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Construir a si mesmo
| Foto: Nihan Güzel Daştan/Pixabay

Semana passada apliquei aqui minha já previsível prolixidade à loucura que é o vício em energia da sociedade de consumo. Hoje vou um pouco mais fundo: de onde vem, em última instância, a possibilidade de uma sociedade cujo fim último é a destruição, ao ponto de hoje parecer evidente que a destruição (consumo) seria algo bom? Como pode existir uma sociedade que emprega recursos imensos de energia para minar, transformar o minado em algum badulaque impossível de reciclar e, um ou dois anos depois, enterrar o badulaque no lixão? Enquanto o que sobra de praticamente toda sociedade antiga é recipiente quebrado, a nossa produz diariamente, a preço caríssimo de energia e material, toneladas mil de lixo tóxico, depositado em aterros donde continuarão a contaminar o solo e a água por milênios. Donde pode vir tamanha loucura?

Sua origem, diria eu, é a perda de noção de nossa natureza humana comum. Enquanto qualquer outra sociedade na longuíssima história de nossa espécie percebia seus membros como homens (indo no mais das vezes além e classificando-os como homens, mulheres, cidadãos, metecos, escravos, o que fosse), a nossa civilização perdeu completamente esta noção. Isto ocorreu, claro, por etapas. A partir do momento em que o nominalismo de Occam começou a dar frutos na política e na religião, inaugurando a era moderna que ganhou a preponderância nas grandes revoluções do fim do século 17 e alcançou seu auge no segundo quarto do século 20, cada homem foi-se aos poucos sendo visto mais e mais como uma ilha. Até mesmo o triste retorno da escravidão no dito Renascimento é um pouco fruto desta mentalidade.

Se não há uma natureza humana comum, o homem é forçado a fabricar-se ou a ser fabricado pela sociedade. O segundo método é o que levou à delirante tentativa de construir o Novo Homem Soviético ou Ariano, quando aplicado em grande escala. A primeira é a que levou ao conto do self-made man, literalmente “homem construído por si mesmo”. A tal “construção”, todavia, o que o tal homem pôde construir “por si mesmo” no seio duma sociedade individualista, não é um homem, mas uma série de posses e propriedades. É self-made man quem da pobreza passa à riqueza, pois ter faz as vezes de ser.

Se não há uma natureza humana comum, o homem é forçado a fabricar-se ou a ser fabricado pela sociedade. O segundo método é o que levou à delirante tentativa de construir o Novo Homem Soviético ou Ariano, quando aplicado em grande escala. A primeira é a que levou ao conto do self-made man

Mas que tanta coisa é essa que se pode ter? É aí que entra a técnica – que se faz hoje de “ciência”, tomando o fruto pela árvore; o papel da técnica na sociedade moderna, em última instância, consiste em criar mais coisas que se possa ter. Mais badulaques para o lixão. Mais e mais minúsculos, ínfimos confortos, como a diferença entre duas gerações de iPhones. O poder existente em qualquer sociedade, o poder buscado pelos seus adoradores (que sempre houve) era o poder sobre os homens, o poder sobre a massa. Hoje, contudo, este é apenas um pequeno aspecto, que no mais das vezes é, até mesmo ele, subordinado ao poder da técnica. É mais importante ter o botão da bomba atômica – logo, a capacidade técnica potencial de obliterar toda vida na Terra – que poder, como o centurião de Cafarnaum, dizer “vai” ou “vem” e ver o soldado obedecer.

Mas a construção de si, necessária quando não se percebe ou não se crê que se tem exatamente a mesma natureza dum faraó, dum escravo ou dum mercador de há 5 mil anos, tem inúmeras outras facetas. Todas elas, aliás, facilitadas pela técnica. A primeira dela, na vida de quase qualquer um, é aquela passagem da infância à idade adulta que a sociedade moderna transformou aos poucos num longo e dolorido processo de construção de si. É na adolescência que a transformação de “sou o filho de Fulano e Beltrana” é substituída por várias identidades construídas ou adotadas. Ou, pior ainda, adotadas sob a ilusão de se estar construindo algo. Daí os góticos, os otaku, os radtrads e todos os outros compradores duma “identidade” tão única quanto um sanduíche do McDonald’s, usada para distanciar-se da identidade infantil.

