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Peças de xadrez de Lewis, em exposição no Museu Britânico.
Peças de xadrez de Lewis, em exposição no Museu Britânico.| Foto: Fernandopascullo/Wikimedia Commons

Da minha janela eu vejo uma velha mangueira, de que pende um balanço de pneu. Nada mais brasileiro, poderíamos dizer. A palavra “manga”, contudo, vem do tâmul “mankay” através do malaio “manga”; ambos os termos referem-se ao fruto da Mangifera indica, nome científico da bela árvore que me presenteia com seus fartos frutos no verão. Seu nome científico aponta o mesmo que a etimologia do nome de seus frutos: é coisa da Índia, do outro lado do mundo. Os portugueses, na sua globalização mundo afora, trouxeram sementes às mancheias. Estas, por sua vez, sentiram-se em casa no nosso clima, e hoje são poucos os que sabem que a manga é tão brasileira quanto o sushi. Em outras palavras, brasileiríssima; afinal, onde mais se encontraria sushi de salsicha se não na nossa saudável bagunça?

Os índios caetés, ainda mais crentes no valor das palavras que um filósofo alemão, devoraram o bispo Sardinha. Nós, descendentes deles, devoramos, digerimos e fazemos nosso tudo o que nos vem às mãos. Do sushi à manga; das regras de trânsito e demais leis que podem ou não colar à divisão tripartite dos poderes do Estado; do terno à parca roupa das periguetes; da música africana à europeia; das treliças árabes à loucura das frutas secas na ceia de Natal... Tudo é nosso, e nada é “originalmente” nosso. Ou tudo o é; afinal, qual seria a “origem” das coisas? A evolução das espécies, dando a manga aos indianos e negando-lhes nosso aipim (ou macaxeira, ou mandioca, como preferir o dialeto de meu solitário leitor), mesmo negando a distância a proximidade de clima que nos une? Ou a invenção humana, talvez ainda mais evolutiva e condicionada que a bendita teoria darwinista?

Faz sentido que o sushi tenha surgido no Japão, aquele borrifo de pedras por sobre os mares do Pacífico Norte, onde jamais se teria mangas, mas facilmente se colhia arroz e pescavam-se peixes. Faz igual ou maior sentido que aqui o sushi tenha virado coisas embasbacantes pros kamis do xintoísmo, ao ser exposto à nossa deliciosa mistureba geral. Afinal, desde o início o que tivemos foi isto: aventureiros portugueses casando-se com filhas de caciques e dormindo em redes; africanos sequestrados e escravizados além-Atlântico libertando-se por esforço próprio do horror da escravidão, apenas para escravizar a outros; São Jorge sendo tomado por Ogum (que sempre digo ser na verdade o nome do dragão); os rituais judaicos sefaraditas transmutados em catolicismo marrano; a polca polaca gerando o choro carioca.

Nos Estados Unidos o bisneto de migrantes italianos ainda é “ítalo-americano”; o recém-desembarcado aqui já é brasileiro desde criancinha. Sem hífen, sem diferença, sem separação

Grande parte disto, desta capacidade de digestão cultural, vem do catolicismo cultural de nossa tradição. “Católico” significa “universal”, ou, mais estritamente, “de todos”. Sempre levamos muito a sério isso de “todos”, e juntamos no mesmo saco cheio de vida as inúmeras contribuições de cada povo que veio dar a estas terras e em menos de uma geração se tornou brasileiro. Com uma pizza, chucrute ou sushi devidamente abrasileirados, comidos a quilo e regados a cerveja gelada, e filhos casando-se apaixonados com os filhos de gente que veio de algum outro lugar do mundo. Temos mais descendentes de libaneses que o próprio Líbano, mantemos dialetos europeus esquecidos nas terras de origem, e ao mesmo tempo não passaria pela cabeça de ninguém “hifenizar” o brasileiro (pois quem acaba de chegar já o é), como é de praxe entre os pobres americanos. O bisneto de migrantes italianos ainda é, por aquelas bandas, “ítalo-americano”; o recém-desembarcado aqui já é brasileiro desde criancinha. Sem hífen, sem diferença, sem separação.

Daí minha profunda tristeza, a que se soma o alívio de saber frustrada de antemão a nefanda tentativa de nos separar, quando vejo gente tentando fazer valer aqui os horrores racistas que devastam nossos irmãos do norte. Li outro dia uma postagem em rede social de uma pobre coitada que invectivava “uma branca fazendo feijoada”, como se o preto do feijão viesse da melanina da cozinheira. Ora, cacildis (apud Mussum, o Magnífiquis), o feijão-preto é coisa de índio narigudo, oriundo da América Central e da Andina. Nossos pais portugueses, aliás, o levaram para a Índia, em deliciosa retribuição pela manga com que abri este texto, e por lá se come também uma espécie de feijoada (vegetariana, infelizmente) chamada karuppu karamani, incrementada com pedaços de coco.

