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A escola inimiga da inteligência
| Foto: Ernesto Eslava/Pixabay

Nassim Taleb, entre outras tantas coisas interessantes, disse que o famoso teste de QI (“quociente de inteligência”) mede não a inteligência, mas a capacidade de obter bons resultados em testes de QI. Ele tem uma boa dose de razão, na medida em que há usos (logo capacidades) do intelecto que o famoso teste não mede. A profissão dele – corretor de valores –, em que foi extremamente bem-sucedido, é uma delas. Há muitas outras.

O resultado do teste, entretanto, é excelente indicação da capacidade acadêmica, correlacionando-se de maneira quase perfeita aos resultados escolares mundo afora. Por definição, o QI médio corresponde a 100. Tratando-se todavia de um teste desenvolvido no Primeiro Mundo, presume-se que seja boa a formação escolar de quem é submetido ao teste. Aplicado ao brasileiro, vitimado por um sistema escolar que não apenas deixa de ensinar, mas impede ativamente o desenvolvimento das capacidades do aluno, o resultado médio costuma ficar em torno dos 83.

Isto evidentemente não significa que sejamos uma nação de idiotas; é apenas outra prova do fracasso absoluto de nosso sistema escolar. Para piorar ainda mais a situação, o sistema escolar brasileiro vem piorando dramaticamente ao longo das décadas. As causas da decadência são várias, e já tratamos de algumas aqui neste aconchegante espacinho. Hoje veremos, a vazante delas, um dos resultados mais tristes e graves de nosso sistema deseducativo. Coisa simples, simplória mesmo.

A escola brasileira busca ativamente a mediocridade, e prefere taxar os alunos inteligentes de “rebeldes”, “indisciplinados”, “com problemas de atenção” e outros apodos vexatórios

A escola deveria ser o lugar de desenvolvimento da inteligência, como o conservatório de música é onde desenvolvemos uma de tantas formas da capacidade humana de produzir beleza. Assim como um menino-prodígio do piano está em seu perfeito habitat no conservatório, muito mais que numa quadra de futebol ou no próprio quarto, a criança ou adolescente com inteligência um tantinho que seja acima da média deveria sentir-se em casa na escola. Não há em nosso país, no entanto, ambiente que lhe seja mais hostil. A escola brasileira busca ativamente a mediocridade, e prefere taxar os alunos inteligentes de “rebeldes”, “indisciplinados”, “com problemas de atenção” e outros apodos vexatórios. O problema não se restringe àquele um aluno em 40 com QI igual ou maior que 130, logo por definição superdotado. Basta que a vítima tenha inteligência um nadica de nada acima do esperado pelo sistema para ser sistematicamente punida pelo sistema, na razão direta da inteligência de que “sofre”. Deixo de lado neste texto, por justiça, os raríssimos casos de inteligência estratosfericamente acima da média; estes sofreriam em qualquer sistema coletivo de ensino. O próprio Albert Einstein cavou aos 15 anos de idade um atestado médico para fugir da escola que odiava.

Acaba havendo uma relação bastante direta entre a inteligência e o abandono do sistema escolar, quando ela é superior à média. Na melhor das hipóteses, o filho de uma família que preza muito os diplomas e tem como pagar escolas particulares passa 12 ou 13 anos pulando de escola em escola em busca de um ambiente menos insuportável. A triste regra geral é que o menino inteligente seja depositado em instituições públicas e acabe desistindo do sistema muito antes de concluir o ciclo escolar. Não é de se espantar que os encarcerados em penitenciárias de segurança máxima tenham um QI médio altíssimo e uma taxa de conclusão do ensino médio baixíssima. Quando nos damos conta de que metade dos alunos de qualquer escola terá por definição QI superior à média dos colegas, começa a tornar-se clara a gravidade da situação. Enquanto os alunos com baixo QI (ou, para horror das pedagogas politicamente corretas, “mais burrinhos”) têm em geral acesso a programas de complementação e reforço, são abandonados e espezinhados os que têm o “problema” oposto.