O percurso vai continuando ao longo dos anos, com ressignificações de cada antigo rito de passagem. O casamento, por exemplo, sempre foi em toda e qualquer cultura o momento de assumir plenamente a responsabilidade social de continuação da espécie. Agora, todavia, ele passou a ser uma espécie de “celebração da entrada na via adulta”, completamente desligado da reprodução e da própria responsabilidade social. Seu papel é mais semelhante ao que antes era duma festa de 15 anos, por exemplo, que simbolizava a (súbita) passagem da infância ao mercado matrimonial. Na festa de casamento atual, que substituiu na prática tanto o sacramento quanto o próprio matrimônio natural anterior, o mais comum é que se tenha um casal que “brinca de casinha” há anos, impedindo a procriação com perigosos hormônios artificiais. E não há mudança real na festa de casamento; não há um antes nem um depois, não passa a haver abertura à vida nem responsabilidade social. O futuro – fim do matrimônio, afinal, que serve para gerar as próximas gerações e garantir cuidado e companhia no fim da vida – simplesmente não interessa. Não há esperança, não há um projeto de levar adiante o que se recebeu.

O que ocorre é única e exclusivamente uma celebração do “agora”, do momento em que eles já passaram no concurso, por exemplo, e conseguiram livrar-se de serem os filhos de Fulano e Beltrana ou Sicrano e Sicrana. Daí parecer tão “natural” que duplas do mesmo sexo, cuja possibilidade de procriação é nula, façam exatamente a mesma festa, com os mesmos símbolos e o mesmo significado de celebração do presente, em detrimento do passado e do futuro.

Mas mesmo eles vão procurar na internet gurus que lhes ensinem como cultuar Mammon ou Afrodite, ou como empacotar-se para que sejam percebidos como construtores bem-sucedidos duma identidade, duma humanidade própria. A natureza humana, que ignoram, jamais é o alvo do aprimoramento ou, se o é, o é por acaso. O que é o homem? Como ser aquilo que se nasceu para ser? O que é correto fazer? Como lidar com a morte? Todas estas perguntas essenciais são varridas para dentro do tapete. São abandonadas em prol de sucedâneos externos seus: como é o mindset do milionário? Como alcançar fama e fortuna? Como ser amado por todos? Como chegar aos 50 com aparência de 20?... Para cada pergunta dessas pululam gurus dispostos a responder, cobrando sabe-se lá quanto por uma dezena de vídeos gravados ou inutilidades semelhantes.

A pessoa, o ser humano, não cresce em idade mental, nem em sabedoria, nem, muito menos, em graça. Mais ainda por ser a graça gratuita; afinal, nada gratuito, assim como nada invisível e inostentável, é considerado digno de valor. Mais vale gastar o que não se tem para comprar um carro de que não se precisa para ir a um “emprego” que se detesta e que impede o convívio com a família, mas possibilita comprar coisas como aquele carro e a roupa que se usa para ir ao trabalho. É um ciclo vicioso sem fim, em que a construção dum falso “eu” totalmente externo, totalmente feito de acidentes, é só o que importa. Só na velhice, quando forçosamente se perde a maior parte dos acidentes tão duramente buscados, a desilusão vai cair com força e dor sobre a pessoa que sobreviveu tantos anos sem ter realmente vivido.

Mesmo a religião, que em tese deveria ser o locus de crescimento da alma, é externa. A forma do rito importa mais que o rito celebrado. O traje e a postura valem infinitamente mais que a pureza. Cálculos apocalípticos de fazer inveja a Newton fazem as vezes de preparação para a morte. Apontar e condenar os defeitos de outrem, mormente dos superiores, enquanto se endeusa um guru (no mais das vezes vivo, aliás) faz as vezes do exame de consciência.

