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As apostas on-line, muitas vezes travestidas de entretenimento esportivo, são o novo jogo do bicho. Com uma diferença inquietante: a tecnologia transformou essa velha prática em uma armadilha permanente, instalada no bolso de milhões de brasileiros. Nunca foi tão fácil perder dinheiro, patrimônio, dignidade e, em muitos casos, a própria vida.
O vício em apostas já se consolidou como um grave problema de saúde pública. A compulsão leva ao endividamento, destrói famílias, rompe vínculos afetivos, compromete carreiras profissionais e alimenta uma espiral de desespero que, não raramente, termina em suicídio. O mais preocupante é que essa tragédia permanece praticamente invisível. Enquanto acidentes, crimes e escândalos ocupam diariamente as manchetes, os suicídios associados ao jogo quase nunca recebem investigação aprofundada. A dor permanece confinada ao silêncio das famílias.
Não se trata de um fenômeno isolado. Psicólogos e psiquiatras alertam para o crescimento acelerado da ludopatia – a dependência patológica do jogo. Seu mecanismo é perverso. As plataformas utilizam sofisticados algoritmos de inteligência artificial para prolongar o tempo de permanência do usuário, estimular apostas sucessivas e oferecer pequenas vitórias estrategicamente distribuídas entre inúmeras perdas. O cérebro passa a perseguir uma recompensa que quase nunca chega. A esperança de recuperar o dinheiro perdido transforma-se numa prisão psicológica comparável à dependência química.
É urgente que o jornalismo realize uma ampla radiografia dessa epidemia silenciosa. Quantas famílias foram destruídas pelo vício em apostas?
Os adolescentes figuram entre as maiores vítimas dessa indústria. Em plena formação emocional, tornam-se alvo de campanhas publicitárias agressivas estreladas por jogadores de futebol, influenciadores digitais e celebridades. A mensagem é sedutora: apostar significa inteligência, ousadia, sucesso e pertencimento. A realidade, porém, é exatamente o oposto. Muitos jovens passam a enxergar o jogo como alternativa de renda, abandonando o esforço, o estudo e o trabalho como caminhos legítimos para a realização pessoal.
O impacto econômico também é devastador. Recursos que deveriam ser destinados à alimentação, à educação dos filhos, ao pagamento de contas ou à formação de patrimônio desaparecem em poucos minutos diante de uma tela. Pequenos empresários comprometem o capital de giro. Trabalhadores consomem salários inteiros. A economia familiar se desfaz silenciosamente enquanto cresce o lucro de empresas bilionárias especializadas em explorar impulsos humanos.
Boa parte dos veículos de comunicação tornou-se financeiramente dependente da publicidade das plataformas de apostas. Não é difícil encontrar transmissões esportivas, programas de rádio, canais de televisão, podcasts e portais de notícias inteiramente patrocinados pelas chamadas “bets”. O resultado é um evidente conflito ético. A cobertura jornalística sobre os efeitos devastadores do jogo torna-se tímida justamente quando deveria ser mais firme, investigativa e independente.
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O jornalismo nasceu para iluminar zonas de sombra, não para escondê-las. Sua missão é revelar aquilo que muitos preferem ocultar. Por isso, é urgente realizar uma ampla radiografia dessa epidemia silenciosa. Quantas famílias foram destruídas? Quantos jovens abandonaram os estudos? Quantos trabalhadores perderam o emprego? Quantos patrimônios desapareceram? Quantos suicídios tiveram como um dos fatores desencadeantes o desespero provocado pelas apostas? Essas histórias existem. São reais. Mas permanecem dispersas, pouco investigadas e frequentemente tratadas como episódios isolados.
É evidente que o suicídio costuma resultar da combinação de múltiplos fatores psicológicos, sociais e pessoais. Seria irresponsável estabelecer relações automáticas de causa e efeito. Mas é igualmente irresponsável ignorar o papel que a dependência do jogo desempenha em inúmeros casos. Esse vínculo precisa ser estudado com rigor científico e investigado com seriedade pelo jornalismo.
Não basta informar resultados de campeonatos, divulgar probabilidades ou reproduzir campanhas publicitárias. A imprensa precisa recuperar sua vocação pedagógica e seu compromisso com o interesse público. É indispensável explicar como funciona a engenharia psicológica das plataformas, ouvir especialistas, divulgar experiências de recuperação, orientar pais e educadores e alertar a sociedade para os sinais precoces da dependência.
Apostar passou a parecer tão natural quanto assistir a uma partida de futebol. Essa banalização das bets talvez seja sua face mais destrutiva
Vivemos uma perigosa normalização da aposta. Ela invadiu as transmissões esportivas, as redes sociais, os aplicativos e as conversas cotidianas. Apostar passou a parecer tão natural quanto assistir a uma partida de futebol. Essa banalização talvez seja sua face mais destrutiva, porque anestesia a percepção do risco e transforma uma atividade altamente viciante em simples entretenimento.
O jogo do bicho era ilegal, mas visível. As bets são legais, sofisticadas e infinitamente mais perigosas. Entram em nossas casas pela tela do celular, seduzem com promessas de ganhos fáceis e corroem silenciosamente vidas, famílias, patrimônio e sonhos. Antes que mais brasileiros sejam tragados por essa verdadeira roleta da morte, é preciso romper o silêncio. Esse é um dever do Estado. É uma responsabilidade das empresas. Mas é, sobretudo, um imperativo moral do jornalismo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Carlos Alberto Di Franco é bacharel em Direito, especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, diretor do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia do ISE, professor convidado na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma), diretor da Di Franco Consultoria em Estratégia de Mídia e consultor de Empresas Informativas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