Este, evidentemente, não deveria jamais ser um problema; afinal, estamos falando aqui exatamente de gente que tem talento natural para o estudo. Quem deveria estar como um peixe n’água mal consegue se manter úmido em nossa vasta e estúpida burocracia escolar. A hostilidade aos alunos inteligentes, como todos os demais sinais de degradação do sistema escolar brasileiro, só fez aumentar ao longo das décadas. Foi atingido no século passado o ponto de que não há mais volta, quando o magistério se tornou habitat preferencial de medíocres e submedíocres. Em livros antigos é comum encontrar a orgulhosa afirmação de ser o autor “Professor Catedrático do Colégio Pedro II”. Era motivo de orgulho justificado, garantia da qualidade do livro e da profundidade do conhecimento do autor e mestre. Já hoje, só o que se sabe de professores do mesmo colégio-modelo federal é que volta e meia vão lecionar vestindo uma sainha plissada. A ciência cedeu o lugar à “lacração”. Noutros tempos, Malba Tahan lecionou Matemática para minha avó e Paulo Rónai, Latim para minha tia. Hoje é raro, raríssimo, o professor capaz de escrever um parágrafo em bom vernáculo. As professoras de português, aliás, não são exceção a tal triste regra.

Afinal, os alunos de licenciatura de hoje são necessariamente gente que completou o ciclo escolar. Quem escolhe os cursos de licenciatura é gente que estava feliz naquele ambiente submedíocre e emburrecedor. Gente, em outras palavras, que provavelmente tem QI um tantinho abaixo da média, fazendo assim parte do “público-alvo” de nosso sistema. Gente que se sente feliz quando se lhe pede que decore besteiras e as repita quando instado, esquecendo-as por completo ao fim do ano. Gente que não vê problema algum na descontinuidade – ou mesmo irracionalidade – das progressões didáticas. Gente que sempre foi capaz de sentar e prestar atenção em inanidades por 50 minutos, mudando então de canal ao tocar de um sino pavloviano e dedicando-se a outra série inútil de inanidades. Gente que jamais viu problema algum no fato de as matérias escolares tupiniquins não terem ligação alguma com a realidade, mesmo quando em tese deveriam apresentar a explicação científica das mesmas realidades. Gente que achou ótimo “estudar literatura” sem jamais precisar ler um livro. Gente, em suma, meio burrinha.

Desapareceram as antigas Escolas Normais, lotadas de moças de classe média criadas por pais estudados em lares com farta biblioteca. O magistério fundamental era um dentre os muitos modos como a classe média brasileira cumpria seu dever social, movida pela viva percepção de que o privilégio obriga à retribuição. Seu lugar foi tomado por gente formada em cursos ditos superiores de Pedagogia, que nem são superiores nem ensinam pedagogia alguma. Pior ainda: tais cursos são conhecidos como “fáceis”, e a maior parte do corpo discente que lá está se sabe incapaz de completar qualquer outra licenciatura. Gente bem-intencionada e de bom coração, mas quase sempre oriunda de lares sem livro algum; gente que nunca leu um livro inteiro, que dirá ter herdado dos pais o hábito de ler por prazer. Muito frequentemente é a primeira pessoa da família a pisar numa faculdade. Mais frequentemente ainda acumulam tamanha quantidade de carências fundamentais e lacunas de formação que até mesmo a leitura técnica ou o uso da lógica mais elementar lhes é difícil ou impossível.

Numa de minhas licenciaturas (sou viciado em lecionar como o Estado brasileiro o é em demandar canudos, fazer o quê?) percebi uma constante pedagógica chocante. Ao contrário dos professores de outras faculdades, pródigos em deixar capítulos no bendito xerox, os docentes da faculdade de Pedagogia abstinham-se por completo de indicar leituras extraclasse. Tal como os alunos de outros cursos liam capítulos por não ler livros, os de Pedagogia não liam nada em casa, por não ler. Ponto. Mas não parava por aí a práxis sumamente realista dos lentes, que faziam questão de ler em voz alta na sala os textos (sempre curtos) dados aos alunos. Estes, por sua vez, no mais das vezes moviam os lábios enquanto acompanhavam com o dedo na página a leitura do professor. Certamente por constatação empírica reiterada a cada semestre, os mestres tinham certeza do analfabetismo funcional dos discípulos. Que por sua vez estavam ali, lembro, em busca do canudo requerido para ensinar às criancinhas as primeiras letras e as quatro operações. Instituiu-se na prática uma reserva de mercado que restringe a uma classe majoritariamente analfabeta a profissão de alfabetizador. Os efeitos de semelhante absurdo são visíveis e notáveis por toda parte, inclusive nas escolas particulares mais caras. Em tempos menos selvagens, as filhas da classe média levavam aos filhos dos pobres os instrumentos de base para a aquisição da herança cultural de nossa civilização; hoje é apanágio das filhas dos pobres a permissão estatal de lecionar a ricos, pobres e remediados aquilo que na verdade não dominam.

