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A Via Láctea.
A Via Láctea.| Foto: Felix Mittermeier/Pixabay

Para meu horror, li outro dia que há quem considere o surgimento de monstros fabulosos, quimeras mitológicas que misturam vários bichos num só, um “indício de civilização”... por expressar distanciamento em relação à natureza. Trata-se, como aliás é coisa comum, de uma projeção em que se atribui a gregos e troianos, egípcios e astecas, o defeito de base da felizmente agonizante Era Moderna. Convenhamos; simplesmente não faz sentido algum distanciar-se do resto da mesma natureza criada de que fazemos parte, e tal noção seria simplesmente incompreensível para qualquer povo civilizado tradicional.

Hoje, na ditadura da luz artificial e do ar climatizado, dos carros fechados e dos desinfetantes, é não só possível como provável que as pessoas não saibam a fase atual da lua e não se deem sequer conta da maravilha que é o céu estrelado numa noite sem lua; a poluição luminosa o oculta de nós. Já os antigos, com razão, percebiam-se como parte de um gigantesco mecanismo de ciclos sobre ciclos, em que o movimento aparente dos astros indicava as estações do ano, que por sua vez determinavam o plantio e a colheita, a caça, e o que mais houvesse.

Já a modernidade, no seu afã de fazer do homem seu próprio deus, tenta afastá-lo do restante da Criação como se fôssemos, cada um de nós, um Alá distante que tudo observa entediado. A água brota da torneira e o leite, de uma loja limpa, não de uma vaca suja. Tanto os frangos quanto as alfaces surgem do nada nas gôndolas do supermercado, onde já há até mesmo tangerinas e bananas descascadas e embaladas em plástico.

Negar o tempo é na verdade negar o homem, este filho de Cronos por ele perpetuamente devorado. Tudo na vida humana é regido por ciclos e ocorre em ciclos

Uma das mais apavorantes negações operadas pela modernidade, todavia, é a do tempo. Sua manifestação radical inicial, a Revolução Francesa, ainda se lembrava do mundo “lá fora” quando recomeçou a contagem temporal. No delirante “calendário republicano” os nomes dos meses diziam respeito ao clima ou à etapa agricultural mais comum em cada um deles. Há uma inegável beleza em chamar aos meses “brumário”, “vindimário” ou “nevoso”; tão inegável quanto a imbecilidade de substituir por “décadas” de dez dias as semanas (que correspondem a fases da Lua) por puro preconceito antirreligioso, logo antidominical. De lá para cá, contudo, a coisa foi piorando mais e mais.

Negar o tempo é na verdade negar o homem, este filho de Cronos por ele perpetuamente devorado. Tudo na vida humana é regido por ciclos e ocorre em ciclos. O belíssimo mistério da fertilidade feminina, como as marés, segue a Lua. A própria gravidez é um fenômeno lunar, com duração e fases previstas em semanas (só por agora os médicos decidiram referir-se a elas, o que deixa os mais velhos – acostumados que somos a contar os meses – perdidinhos). Ao mesmo tempo, o ciclo das estações, sem o qual não teríamos nem o que comer nem água nas benditas torneiras, é flagrantemente solar. O ciclo de nossas vidas, por sua vez, ocorre em etapas bem mais longas, mas também inegáveis. Círculos dentro de círculos, ciclos dentro de outros ciclos. Uma criança é uma criança, uma mocinha não é uma matrona, e é impossível confundir a nubilidade de uma bela moça com a sabedoria de uma velha senhora.

A própria Lua, para muitos povos antigos, era percebida como correspondendo às fases da vida da mulher. A Lua nova, que é ausência de Lua, seria a menina; afinal, uma menininha é um projeto de mulher, não uma mulher pronta, feita. A Lua crescente seria a moça núbil, que ao casar e na sua suave barriguinha preparar “outra pessoa” passaria a ser a Lua cheia, o auge. Dali, então, a Lua minguante, com as pontas apontando o poente, representaria a sábia senhora de idade, que tudo já viveu e que sabe muito mais que a moça núbil e a jovem matrona que um dia foi.

Nós, homens, temos por natureza menos beleza e menos poesia. O molequinho, porém, não se confunde com o rapazola, e este não pode ser comparado àquela perigosa violência latente em forma humana que é o rapaz – o que é uma guerra se não matilhas de rapazes atiçados uns contra os outros por velhos cruéis do bem-bom de seus gabinetes?! Do mesmo modo, o homem feito – ou domado por uma mulher, se preferirem, canalizando sua força e sua capacidade de violência para a defesa da amada e das crias – é quase outro bicho que não o idoso, cuja fragilidade física faz, no fim da vida, viúva sua amada de décadas.

Até mesmo cada um de nossos dias é um ciclo: dormimos um terço de cada dia, logo um terço de cada vida. Sentimos fome e a saciamos (ou não), apenas para algumas horas depois o estômago roncar novamente. Visitamos o trono de louça, nos banhamos, trabalhamos, sentimos sono.

