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Quarentenices
| Foto: Prefeitura de Olinda/Wikimedia Commons

Nestes nossos tempos pandemaníacos, pululam o que um amigo batizou “quarentenices”: desprovidos do calor humano de nossos afazeres normais, inventamos maluquices a fazer no aconchego do lar. Ele resolveu lixar e repintar uma guitarra elétrica feiíssima que tem há décadas. Eu fui ainda mais longe: consegui comprar por dois tostões de mel coado uma rabeca nordestina de segunda mão, e estou há já um bom tempo decorando-a com padronagens e desenhos que lembram a escola de arte armorial, do saudoso mestre de brasileirice Ariano Suassuna. Sua sacada maior foi perceber que aqui continuamos o medievo luso – coisa aliás de que escrevi aqui por estes dias.

Como não poderia deixar de ser, a rabeca brasileira é parente próxima da portuguesa – a dita “rabeca chuleira”. Cada uma foi prum lado, contudo, ao longo dos tristes séculos de separação das metades ultramarinas da mesma pátria. A portuguesa encolheu o pescoço, para tocar mais agudo, e a brasileira o esticou, para soar mais grave. E donde viriam ambas? Aí é que a porca torce o rabo; as denominações de instrumentos não eram lá muito fixas nos antigamentes, e ainda que a etimologia possa conduzir aos rabebes árabes, há quem a veja como vindo de outra família, a da viola de braço italiana.

Na verdade, tudo isso é coisa felizmente perdida na noite, ou na aurora, dos tempos. Nada pior para a música que o engessamento, e se nos fosse dado saber essas coisas certamente surgiriam de sob as pedras puristas e preciosistas de toda estirpe, dedicados a fazer da pobre rabeca um instrumento tão engessado quanto seu primo rico, o violino, veio a tornar-se. Basta ver que os pobres luthiers de hoje não apenas têm de fabricar violinos iguais aos do século 17, como se lhes é constantemente pedido que os desgastem artificialmente para que pareçam ser efetivamente sobreviventes daqueles tempos.

Desprovidos do calor humano de nossos afazeres normais, inventamos maluquices a fazer no aconchego do lar. Comprei uma rabeca nordestina de segunda mão, e estou há já um bom tempo decorando-a

Ainda na mesma área, lembro-me dum curso de música medieval e renascentista que sofri, em algum momento do século passado. A arrogância sem fim dos instrutores, que presumiam saber perfeitamente como se tocavam músicas que nenhum ouvido vivo já escutara, foi o que mais me chamou a atenção. De lá para cá surgiu alguma humildade no meio da música antiga, felizmente, e seus intérpretes (ainda que continuem a levar-se terrivelmente a sério, o que a meu ver é o pior pecado que se pode cometer contra qualquer arte) hoje no máximo dizem que seu desempenho é informado historicamente. Não é nada, não é nada, continua não sendo nada, mesmo. Mas é menor mal que se achar possuidor do que Cronos já devorou.

Lancei-me num mar de pesquisas, por conta disso da rabeca – instrumento aliás de rara e sóbria ornamentação, ao contrário do que ora perpetro na vítima que me coube. Fui ter às músicas e instrumentos folclóricos dum monte de países e épocas, e aí descobri o óbvio: o padrão é não haver padrão. No tocante (com trocadilho, garçom, se faz favor) à música europeia, todo mundo herdou, duma ou doutra maneira, os modos gregos, via de regra através da música litúrgica. É fácil imaginar  situação semelhante à dos instrumentistas clássicos brasileiros que, na roda de samba do dia de folga, criaram o delicioso e brasileiríssimo híbrido que é o chorinho. O inglês ou galego com sua gaita de foles, o romeno com seu oboé primitivo, o francês ou italiano com suas cordas amalucadas e cruzadas, na solenérrima cerimônia dum casamento por certo tocavam comportadamente os modos eclesiásticos. A Deus o que é de Deus, afinal das contas. Já na festa de comemoração do mesmo enlace de poderosos certamente davam a César o que é de César e soltavam a franga, inventando na hora sustenidos e bemóis para levantar o salão de dança.

Nestes últimos e tristes séculos é que vieram a surgir os engessadores de músicas. Importaram da arrogância cientificista manias e restrições tão absurdas que, na prática, conseguiram fazer da música erudita composta nos últimos 100 anos algo que na maior parte dos casos prima pela feiura e pelo preciosismo teórico, não mais pela beleza. Criaram o equivalente pseudomusical dos horrores pseudoarquitetônicos com que conspurcam cidade após cidade os que creem que o papel da arte seja chocar, não embevecer.

Daí, até, minha predileção pelo que carinhosamente apelidei de “mistureba”. Coisas como a fantástica Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, os loucos do Gogól Bordello, os ainda mais alucinados Ramoneurs de Menhirs – punks velhos, cantando em bretão enquanto tocam gaitas de foles, que tal? –, ou os abertamente armoriais, filhos diretos de Mestre Suassuna, como o Quinteto Armorial, Antônio Nóbrega e tantos outros. A música que essa gente tão díspar faz tem uma enorme vantagem sobre as eruditíssimas demonstrações feitas pela maior parte dos tocadores de música antiga (que também aprecio muito, diga-se de passagem): está viva. Não é um objeto empalhado num museu, mas algo feito para derramar alegria e beleza, muito mais que demonstrar técnicas de bordão em baixo contínuo ou tecniquice que o valha.

