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Ônibus de Curitiba: não temos integração, mas teremos tecnologia estilo James Bond


Por Chico Marés, interino.

Escrevi na minha coluna, na quarta-feira, sobre como Curitiba conseguiu piorar ainda mais seu transporte público com o fim da função dupla sem uma resposta adequada da prefeitura. Coincidentemente, na mesma quarta-feira, a prefeitura anunciou que estão sendo testados validadores de reconhecimento facial para isentos.

Sim, você leu direito. Reconhecimento facial. Aquele troço que o vilão do filme do James Bond usa para esconder a arma secreta que vai destruir o mundo agora estará também nos ônibus de Curitiba.

A ideia da prefeitura é usar a tecnologia do reconhecimento facial para evitar fraudes nos cartões de isento – a estimativa, segundo a própria Prefs, é de que entre 20% e 25% dos cartões são usados por quem não tem direito à isenção. Não vai ser algo que vai servir para, digamos, alguém que esqueceu o cartão em casa entrar no ônibus mesmo assim. É só uma checagem de segurança para o próprio sistema.

Deixando um pouco de lado o equipamento em si, vamos pensar um pouco sobre como o sistema de ônibus em Curitiba. Primeiro, há o anacronismo absurdo da cobrança por tarifa. Não existe uma integração temporal uniforme, só uma integração física que funciona em terminais e alguns tubos específicos. São Paulo, que não é exatamente a capital mundial da inovação em transporte público, já tem isso há dez anos. Falei sobre isso neste mesmo batcanal, recentemente.

Segundo, há o problema dos ônibus que não aceitam dinheiro. Você depende de um cartão para acessar diversas linhas da cidade. Caso você não tenha esse cartão, ou esteja com o cartão descarregado, você pode comprar créditos. Entretanto, se você não estiver no Centro e se não for horário comercial, esqueça. Vai ficar na mão.

Ainda há o problema da integração com a Região Metropolitana, a incapacidade de algumas linhas acomodar a alta demanda de passageiros (encontrei hoje um amigo no ônibus e ele me contou que foi descer na Eufrásio Correia e ficou cinco minutos preso dentro do tubo, sem conseguir se mexer por causa da lotação), os pontos cegos do sistema, a falta de informações ou falta de precisão sobre horários, enfim, uma dezena de problemas sérios que a prefeitura não consegue resolver há anos, por ene motivos.

E, agora, eis que a prefeitura revela que está usando seus recursos humanos e financeiros para desenvolver uma tecnologia de James Bond cujo custo-benefício é, no mínimo, bastante questionável. Ou, melhor dizendo, Curitiba não tem integração temporal, você não consegue encontrar um único local para carregar seu cartão avulso na Barreirinha, mas estão instalando um breguete que reconhece a lata do cidadão quando ele vai entrar no bonde para saber se ele é ou não o dono do cartão. Parece até piada.

Vamos falar de evitar fraudes. Uma coisa simples, fácil, e que não exigiria a adoção de nenhuma tecnologia de outro mundo seria exigir uma comprovação do direito à isenção na hora do embarque. Orientar o cobrador a pedir a carteira de identidade quando houver dúvidas sobre a isenção. Ou emitir cartões individualizados, com foto, nome, RG, que possam ser conferidos em caso de necessidade ou dúvida.

É lógico que alguém poderia fraudar esse sistema, fazer uma carteira de identidade falsa, qualquer coisa do tipo. Mas não existe sistema de segurança perfeito, sempre vai ter alguém para dar um olé na catraca.

Além disso, há o problema da tecnologia em si. Há sempre a possibilidade de o equipamento falhar e bloquear o cartão de alguém que tem direito à isenção. Há também o problema de eventuais demoras nos reconhecimentos. Enfim, o sistema pode não só não ajudar, mas também atrapalhar.

Não sou contra o uso de novas tecnologias nos ônibus. Sou absolutamente favorável a inovações que melhorem a qualidade do serviço – a instalação de wifi nas linhas, por exemplo, seria uma forma excelente de aumentar a atratividade do sistema. Mas aqui estamos falando em gastar tempo, energia e dinheiro em uma tecnologia de ponta que não ajuda em nada a população.

Usando a linguagem da Prefs, dá para resumir tudo isso com um “meme” do famoso Site dos Menes.

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