a fazer, muitas vezes sem perceber o paradoxo: pedir que o governo entre em cena em vez de desaparecer completamente.

Quando uma pauta de reivindicação está ancorada na redução do preço do combustível e não no conjunto de fatores que provocam o seu aumento (política econômica, sistema tributário, tamanho e poder do Estado) é mais fácil para o político adotar decisões equivocadas e assim dar uma resposta pública transferindo o problema de lugar. Como naquela célebre cena do Tropa de Elite 1 em que os policiais militares jogavam o cadáver de um lado para o outro com a finalidade de maquiar as estatísticas de segurança pública. Foi o que fez o governo Temer: a conta da redução do diesel será paga com redução de recursos de programas sociais e corte de benefícios tributários que nem deveriam existir.

O próprio mercado de transporte passa por um problema sério como consequência do aumento artificial da frota de veículos estimulado pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Entre 2009 e 2016, o governo federal subsidiou os financiamentos de caminhões, ônibus e máquinas agrícolas. Em 2015, o benefício somou R$ 34 bilhões contra R$ 23,3 bilhões destinados ao programa Minha Casa, Minha Vida. Em momentos de deterioração econômica e aumento no preço dos combustíveis, os caminhoneiros são afetados imediatamente.

Não sei se é justo culpar os caminhoneiros pelo desfecho da paralisação porque, sinceramente, não acredito que eles tivessem a consciência do seu corolário, esse extraordinário jogo de soma zero. Em suma, eles ganharam temporariamente no diesel, mas perderão em outras partes que estão prestes a descobrir.

Além disso, depois que o preço do diesel deixar de ser controlado, as outras medidas de oneração estatal adotadas agora continuarão a existir. Dois ótimos livros para entender a raiz do problema político são O Poder – História Natural do seu Crescimento, de Bertrand de Jouvenel, e A Ciência da Política, de Adriano Gianturco.

Falo da paralisação e passo a lembrar de cada detalhe dos meus dois dias como caminhoneiro. Para ser mais exato, como passageiro, quando pude experimentar, mesmo que brevemente, a vida na estrada. Foi uma experiência dura que me fez sentir o quão árdua é a rotina de quem trabalha no transporte rodoviário.

Em 1992, minha família se mudou de Vila Velha (ES) para Feira de Santana (BA). Como não tínhamos carro, eu, o filho mais velho, aos 17 anos, fui escolhido para ir junto com o caminhão da mudança para levar os nossos dois cachorros. Devidamente acomodados na ponta da carroceria de um caminhão Mercedes Benz 1114 azul, com mais anos de estada do que eu tinha de vida, lá fomos nós para uma viagem de pouco mais de 1.000 quilômetros.

O motorista, se a minha memória não me trai, chamava-se Domingos, cerca de 48 anos, casado com filhos. Trabalhava como caminhoneiro desde jovem. Gostava do que fazia. Contou-me muitas histórias da estrada, as boas e as ruins, das amizades em cada parada aos perigos das rodovias.

O tempo na estrada, contudo, passava num ritmo completamente diferente do que eu estava acostumado. Tudo era lento, a começar pelo caminhão que raramente atingia os 80 km/h. Para me manter ativo, de três em três horas parávamos para eu cuidar das cachorras, trocar a água, colocar mais ração.

Depois de um longo, calorento e cansativo dia, estacionamos por volta das 20 horas num posto de gasolina. Jantamos num restaurante ali mesmo junto com outros caminhoneiros, alguns dos quais ele conhecia. Eu tinha levado dinheiro para pagar por um quarto para dormir. Domingos foi lá, deu uma olhada no local e voltou com um vaticínio: melhor economizar meu dinheiro do que dormir “naquele lugar”. Entendi logo o recado.

Ele disse que havia conversado com um amigo cuja Scania estava parada próximo ao nosso Mercedes Benz para eu dormir lá, pois havia espaço. Quando lá cheguei, o espaço era o chão do carona. Nem pensei duas vezes. Era muito mais limpo e seguro do que as calçadas em que eu havia dormido de madrugada voltando de shows de bandas de Death Metal com amigos. Apaguei.

No dia seguinte, 5 horas da manhã, seu Domingos me chamou. Levantei num pulo, fui cuidar das cachorras, tomei café e pegamos a estrada. Mais horas de conversa, de cansaço e de milhares de impressões sobre a vida dos caminhoneiros.

Chegamos em Feira de Santana quase no final da tarde. Eu estava exausto, as cachorras idem. Ao me despedir do Domingos e agradecê-lo, perguntei se em nenhum momento ele pensou em mudar de profissão, deixar para trás a extenuante vida na estrada. Ele me olhou sorrindo e disse: “jamais”. Nunca mais o vi.

Durante a paralisação, no rosto de cada caminhoneiro que estava na minha cidade, nos vídeos compartilhados e nas imagens da TV, eu via a imagem projetada do Domingos e lembrava da minha brevíssima experiência em seu caminhão. E pensei que se há muitos ensinamentos que podemos extrair desse episódio, duas lições são importantíssimas não só para os caminhoneiros, mas para todos nós: 1) boas intenções não são garantia de bons resultados políticos e econômicos; 2) o Estado nunca perde. Basta olhar a nossa própria história.

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