Música, dizia Platão, é a única arte que vai direto à fonte, por assim dizer. Afinal, a escultura duma bela mulher é cópia imperfeita duma mulher que já seria cópia imperfeita duma Mulher ideal. Já a música elimina intermediários e vai buscar na música das esferas a beleza em estado puro. É por isto que digo, talvez de maneira mais simples, que música é vida. Por conseguinte, claro, música empalhada nos faz lembrar o que seria a música de verdade, mas parando justamente na etapa intermédia que Platão dizia que só a música pode evitar. Um erudito, com seu instrumento que copia o mais perfeitamente que se consegue um modelo de época, conhecido apenas por ilustrações, tentando “calar-se” ao máximo para, mediunicamente, incorporar um músico de séculos atrás, corre sempre o sério risco de perder-se no que é empalhado e não deixar sua música cantar.

Há gênios, claro, que conseguem juntar ambos. Jordí Savall é um que não me canso de ouvir. Mas há outros, muitos outros, que infelizmente estão presos a uma concepção tecnicista da virada do século 19. Foi o tempo em que se criou o delírio de que o perfeito modo de conhecer um cachorro seria matá-lo e remexer-lhe as entranhas. Ora, conhecemos cachorros quando os amamos e eles nos amam de volta; o cachorro, já dizia minha mãezinha, é “um saco de couro cheio de afeto”. Suas entranhas não têm afeto, e por isto mesmo nada podem ensinar sobre um ser que é composto basicamente disto. O mesmo vale para uma música “de trovador” que não desperte vontade de dançar, de amar, ou dos dois. Pássaro empalhado não canta, cachorro necropsiado não ama, e música engessada não tange o interior do homem.

Esta quarentenice rabéquica, que me lançou neste estranho caminho do folclórico e do medieval, arrancou-me à força dum mundo musical que sempre habitara. Subitamente saltaram-me à vista amplos panoramas musicais que eu simplesmente ignorava. Sou soprista; comecei na música tocando choro no sax tenor, depois fui ao clássico no clarinete e, de lá pra cá, derivei para o jazz e, mais ainda, o blues e o rockabilly. Abri no que pude meu leque de instrumentos para quase toda a família das madeiras (que inclui o sax, por ser ele um clarinete simplificado). Depois de velho comecei também a aprender piano clássico (perpetrava contra o piano o que os chatos que tocam Legião fazem contra o pobre violão, apenas martelando acordes) e órgão. Com isso de rabeca, todavia, fui ter com as cordas, de que um probleminha num dedo sempre me mantivera afastado. E eis que descubro, mais uma vez, o evidente, o óbvio ululante: é muito mais fácil fabricar um instrumento de corda que um de sopro.

Afinal, a afinação do instrumento de sopro vem da posição dos furos e do comprimento e diâmetro interno dum tubo. Ora, uma vez o buraco feito, é impossível mudá-lo de lugar. Se o lugar dele estiver errado, temos um instrumento desafinado, logo intocável. Já os cordofones demandam apenas que se possa esticar as cordas e que haja um meio de amplificar seu som, normalmente uma caixa de ressonância. Hoje há ainda a possibilidade de eletrificar o instrumento, como com as famosas guitarras e baixos elétricos, ou mesmo o cravo elétrico que Stevie Wonder tocava com maestria.

Pássaro empalhado não canta, cachorro necropsiado não ama, e música engessada não tange o interior do homem

O resultado evidente desta minha descoberta quarentênica, ampliada pela enorme quantidade de informação hoje disponível na internet, é que temo seriamente que esteja em vias de me tornar construtor de rabecas elétricas esfuziantemente decoradas. Ou, quem sabe, mesmo de outros instrumentos que encarnem este princípio basilar da mistureba. Violas da gamba com cabaças como caixa de ressonância, guitarras elétricas com bordões laterais, violas de roda tocadas a pedal. Cuícas de arco. O céu, ou antes os ouvidos dos presentes, é o único limite que pode haver. Instrumentos vivos, inventados na hora e tendo noutros mera inspiração, podem fazer música viva com a mesma facilidade dos engessados, com a vantagem adicional de horrorizar os chatos, os pedantes e os puritanos.

Imagino que esta minha peculiar quarentenice não seja lá muito comum; dos meus amigos virtuais, que são muitos, há apenas um que seguiu o mesmo coelho rumo ao País das Maravilhas, e está neste momento inventando uma harpa cromática. Outros, entretanto, têm escrito contos fantásticos ou ficção científica, aprendido melhor que eu a tocar instrumentos preexistentes, criado processos complexíssimos de informatização da despensa, envenenado mobiletes, dominado a fina arte do cozimento de croissants, treinado aranhas, que sei lá eu. O que importa é que esta infindável quarentena, com suas peculiaridades pós-modernas, certamente está levando muita gente a invenções e crescimentos pessoais de todo tipo. Foi durante uma quarentena que Newton descobriu as leis da física que lhe deram fama, afinal, e o fez sem a nova Biblioteca de Alexandria que é a internet nem compra a distância de material. O potencial das quarentenices de hoje consegue ser muito maior. O que sairá de tudo isto? Que estranhas maravilhas não surgirão a nossos olhos estupefactos quando todas elas ganharem as ruas, algum dia após a vacinação de parcela suficiente da população no-las abrir? Que venham e sejam bem-vindas as tantas quarentenices, pois faz parte do ser humano inventar, remexer, melhorar a si e ao mundo que o cerca. Melhor quarentenar inventando que permanecer no marasmo que nos dominava quando podíamos sair.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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