Ora, tudo isso é negado, em tese e em ato, pela Modernidade; sua rejeição doentia da natureza humana a obriga a fazê-lo, tratando homens como quimeras e quimeras como realidade. Da “semana” revolucionária de dez dias às empresas com trabalho em turnos para que Mammon jamais deixe de ser adorado, 24 horas por dia e sete dias por semana; da negação dos luzeiros celestes, apagados pela poluição luminosa e substituídos por relógios a denunciar incessante o escoar de cada segundo, a “empregos” em que a presença durante aquelas oito horas predeterminadas é mais importante que o trabalho efetivamente realizado... Em tudo e por tudo o tempo é negado.

Ao “laicizar” o tempo, ao fazer dele mera sucessão de períodos de duração objetiva igual e determinada por desumanos mecanismos físico-químicos, esquecemos de olhar para cima. Não vemos nem o Sol, nem a Lua, nem as estrelas

O mais triste de tudo, a meu ver, é a recusa liminar à sacralização do tempo, quando a própria antropologia nos aponta que é dos ciclos dos tempos que nos vem a percepção do Sagrado. Ao ler um texto antigo de qualquer sociedade vemos que o tempo nunca foi – nem poderia ser, se prestarmos um mínimo de atenção à natureza do que nos circunda e à nossa própria – “laico”. “Digital”. “Numérico”. Inflexível e cruel. As “horas” eram os períodos do dia, com duração média e aproximada de três a quatro das nossas horrendas horas numéricas, engessadas pelo frenético fremir dos cristais de quartzo que assombram as entranhas de nossos relógios. Cada “hora” antiga durava mais no verão e menos no inverno, o que faz pleno sentido. E, claro, jamais passaria pela cabeça nem mesmo do déspota mais ensandecido alguma bizarria equivalente à felizmente finada “hora de verão”.

Os tempos menores correspondiam a, por exemplo, “uma Ave-Maria e um Credo”; afinal, quem tem o hábito de rezar junto com os demais sabe mais ou menos a duração de cada oração. Convenhamos, aliás, que no mais das vezes se preocupar com a diferença entre um e cinco minutos só prova a mais absolutamente errônea escolha de prioridades na vida.

Já os tempos maiores, ah! O ciclo das estações, marcado pelas rogações e pelas têmporas (tristemente abolidas no novo calendário litúrgico); a diferença crucial entre o “jeitão” das sextas-feiras, com sua abstinência de carne, e o festivo, mas silencioso, domingo; as festas dos santos de cada época – sintetizadas em nossos tristes tempos como “festas juninas”, como se comemorássemos Juno e não Santo Antônio casamenteiro, São Pedro e suas chaves do Céu e o bom Batista, vestido de pele de camelo e alimentando-se de gafanhotos e mel – ou os tempos maiores, hoje culturalmente reduzidos à mais sordidamente comercial temporada do Papai Noel ou do coelhinho da Páscoa.

No calendário litúrgico tradicional temos uma progressão mais humana, mais gentil, em que a Septuagésima cala o “aleluia” e nos prepara para a Quaresma, que por sua vez leva ao triste Tempo da Paixão, em que até mesmo as imagens sacras veem-se encobertas, e dele à Semana Santa, num crescendo penitencial que prepara a “surpresa” da irrestrita alegria pascal (aleluia, aleluia). Hoje há onde se cubram as imagens a Quaresma toda, que chega não mais que de repente, sem aviso e sem preparação. Que isso tenha sido feito é compreensível; a sábia Mãe Igreja sabe que seus filhos emburrecemos pela negação moderna dos tempos, e preferiu contrastes fortes, num chiaroscuro brutal que talvez consiga nos despertar. Quem não acorda com o som dos pássaros a saudar o novo dia precisa de um despertador bulhento, batucando tresloucadamente em suas duas campainhas.

É por essas e outras que fico feliz com o fim desse surto de loucura coletiva que tanto mal fez à nossa civilização. Ao “laicizar” o tempo, ao fazer dele mera sucessão de períodos de duração objetiva igual e determinada por desumanos mecanismos físico-químicos, esquecemos de olhar para cima. Não vemos nem o Sol, nem a Lua, nem as estrelas. E, pior ainda, não sentimos sua falta. E, ainda pior, não percebemos o quanto somos minúsculos. Na nossa microbial arrogância, julgamo-nos merecedores do trono divino. Convencemo-nos de sermos deuses, nossos próprios deuses. E enchem-se as ruas de menininhas vestidas de marafonas, senhoras à beira da senilidade posando de núbeis donzelas, vetustos senhores bancando os garotões e rapazes inermes a movimentar freneticamente os dedos numa telinha que lhes faz as vezes da vida.

Passou, entretanto, o tempo de tal loucura. Aos poucos um que outro acorda, levanta-se e olha para cima. E para baixo. E para os lados. E, abrindo-se-lhe os olhos, finalmente percebe o evidente: há Deus, e Deus adentrou-nos o tempo, e é no tempo vivido que nos aproximamos d’Ele, além do tempo e do espaço. E começa, então, finalmente, aquela alma a andar, olhos abertos, busto ereto, pés firmemente apoiados no chão, com a mira fixa no objetivo que nos aguarda ao fim de nosso tempo de Homem.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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