A nossa feijoada é uma versão “americanizada” por feijões-pretos de um prato mediterrâneo multimilenar feito com feijões variados, originalmente oriundos da margem africana do Mare Nostrum e semeados nas demais pelos romanos. A feijoada (como qualquer outra coisa abaixo dos céus) não pertence a nenhuma suposta “raça”, mesmo por ser francamente ridículo usar tal noção num país que tem na miscigenação sem amarras a base genética da população! Exatamente, aliás, como o turbante de origem árabe e espalhado pelo universalismo escravagista islâmico tampouco “tem dono”. O dono é quem faz, quem usa, quem curte, quem aprimora, quem modifica.

Descobri por estes dias a existência de umas pecinhas de arte fantásticas. São as peças de xadrez de Lewis, esculpidas em presas de morsa por escandinavos no século 12 e encontradas na Escócia no século 19. Provavelmente tratava-se do mostruário de um vendedor, tamanha a diversidade de tamanhos e tipos de peças. O trabalho é deliciosamente minucioso, e as expressões nas caras das peças é única. Além dos tradicionais reis, rainhas, bispos e cavaleiros, as torres são também antropomórficas, representando soldados de infantaria. Dentre eles alguns são “berserkers”, guerreiros que se atiravam à peleia sem armadura, ensandecidos por drogas. Estes são representados a morder o próprio escudo, num paroxismo de fúria. As rainhas têm uma cara desolada, apoiando o rosto nas mãos. Os reis, furibundos, parecem prestes a desembainhar a espada.

Tudo o que é feito pelo homem pertence ao homem, a toda a humanidade. Não existe “apropriação cultural” indébita, mesmo por ser impossível a existência de cultura totalmente isolada

Ora, o xadrez é iraniano, levado à Europa por árabes. As morsas provavelmente foram caçadas na Groenlândia. Os artesãos eram escandinavos. A decoração das partes traseiras dos tronos dos reis e rainhas é evidentemente inspirada na arte celta. Os bispos usam paramentos romanos. As peças estão no Museu Britânico. Pelo tacanho raciocínio dos racistas e demais divididores de gente, a quem pertenceria aquele tesouro? Quem estaria cometendo o pseudocrime de “apropriação cultural”, como se houvesse alguma cultura jamais “apropriada” (até mesmo a cada geração, que forçosamente tudo aprende do zero e reconstrói tudo de novo)?

Mais ainda: que inversão satânica medonha é essa, que como um divorcista ensandecido que quisesse separar quem está bem junto tenta clivar o que Deus uniu – toda a raça humana, única existente – contra a vontade dos interessados?! Somos aqui nestas plagas a vanguarda da mistura, da riqueza, da influência mútua. Temos o privilégio de ser o vira-latas caramelo da humanidade, querido por todos e fruto da mais apaixonada miscigenação. Podemos sorrir, felizes, ao juntar na mesma panela o feijão-preto dos Andes, o porco do Crescente Fértil iraquiano, o louro de que faziam coroas os romanos, o sal dos mares, o alho afegão, a cebola iraniana e o que mais à boa cozinheira apetecer inventar. A isso juntamos o arroz da Ásia, a farinha da mandioca de nosso mato (que pode ter guarnecido os filés do delicioso bispo Sardinha, quem sabe?), pedaços de laranja da China, e digerimos a saborosa concocção com o auxílio de uma também brasileiríssima e portanto universal caipirinha.

Tudo o que é feito pelo homem pertence ao homem, a toda a humanidade. Não existe “apropriação cultural” indébita, mesmo por ser impossível a existência de cultura totalmente isolada. Tudo de toda cultura é apropriado, e é pela apropriação que cada uma se constrói. Até mesmo a Coreia e o Japão, com sua insularidade (no caso japonês, literal) têm muito de chinês, e via China de indiano. O Buda, afinal, não surgiu num jardim japonês; a doutrina daquele filho do rococó delirante indiano foi apropriada e apropriou-se do que encontrou até dar no minimalismo zen-budista nipônico. Que aqui, claro, vira carnaval.

Talvez, na verdade, eu esteja sendo paradoxal; afinal, o que estaria sendo feito pelos divididores de gente, com suas criteriosas gavetinhas étnicas estanques, se não a “apropriação cultural” de um medonho calvinismo imanentizado que surgiu nos Estados Unidos? Quem com ferro fere com ferro será ferido, e quem culturalmente apropria é culturalmente apropriado. “Ou não”, como diria mestre Caetano. Em todo caso, o turbante, e a feijoada, e o sushi, e o vinho, e a pinga, e até mesmo o teclado em que batuco estas mal-traçadas são meus. Meus, meus, todos meus. E teus, e deles, e nossos, e é daí que nos enriquecemos juntos. Felizmente.

Feliz Ano Novo!

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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