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Adoção na Passarela
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Em evento organizado pela Comissão de Infância e Juventude da OAB e pela Ampara (Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção) em um shopping de Cuiabá, crianças e adolescentes na fila de adoção desfilaram na passarela para frequentadores do estabelecimento e famílias interessadas em adotar.

A reação açodada da esquerda, autoproclamada monopolista da empatia e da virtude, está muito bem sintetizada nos tuítes de suas lideranças:

Acho que essa é uma das notícias mais tristes que li. Crianças numa passarela, cheias de sonhos e desejos, buscando a aprovação a partir de um desfile, como se para amar um filho tivéssemos que admira-los fisicamente.

Manuela d’Ávila

A "passarela da adoção", em Cuiabá, expondo crianças de 4 a 17 anos para a escolha dos pretendentes pais é de uma perversidade inacreditável. Os efeitos psicológicos da exposição, expectativa e frustração dessas crianças pode ser devastador, ainda que a intenção tenha sido outra.

Guilherme Boulos

Esse é daqueles casos em que a polêmica é tão óbvia quanto a crítica. O desfile em passarela é associado à moda e aos concursos de beleza – coisas efêmeras, fúteis e/ou acessórias se comparadas às grandes questões existenciais. Emocional e afetivamente, tudo isso está muito distante da ideia de amor incondicional envolvida no ato de adotar e criar um filho. É esse contraste gritante entre o nobre valor promovido e a forma escolhida para promovê-lo que chocou a sensibilidade do público.

Contudo, configura tremenda injustiça detratar os organizadores do evento e execrá-los publicamente, colocando lenha na fogueira do tribunal das redes sociais. Afinal, são pessoas envolvidas de corpo e alma no fomento à adoção, especialmente da adoção tardia (ou seja, de crianças mais velhas, preteridas por futuros pais adotivos em favor de bebês). Isso, por si só, já bastaria para inferir que não houve dolo. E chega a ser uma obviedade que a intenção das entidades e seus representantes era a melhor possível. Mas, na contramão do bom-senso e confortavelmente instalados atrás de suas telinhas, quem nunca moveu uma palha pela causa da adoção espezinhou aqueles que de fato fazem uma diferença positiva na vida das crianças órfãs.

E, quanto aos menores, os supostos efeitos psicológicos negativos denunciados pelos influenciadores de internet (notórios especialistas em tudo!) parecem superestimados. Atribuir a decepção de crianças não-adotadas à sua participação no desfile é muita ingenuidade. Essa é uma frustração diária na vida desses jovens, não uma questão pontual. Ao participarem voluntariamente do desfile, esses menores contam com apenas uma certeza: o “não” eles já têm. E é de se imaginar que um órfão faça o que estiver a seu alcance para aumentar suas chances de ser acolhido por uma família amorosa.

O formato de desfile foi um erro, mas sem sombra de dúvida um erro perdoável. E produziu resultados concretos: tanto nesta edição quanto na anterior, houve adoções decorrentes do evento. Para uma próxima ocasião, fica a sugestão de uma manhã ou tarde de convivência entre os futuros pais e as crianças na fila de adoção, em um ambiente mais reservado. E que Deus abençoe quem adota! Tem minha profunda admiração.

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