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Carlos Ramalhete

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Abuso sexual

  • PorCarlos Ramalhete
  • 23/11/2017 03:00
Pixabay
Pixabay| Foto:

O homem, em comparação à mulher, é normalmente mais agressivo. Está nos genes, está na própria conformação fisiológica do homem: maior, mais forte, com a genitália projetada para fora, etc. A mulher, por sua vez, é naturalmente mais acolhedora; basta olhar o corpo feminino para perceber isso. Esta diferença, essa mescla de agressividade de um lado e acolhimento do outro, alcança seu ponto máximo no sexo, quando o homem é acolhido pela mulher numa situação de dominação praticamente absoluta por parte dele: maior, mais forte, num lugar isolado, normalmente por cima.

O fato de que seja esse o mecanismo, e delicioso mecanismo, pelo qual ocorre a perpetuação da espécie faz com que se torne necessário para o bem de todos que haja algum tipo de controle social, para impedir que a agressividade masculina ocorra fora de propósito e contra a vontade feminina. Toda sociedade precisa de mecanismos para se precaver do abuso sexual. Afinal, isso é o que grande parte dos homens fará se não for contida, preferencialmente pela própria consciência. Alguns agrupamentos paleolíticos simplesmente deixam para lá e consideram o estupro coisa normal, com a mulher estando ali para que qualquer homem se sirva. É célebre o caso de um antropólogo canadense que se casou com uma índia dita ianomâmi e, por não aguentar saber que a esposa era estuprada regularmente assim que ele saía de perto, levou-a para sua terra, onde ela viveu um tempo e depois voltou, sozinha, para a tribo de origem.

A nossa sociedade tem, ou melhor, tinha esses mecanismos, de maneira extremamente civilizada e desenvolvida, para a proteção da mulher. O primeiro ponto, e mais importante, é que o sexo só poderia ocorrer dentro do casamento. Com isso, cortava-se pela raiz qualquer expectativa de sexo “gratuito”, ou seja, sem que houvesse um compromisso sério para com a moça e, mais ainda, para com as crianças que venham a nascer dessa relação. A indissolubilidade do matrimônio garantia que a mulher não fosse abandonada após ter tido filhos e perdido a forma física dos áureos tempos. A força e a agressividade masculina eram socialmente dirigidas para o cavalheirismo, fazendo com que o homem considerasse seu dever proteger a mulher, usar em benefício dela aquela mesma força e agressividade que numa sociedade mais primitiva poderia ser usada contra ela.

Mas os revolucionários de Maio de 1968 desmontaram tudo isso. Como uma criança que desmonta um brinquedo sem perceber que o está destruindo, a revolução atacou o que percebia como “hipocrisia”, sem se dar conta de que a hipocrisia é a vênia que o vício presta à virtude. O que havia, e sempre haverá em qualquer sociedade humana, era gente que não correspondia àquilo que ela mesma considerava certo. Mas o que se considerava certo estava realmente certo. Era aquela a melhor maneira de proteger a mulher.

Com a chegada da pílula anticoncepcional, deslanchou completamente a dita Revolução Sexual, para alegria dos rapazes e tremendo prejuízo feminino. Antes da Revolução Sexual, a mulher tinha a faca e o queijo na mão; sabedora de que era ela a buscada, ela, a perseguida, a mulher podia demandar do homem o que quisesse antes de entregar-se a ele. Evidentemente, o que deveria ser demandado seria o casamento, mas mesmo a moça que resolvesse ter vida sexual ativa antes de se casar continuava em posição privilegiada. O seu “sim”, afinal, tinha ainda o valor quase infinitivo de responsabilizar-se por ela e por sua prole pelo resto da vida. Com a Revolução Sexual, o valor da mulher no mercado sexual caiu para zero. Passou a ser quase esperado, em muitos meios, que a moça se entregasse por muito menos que “uma joia falsa, um sonho de valsa, ou um corte de cetim” que cantou Chico Buarque. Ceder às investidas sexuais masculinas passou a ser quase uma obrigação social em alguns meios.

Com isso, a agressividade masculina cresceu exponencialmente, e passou a ser diretamente aplicada às mulheres. Tornou-se normal, nas gerações subsequentes, que as moças fossem praticamente forçadas ao sexo em situações nada agradáveis: “testes do sofá” no trabalho, “provas de amor” em relações românticas, por exemplo, tornaram-se mais a regra que a exceção em muitos ambientes.

Agora, finalmente, lancetou-se esta ferida purulenta do tecido social, com a campanha importada dos EUA em que se incentiva as moças a contar quando foram vitimadas. Tornou-se subitamente visível o quanto as mulheres vêm sendo vitimadas e agredidas pela perda dos mecanismos de controle social ocorrida na Revolução Sexual.

O que mais chama a atenção nas tristes situações que vêm vindo à luz, contudo, é a incapacidade das moças de reagir. Criadas em um ambiente em que a entrega de seu corpo não tem valor, elas não sabem dizer “não” de forma efetiva, não sabem se livrar de maneira elegante de assediadores grosseiros. Afinal, a esmagadora maioria dos casos que vêm vindo à baila não pode ser considerada como estupro. São atos extremamente grosseiros, mas não mais que isso: homens que criam braços, como polvos, e se põem a apalpar as moças; homens que abraçam e beijam as moças à força; homens, em suma, que não respeitam as mulheres por terem sido, como elas, criados em uma sociedade mais próxima à dos ditos ianomâmis que à de seus avós.

As respostas também são péssimas: as escoteiras americanas, por exemplo, lançaram uma campanha propondo que as meninas não sejam instadas a abraçar e beijar parentes nas festas de família. É prova cabal e completa de que não entenderam o que está acontecendo. O problema não é que as moças tenham sido treinadas para nunca dizer “não” ao serem instadas a abraçar tias velhas quando eram criança. Seria ridículo. Apenas uma pessoa tremendamente depravada perceberia algo de sexual em beijar a bochecha murcha de Tia Glorinha na noite de Natal. O problema é sexual, e diz respeito ao modo como as pessoas se relacionam com o sexo, não com outra coisa. O problema, em última instância,  é que o valor da entrega feminina caiu a perto de zero, fazendo com que as moças não tenham mais condições de negociá-la de modo vantajoso nem a prática necessária para saber fazê-lo. O problema é que o cavalheirismo, que levaria os homens a buscar respeitar mais e mais a mulher, foi e é desincentivado pela sociedade. O problema é que sexo, reprodução e matrimônio passaram a ser percebidos como coisas sem relação alguma.

É necessário que, no mínimo, as moças aprendam a livrar-se sozinhas de homens-polvo, pois é quando elas estão sozinhas com eles que os braços extras tendem a aparecer. Elas devem ser fortes, mais ainda por a sociedade ter-lhes retirado o auxílio do cavalheirismo. Elas devem conseguir evitar por conta própria as situações de risco, porque a sociedade retirou-lhes os mecanismos de proteção. Elas devem se valorizar, porque a sociedade negou-lhes liminarmente qualquer valor.

E, socialmente, é preciso que se combata fortemente o estupro, que deve ser investigado e levar sempre à punição, e punição vigorosa, do culpado. Para isso, contudo, é necessário que se separe o que é mero comportamento grosseiro da parte de homens desrespeitosos e o que é real violação física. Se se deixa misturar com o estupro a cantada barata, o exibicionismo em particular ou o famoso homem-polvo, o lucro é do estupro, que passa a ser, por associação, considerado menos grave.

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