A própria comunicação, em todos os seus aspectos sociais (e ou bem ela é social ou bem ela é orante; tertium non datur), acaba sendo, ela também, a venda ou a manifestação de compra dum pacote. Se o guru tem a boca suja e usa apelidinhos de quinta série, todos os discípulos esmeram-se em enfileirar os piores palavrões e criar os mais infantis apelidos para os que não têm a mesma identidade grupal que lhes faz as vezes de construção de si mesmo. Já se o guru idolatra a burguesia europeia do início do século passado ou a nobreza francesa do Ancien Régime, diz “oh, céus!” quando dá uma topada e come sanduíches de garfo e faca, eis que farão o mesmo os que lhe compraram um pacote pronto de personalidade.

Nada lhes é próprio, porque não há ninguém ali, ou pelo menos são incapazes de perceber que possa haver um “alguém” aquém do acidental, aquém do que é visto ou contado. É-se o dinheiro, é-se o pertencimento a um dado grupo, com seus códigos de vestimenta, de fala, do que for. E não se é, em absoluto, alguém no silêncio solitário do quarto. Não se é, em absoluto, alguém diante da Morte que a cada avanço do ponteiro do relógio mais se aproxima. Ao contrário, a morte passa a ser algo de que não se fala, algo que – como o parto – ocorre atrás das paredes e portas fechadas do hospital. Afinal, como bem disse o Santo Padre, enterros não são seguidos de caminhões de mudança. O que se leva desta vida, já disse também com muita propriedade o Barão de Itararé, é a vida que a gente leva.

O que sobra quando não aceitamos ser o que efetivamente somos? Chegada a morte cuja inexorabilidade tanto se tentou ignorar, o caixão estará vazio, ou cheio de algo odiento e inenarrável

E que vida é esta, se tudo o que se considera “ser” é aquilo que se tem? Do telefone à roupa, da roupa ao pertencimento grupal, o que mais haveria se não uma multidão de sinais externos a esconder um vazio gigantesco, em que não há nada? E a ausência total não ocorre por efetivamente não haver alguém ali, mas por ser impossível a quem pensa em tais termos discernir o que ou quem se é. Todo o essencial, todo o substancial, fica de fora. A natureza humana. A substância individual. Os talentos. Os vícios. As virtudes. A graça. Nada disso “está ali”, por nada disso ser visível ou ostentável. Não há oração se ela for feita de portas fechadas, mas uma foto rezando com a roupinha que identifica o membro desta ou daquela seita é mais um elemento de palco, mais uma muleta a sustentar uma “identidade” puramente externa, por não considerar em absoluto o que realmente faz do homem homem.

Quando há uma identidade é como no identitarismo pós-moderno, em que a epiderme, e/ou os desejos (e repito: deseja-se o que nãose tem, logo menos ainda se é!), e/ou a situação social, e/ou a profissão ou qualquer outra identidade grupal, faz as vezes de quem se seria de fato. Ora, sem que saibamos quem somos, sem que sequer tentemos perceber o quê somos – um homem, pois plantas, pedras e bichos não leem colunas de jornal, por exemplo –, sem que sejamos capazes de nos interrogar sobre nossos fins e origens, não há como nos aprimorarmos. Não há como alcançar nossos reais potenciais, como fazer com que deem fruto nossos talentos.

No fim, o que acontece é o previsível; o que sobra quando não aceitamos ser o que efetivamente somos? Quando não consideramos que possa haver alguém por trás de todos aqueles acidentes, todos aqueles sinais de riqueza, pertencimento, o que for? Chegada a morte cuja inexorabilidade tanto se tentou ignorar, o caixão estará vazio, ou cheio de algo odiento e inenarrável. Só o que pode sobrar do finado é um mito, uma historieta de alguém que um dia esteve na crista da onda, e depois deixou de existir ou virou, sei lá, uma estrelinha. Que jamais existiu e que não pode ser apontada para que não nos cresçam verrugas nos dedos.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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