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O título deste artigo repercute recente editorial do jornal O Estado de S.Paulo intitulado “A necessária defesa da família”. Para o jornal, “cuidar da família não é bandeira ideológica ou religiosa. É zelar pela fundamental rede de apoio afetivo, social e econômico a que se recorre em primeiro lugar”. O texto, certeira e corajosamente, encerra com uma afirmação redonda: “A família é tema de interesse público”.
Aproveito o oportuno gancho do Estadão para refletir sobre uma realidade essencial, mas muito maltratada ou ausente do debate público.
Família não é problema. É solução. A desestruturação da família, ao contrário, está na raiz de inúmeros problemas. Os conflitos familiares são, por exemplo, a principal causa que leva os jovens para o mundo das drogas. Embora exista uma série de fatores que podem fazer com que os jovens experimentem as drogas e se viciem (predisposição genética, fatores de personalidade, pressão do narcotráfico), a estruturação familiar é decisiva.
Família não é problema. É solução. A desestruturação da família, ao contrário, está na raiz de inúmeros problemas
Não há nenhum âmbito de crescimento humano e ético, nenhum ambiente educativo, nenhum “coletivo” tão propício e eficaz para o cultivo das virtudes como a família bem estruturada. E isso é de suma importância, levando em consideração que, no mundo atual, cada vez aparece mais evidente que a sociedade precisa do oxigênio vital das virtudes. Decadência social e ignorância ou desprezo pelas virtudes são a mesma coisa.
A não ser que hoje ainda se considerem vigentes as afirmações feitas pelo poeta Paul Valéry, em famoso discurso à Academia Francesa: “Virtude, senhores, a palavra ‘virtude’, já morreu ou, pelo menos, está em via de extinção (...). Receio que não exista jornal algum que a imprima ou se atreva a imprimi-la com outro sentido que não seja o do ridículo. Chegou-se a tal extremo que as palavras ‘virtude’ e ‘virtuoso’ só podem ser encontradas no catecismo, na farsa, na Academia e na opereta”.
Seria de desejar que atitudes desse tipo tivessem ficado enterradas no passado. Quando Valéry falava, “virtude” sugeria limite, enquadramento, barreira obsoleta, num ambiente ébrio do vinho novo da liberdade. A centralidade da virtude na formação do ser humano havia cedido espaço à liberdade sem limites, numa eufórica erupção de individualismo egocêntrico (que, paradoxalmente, na primeira metade do século 20 descambou nas duas maiores tiranias da história). A sociedade atual, com suas mazelas, com os preocupantes desvios de comportamento (basta pensar na escalada da violência, na epidemia da corrupção e no inferno das drogas), é de molde a reacender uma autêntica “saudade das virtudes”.
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Remontemos à sabedoria dos gregos. Qualquer estudioso da Antiguidade clássica sabe que entre os poetas e filósofos gregos – e, posteriormente, entre seus discípulos latinos – a grandeza do ser humano estava indissociavelmente vinculada à “aretê”, conceito de rico conteúdo cuja tradução mais aproximada, na linguagem moderna, é precisamente a de “virtude”. O homem vulgar – recorda Werner Jaeger na sua famosa Paideia – não tem “aretê”. E, nas pegadas de Sócrates, Platão reiterará que a virtude, a “aretê”, é a que torna a alma bela, nobre e bem formada, a que abrange e eleva o “humano” em sua totalidade e irradia depois como glória na vida da comunidade.
Pois bem, perante isso, parece preciso perguntar-nos: onde é que a juventude aprende a “aretê”, a virtude, que deve ser, acima de tudo, um valor reconhecido pela criança, pelo adolescente e pelo jovem, uma convicção enraizada, uma prática exercitada com empenho, da qual depende o bem da pessoa e da sociedade?
É na família, na autêntica família, mais do que em qualquer outro quadro de convivência, o “lugar” onde podem ser cultivados os valores, as virtudes e as sábias “tradições” que constituem o melhor fundamento da educação para a cidadania
A família, sim, a família já foi e deveria ser agora o caldo de cultura mais propício para a descoberta, a valorização, o aprendizado e a prática das virtudes. Mas em que pé está a família entre nós? Será que há algum empenho dos poderes do Estado em fortalecê-la como estrutura vital e ética indispensável para a construção do bem da sociedade? Creio que não está longe da verdade afirmar que, aparentemente – a julgar por alguns projetos de lei que rebrotam com frequência aqui e ali –, nota-se mais um empenho, da parte das cúpulas do poder, em desestruturar a família.
Não terá chegado já o momento em que os responsáveis pelos destinos do Brasil, em vez de se dedicarem a lançar lenha na fogueira onde se incineram os valores familiares, voltem a sua atenção para a família, conscientes de que está – em boa parte por culpa deles mesmos – frágil e doente? Eu não duvido de que é na família, na autêntica família, mais do que em qualquer outro quadro de convivência, o “lugar” onde podem ser cultivados os valores, as virtudes e as sábias “tradições” que constituem o melhor fundamento da educação para a cidadania. Só assim, não duvidemos, construiremos uma sociedade justa e democrática.
A crise ética que castiga amplos segmentos da vida pública brasileira, fenômeno impressionante e desanimador, tem seu nascedouro na crise da família. Os homens públicos não são fruto do acaso, mas de sua história. A virada ética, consistente e verdadeira, começa no âmbito familiar. A família é, de fato, tema de interesse público.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Carlos Alberto Di Franco é bacharel em Direito, especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, diretor do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia do ISE, professor convidado da Faculdade de Comunicação Social Institucional da Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma), diretor da Di Franco Consultoria em Estratégia de Mídia e consultor de Empresas Informativas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