Malba Tahan lecionou Matemática para minha avó e Paulo Rónai, Latim para minha tia. Hoje é raro, raríssimo, o professor capaz de escrever um parágrafo em bom vernáculo

Assim como o sistema seleciona criteriosa e cuidadosamente os medíocres e submedíocres e só a eles restringe o privilégio de poder lecionar, ele traumatiza e espanta os mais inteligentes. Mesmo nos raros casos em que conseguem chegar ao fim do ensino médio, os que têm um QI de três dígitos lembram-se da escola como um lugar de pesadelo. Toda classe era uma sala de tortura em que eram proibidos de dar vazão à paixão pelo estudo e aprendizado. Ao contrário: naquele inferno dantesco eram forçados a fingir de morto por horas intermináveis, ao longo de dias que pareciam semanas, semanas que pareciam meses, meses que pareciam anos e anos que pareciam séculos. Muitos foram repetidamente punidos por terem sido flagrados a ler um livro por baixo da mesa depois de completar rápida e corretamente um exercício qualquer. Inúmeros, para ter algum estímulo, algo que os fizesse se sentir vivos, direcionaram a criatividade e inteligência sufocadas pelo sistema à urdidura de peças complicadíssimas que pregavam nos professores e bedéis. Lembro-me de uma vez em que um coleguinha inteligente numa minha sala de ginásio empilhou mesas de pingue-pongue no pátio até quase a janela da sala, no segundo andar, para que à entrada de uma professora chatíssima pulássemos todos gritando “adeus, mundo cruel”. Até os piolhos da barba de Freud perceberiam que a simulação de suicídio em massa bradava aos sete ventos como o moleque via a escola. Afinal, pobrezinho, não era burro.

O ciclo vicioso de submediocridade que reina no sistema escolar faz com que diminua a cada geração a já ínfima parcela de professores capazes de simplesmente reconhecer a inteligência superior à média de um aluno. Para o professor médio hodierno, “inteligente” é quem se conforma perfeitamente ao sistema, não quem tem uma cabecinha que funciona depressa. Tamanha é a cegueira à inteligência dos docentes e educratas em geral que é simplesmente ignorada a realidade de haver em média um superdotado em cada uma das vastas turmas em que são arregimentadas as vítimas do sistema escolar. Não se chega sequer a negar a existência de superdotados nas escolas, exatamente como nelas não se nega nem se afirma a existência de Tuéris, a deusa egípcia da fertilidade. Assim como pouquíssimos sabem que um dia já houve tal culto, e por isso ele jamais é considerado, a superdotação é para os operadores do sistema escolar tupiniquim algo em que ninguém nunca pensou. Por isto mesmo não se a leva em consideração, menciona ou aborda, quer institucional quer pessoalmente. É uma realidade mais obscura que o lado escuro da lua. Os superdotados são simplesmente ignorados e categorizados como portadores de desordem de atenção ou encrenqueiros. Cria-se assim um ciclo vicioso em que o inteligente é duplamente punido. Somam-se sobre seu lombo sofrido a falta permanente de estímulos positivos e a reiteração cotidiana dos negativos: broncas dadas pelos professores, idas à sala da coordenação para broncas mais formais, suspensões, expulsões e quetais.

Os mais pobres, claro, são os que mais sofrem. Afinal, a insistência dos pais mais abastados acaba no mais das vezes a empurrar os filhos à conclusão do ensino médio (muitas vezes num colégio do tipo “pagou-passou”, em que ninguém dá atenção a irrelevâncias como a frequência às aulas) para que possam cursar uma universidade. Já a menina brilhante, ou simplesmente mais inteligente que a média, que por desventura na loteria da vida nasceu em família pobre provavelmente abandonará a escola para trabalhar. A clara inutilidade da escola faz com que lhe pareça evidente que mesmo um subemprego seja um uso melhor do tempo. Se a escola lhe houvesse reconhecido os talentos e estimulado os interesses, seu rumo seria outro. Sem esta oportunidade ocorre o pior: ela não descobre que há coisas maravilhosas e fascinantes ao alcance dos dedos. Que ela poderia aceder a mundos deslumbrantes e explorar suas infinitas riquezas usando o simples celular que ignora servir para fins intelectuais pela simples razão de desconhecer por completo a possibilidade de estudar, de aprender. O que passa por “estudo” na escola é o oposto do estudo real, envenenando o termo e impedindo na prática a descoberta de seu sentido real.

Já a filha de uma família remediada, com horizontes intelectuais pouquinha coisa que seja mais amplos, muitas vezes acaba encontrando algum campo de estudo que a fascine e mergulhando nele pela mesma internet. Para uma o armário abre-se para Nárnia; para outra ele é no máximo uma janela para que Felipe Neto ou sucessivos tiktokers desliguem-lhe o cérebro por algum tempo. Esta trocará a inútil escola pelo subemprego; aquela será empurrada pela família até a formatura no famigerado Terceirão. Dando uma olhada na diagonal nas matérias fora da área de interesse, o Enem está no papo e escancaram-se de par em par as portas de alguma universidade pública (em que são raros os pobres...). É claro que lá ela encontrará outros problemas, mas é quase certo que venha a achar um que outro mestre que a estimule o bastante para chegar ao fim do curso. Que, por óbvio, não será uma licenciatura. E assim continuam os ciclos viciosos que tanto mal fazem a nosso país.

Não há como se “dar um jeito”. Como dizem os mecânicos, “o problema é de junta: tem que juntar tudo e jogar fora”. O sistema escolar brasileiro é viciado desde a base, e seria mais fácil criar outro do zero que reformar o que aí está. Um que outro diretor de escola com QI de três dígitos, antes a regra e hoje coisa cada vez mais rara, pode bolar alguma coisa. Se os educratas de plantão resolvessem voltar os olhos bovinos ao problema, por outro lado, é certo que suas “políticas públicas” só o piorariam. Afinal, são eles os responsáveis pela manutenção da palhaçada que faz as vezes de escola no Brasil.

Os mais inteligentes e talentosos são o fermento que leva a sociedade a enriquecer-se, em todos os aspectos. Quando seus interesses não encontram objeto, seus talentos não são estimulados e suas capacidades não são desenvolvidas, o que temos é o suicídio de uma sociedade

Quem mais pena, quem mais sofre, somos todos nós. Toda a coletividade sofre quando a vasta maioria da população é composta de gente perfeitamente capaz que o sistema escolar mastigou por anos para aprisionar no analfabetismo funcional. Que após anos de tortura é incapaz de ler um texto simples e entendê-lo, que dirá de escrever um parágrafo que seja. Que não sabe somar ou dividir sem uma calculadora, e mesmo com ela tem problemas. Que tem ao alcance da mão acesso gratuito e imediato a uma vastidão inaudita de conhecimentos, mas que nem sabe que o celular serve para algo que não as redes sociais e os vídeos de inanidades. Talentos fabulosos são sufocados em escala industrial. Descobertas que poderiam salvar vidas deixam de ser feitas. Os vocacionados ao estudo são expulsos do que deveria ser-lhes segundo lar, enquanto os que não têm vocação alguma o ocupam e o envenenam.

Os mais inteligentes e talentosos são o fermento que leva a sociedade a enriquecer-se, em todos os aspectos. Quando eles são ativamente perseguidos, quando seus interesses não encontram objeto, seus talentos não são estimulados e suas capacidades não são desenvolvidas, quando a mesquinharia anti-intelectual rouba deles a herança que lhes é devida, o que temos é o suicídio de uma sociedade. Um país em que sufocamos no berço tudo o que lhe poderia dar ou aumentar a grandeza. Uma terra em que a geração dos bisnetos de Pixinguinha urra, desafinada, funks pornográficos e as melhores mentes de cada geração atrofiam diante de telas que poderiam apresentar maravilhas, mas só dão a ver a mais rematada imbecilidade. Em que tudo, até mesmo a política, tem de ser importado de fora.

O Brasil mata seu futuro ao sufocar a mente de cada filho seu.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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